Henrique Gouveia e Melo é desajeitado nos cânticos, não tem ritmo quando bate num bombo, muitas vezes não espera pelos notáveis que o acompanham na arruada e segue à bolina pela estrada fora. Sem experiência em arruadas, o almirante tinha tudo para ser um desastre na rua. Mas não é. Apesar de seguir sempre direito que nem um fuso, dá beijos, abraços, especializou-se em small talk com eleitores e desvia-se de armadilhas que poderiam comprometer a estratégia. De zero a Marcelo, o candidato tem jeito para o povo.
O cenário tem sido facilitado pelo facto de o almirante não ter tido praticamente rejeição nas ruas e de gozar de um grande sucesso junto de dois grupos: os idosos e os militares (principalmente antigos combatentes). Começando já pela exceção, na Feira de Matosinhos ouviu um comerciante a dizer: “Gosto de si, mas não gostei quando se comparou ao Mário Soares”. Na Rua Direita, em Viseu, um eleitor começou a gritar “Chega” achando que era uma comitiva partidária, mas logo retificou: “Ah, é este, o almirante. Este é que havia de ir lá para Presidente e o André [Ventura] para o Governo”.
De longe, o assunto pelo qual Gouveia e Melo é mais abordado nas ruas é por ter liderado o processo de vacinação. A abordagem é, por vezes, uma veneração messiânica. “Obrigado por nos ter salvado”. “Este homem deu a cara por nós”. “Ali vai o homem que nos libertou”. Tudo frases de potenciais eleitores, todos de cabelos brancos. Eduardo Ribeiro, vendedor no mercado de Vila Real, quis dizê-lo para os microfones: “Se fizer na Presidência o que fez na pandemia, o País anda para a frente. Eu tenho uma filha que é médica e os médicos sabem bem o que este homem fez”.
Apesar de evitar o confronto com André Ventura, Gouveia e Melo lida com bastantes feirantes de etnia cigana. Em Matosinhos, foi abordado por uma cigana que lhe agarrou pelos braços de frente e perguntou: “Eu sou portuguesa?” O candidato respondeu de imediato: “Somos todos portugueses”. Quando a situação pode levar a leituras políticas, tenta desviar-se.
A provocações dos jornalistas sobre se vira à esquerda ou à direita, não se compromete e diz: “Vou sempre ao centro”. E depois, apoiando-se num ombro de uma jornalista, vai alternando ao pé-coxinho, dizendo: “Uma vez com a perna esquerda, outra com a perna direita”. Também na feira de Espinho, desabafou que era um “dia difícil”. Questionado se era por estar em Espinho, atirou: “Com essas perguntas vocês estão a ver se me metem manteiga com uma casca de banana por cima”.
Quando faz sugestões políticas nas conversas é quase sempre involuntário. Um dos temas que tem mais conversado na rua com as pessoas são as sondagens. Um sénior que o abordou no centro de Viana do Castelo disse-lhe: “Tenho as minhas próprias sondagens e o senhor almirante vai ganhar”. Aí, sem qualquer pretensão de fazer um paralelismo com o 28 de setembro de 1974, disse: “Há uma maioria silenciosa que se vai manifestar no dia 18.”
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Outro exemplo é que tem andado, desde o primeiro dia, com um blusão de cabedal de aviador, estilo Top Gun, mas na sexta-feira, 8, o casaco foi pela primeira vez substituído por um sobretudo verde — e logo foi picado por um jornalista com o Loden de Freitas do Amaral. Das duas uma: ou o almirante não percebeu a referência ou não quis perceber. Também em Ponte de Lima, à saída de um comício, quando lhe pediram para tirar uma fotografia com uma bandeira a dizer “Prá frente Portugal”, Gouveia e Melo leu a frase, mas agiu como se não percebesse que era uma velha bandeira da campanha de Freitas do Amaral em 1986.
Nada de selfies e os desbloqueadores de conversa: Churchill, o up yours e a Ibéria com sede em Lisboa
Henrique Gouveia e Melo tem notoriedade pública e, por isso, quase todos o reconhecem nas ruas. Mesmo que não o conheçam pelos apelidos, conhecem-no pela patente militar: “Ah, é o almirante”. Há muita gente que lhe pede fotografias e a tendência é para começarem a virar a câmara para tirar uma selfie. Mas, nesse momento Kodak, Gouveia e Melo acede sempre à fotografia, mas rejeita que seja uma selfie e pede a uma pessoa que esteja próxima para fazer de fotógrafo. O almirante já tinha confessado noutras ocasiões que “as selfies estão muito usadas”, querendo distanciar-se de um estilo de fotografia que foi imagem de marca do incumbente Marcelo Rebelo de Sousa.
Noutras vezes, Gouveia e Melo conta histórias aos eleitores. Em Guimarães, perto da estátua de Afonso Henriques, começou posou a fazer o vê de vitória para a fotografia. Depois, disse que o Churchill usava esse vê quando falava para os britânicos, mas voltava a mão ao contrário quando falava para os alemães. “Fazia a assim, que significa upyours [eufemismo para up your ass]”, explica Gouveia e Melo enquanto exemplifica o gesto com as mãos.
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Antes disso, no Paço dos Duques, cruzou-se com uma visitante que percebeu que era espanhola. Depois de explicar à turista que era candidato à Presidência da República, a espanhol comentou: “Portugal e Espanha deviam ser um só País, a Ibéria“. Ao que Gouveia e Melo respondeu na brincadeira em espanhol: “Mas a capital tinha de ser Lisboa”. A cidadã espanhola não desarmou: “Que así sea“.
Minutos depois, na rua, novo encontro com uma emigrante portuguesa, que garantiu ter vindo “da Alemanha só para o ver”. Gouveia e Melo tomou a dianteira da conversa enquanto dava três beijos na mesma senhora. “Na Alemanha é assim”, atirou. A mesma emigrante fez um pedido ao almirante: “Quando lá chegar, baixe as rendas”. O candidato disse de imediato que não tinha poder para isso, que isso competia ao Governo.
Os pelotões e os plantados
Há vários militares no ativo e ex-combatentes que abordam Henrique Gouveia e Melo. Ainda esta segunda-feira, em Espinho, um antigo militar foi cumprimentar o almirante: “O meu número é o 132/77”. São às dezenas as abordagens similares. Durante uma visita aos bombeiros Macedo de Cavaleiros até encontrou um antigo camarada dos submarinos: “Este andou comigo lá nos charutos, lá debaixo”. É também comum haver agentes da PSP que batem continência a Gouveia e Melo. O assunto também vai sendo falado na rua. Também na Feira de Espinho ouviu de uma senhora: “Só um militar, para isto endireitar”. Gouveia e Melo atirou: “Essa até rima”.
Ainda sobre a abordagem de um militar, uma espinhense — que se costuma abraçar aos beijos e abraços a Montenegro quando o primeiro-ministro vai à feira — disse a Gouveia e Melo que é preciso “respeito e ordem”, típica dos militares, mas fez-lhe um pedido: “Não seja salazarista“. E ainda lhe deu um conselho: “Devia sorrir mais. Tem um sorriso bonito, como o do Goucha”.
Gouveia e Melo é também elogiado várias vezes, quer pelo porte físico (“é mesmo alto”, é “como na televisão”), quer pelos olhos. Ouve muitas vezes, principalmente de senhoras idosas, que tem “os olhos muito bonitos”. Na maioria das vezes, fica sem jeito e meio envergonhado. “Não diga isso, que eu fico sem saber o que dizer”, chega a verbalizar. Às vezes, incomodado, limita-se a agradecer e a sorrir.
Há episódios espontâneos (como um idoso que votou em Gouveia e Melo no domingo e lhe mostrou, em Chaves, a fotografia do boletim), mas também os há plantados pelo staff. Em Viseu, um jovem apareceu na rua e agradeceu “em nome dos jovens a Gouveia e Melo”, mas na verdade era o líder da Juventude Popular local e apoiante do almirante. O momento foi fabricado. O mesmo aconteceu com uma militante do PSD que apareceu “espontaneamente” na pastelaria São Bento em Santo Tirso a mostrar o cartão para as câmaras e a dizer que ia votar no almirante. É verdade que é militante e que vota no almirante, mas o momento foi encenado para as câmaras.
Um novo action man
Depois de terem circulado imagens de Luís Marques Mendes pouco ágil com luvas de boxe e a fazer movimentos geriátricos com idosos, a campanha de Henrique Gouveia e Melo — que é apenas três anos mais novo que o ex-líder do PSD — começou a promover atividades mais ágeis.
Desde logo, Henrique Gouveia e Melo foi no domingo ao quilómetro zero da Estrada Nacional 2, em Faro, conduzir uma Harley-Davidson, dando uma pequena volta pela cidade. Apesar do peso da mota e precisar de uns segundos para se equilibrar, acabou por correr tudo bem e o motard Gouveia e Melo mostrou o seu vigor em duas rodas. Era essa vitalidade que a campanha queria demonstrar.
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Já esta segunda-feira, Gouveia e Melo foi fazer rafting no rio Paiva, numa ação que o Observador acompanhou dentro do insuflável em que seguia o almirante. Antes da atividade, Gouveia e Melo negava estar a querer mostrar o seu lado mais “radical“, alegando que isso é uma “inutilidade” para quem passou vários anos a navegar em submarinos.
Henrique Gouveia e Melo começou por admitir que tinha saudades da vida anterior, da Marinha. Usando os conhecimentos das Forças Armadas, além do guia, o próprio almirante ia dando conselhos, para o caso do barco insuflável, onde o Observador também seguia, virar. “O truque é respirar, manter a calma, e deixarmo-nos levar pela corrente, que alguém há-de ir buscar-nos.”
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O percurso era difícil e as águas estavam fortes. O máximo que a empresa considerou seguro fazer foi um rápido de grau de dificuldade 4 em 6. No rápido de dificuldade 6 em 6, o instrutor preferiru que fosse passado a pé, pelas rochas, e o almirante protestou: “Não dá para ir?” Ao que o guia explicou: “Nós classificamos as descidas com caveiras, por perigo de morte, e com cervejas, pelo grau de diversão que dão. Neste caso as caveiras não justificam as cervejas. É realmente perigoso. Não vou ser eu o responsável por impedi-lo de chegar a Belém”.
Pelo caminho, Gouveia e Melo foi contando histórias da Marinha, como um praxe em que puseram os braços a remar ao som de um tambor que ia no barco. O percurso do almirante foi todo feito ao lado de uma apoiante do staff que se chama Vitória. Em momentos mais conturbados, Gouveia e Melo segurou a Vitória, para que não fosse borda fora. No fim do percurso, atirou-se de costas do barco e ainda foi a nadar cerca de 50 metros até à margem,