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Um amigo “como já não há”, professor “paciente”, e “filho da terra”. Quem era André, o guarda-freios do Elevador da Glória

André, com 45 anos e há 15 na Carris, morreu a conduzir o Elevador da Glória. Ensinou vários guarda-freios e, na aldeia onde nasceu, era atencioso com toda a gente. Funeral será no dia 6 de setembro.

Todas as semanas André Marques, cuja dedicação o fez guarda-freios do Elevador da Glória, guiava dos Restauradores ao miradouro de São Pedro de Alcântara e vice-versa. Um dia, na televisão, enganou-se na distância: eram 265 metros, não 200, brincaram na altura os colegas e aprendizes que, hoje, o recordam emocionados ao Observador como “excecional” e um “amigo como já não há”. E não era só na Carris que o guarda-freios de 45 anos tinha um lugar especial; também em Sarnadas de São Simão, perto de Oleiros, todos o distinguiam pela bondade e pela alegria. Esteve na sua aldeia pela última vez durante as festas populares, há três semanas. Já no próximo dezembro, também não será André Marques a vestir-se de Pai Natal e a guiar um elétrico cheio de crianças.

Mais do que um bom profissional, Tibi, alcunha que o acompanhava na aldeia desde miúdo, era marido, pai de duas crianças e regressava muitas vezes à terra para estar com a mãe idosa que ainda vive, tal como uma irmã, na pequena aldeia. Da região Centro saiu já adulto para Lisboa onde estudou e, após uma breve passagem pelo ramo da segurança privada, entrou na Carris.

André Jorge Gonçalves Marques, de 45 anos, foi um dos cinco portugueses a morrer no acidente que ocorreu pouco depois das 18h da última quarta-feira. No total, foram 16 as pessoas que morreram (de dez nacionalidades diferentes) e 22 as que ficaram feridas. A Câmara de Lisboa decretou luto até sábado. Entretanto, na Calçada da Glória, já nada resta do ascensor a que André dedicou a vida.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Amigo viu o vídeo, mas não acreditou: “Disse logo que era Inteligência Artificial”

Muitos guarda-freios terminavam o dia de trabalho quando os grupos nas redes sociais se encheram de vídeos onde surgia a Praça dos Restauradores. “Passado dez minutos do que tinha acontecido, recebo o vídeo por WhatsApp. Vi o ascensor descarrilado e disse logo que era Inteligência Artificial”, conta Pedro, enquanto aproveita, como o fazem todos os condutores do 28, a breve paragem entre o final de uma viagem e o início de outra, no Martim Moniz.

Ao ver os bombeiros nos escombros, a desconfiança deu lugar ao medo de quem sabe perfeitamente o horário do colega. “Eu sei que nessa altura do dia o André está lá. Fiquei imediatamente preocupado. Tentei ligar ao colega que naquela hora estava no ascensor de baixo e ele não estava a atender o telefone. E eu percebi que havia ali qualquer coisa. Nem com a rádio [de comunicação entre trabalhadores] estavam a atender. Liguei para muita gente, ninguém estava a atender”, relata.

Pedro passou a pausa de turno dentro do seu elétrico, junto aos Prazeres. Perguntou várias vezes: “Já falaram com eles? Já falaram com eles?”. Sem resposta, começou “a ficar mais em alerta”. Antes de deixar o serviço, os elétricos ainda ficaram sem energia — procedimento normal quando há estes acidentes — o que originou uma grande fila de veículos na zona da Bica (local onde há outro dos quatro ascensores da cidade, parados até ordem em contrário desde quarta-feira). Sem nada a fazer para prosseguir viagem, os guarda-freios concentraram-se num café para ver as notícias do acidente. Um colega ainda correu os quase 900 metros que separam a Bica do Elevador da Glória para tentar “ver o que se passava e dar notícias”.

“E pronto…”, conclui Pedro, apressado pelo fim da sua pausa e já com mais do que um elétrico na fila onde está parado o 28 que chegou a ser guiado muitas vezes por André.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Em Lisboa há mais de 20 anos, Tibi regressava à terra onde nasceu sempre que podia

“Era meu primo… e da minha idade. Um jovem magnífico, com um sorriso fácil e inigualável, magnífico”, recorda Nuno Marques, presidente da junta de freguesia de Sarnadas de São Simão, e que com ele cresceu na aldeia. “Era um dos meus, como costumo dizer”.

O primo não se lembra de como surgiu a alcunha de Tibi, mas garante que na escola, André já era uma criança alegre. “Ao pé dele nunca estávamos tristes. Ele estava sempre contente, tratava-te bem, sempre extrovertido”, elenca Nuno. Aliado a isso, tinha uma “maneira fácil de fazer rir, de comunicar.”

Miguel Marques, presidente da Câmara de Oleiros, era também primo afastado de André — “o pai dele era primo direito do meu pai”, nota. Descreve uma bondade contagiante que não deixava, muito menos agora, ninguém indiferente: “Era um rapaz muito simpático, sorridente, estava sempre disposto a ajudar a família e a freguesia que o viu nascer”. No futebol, preferia o Benfica.

Apesar de afastado de Sarnadas de São Simão há “seguramente 25 anos”, André era presença constante na aldeia sempre que o trabalho o permitia. “Sempre que ele tinha uma folga e tinha essa oportunidade, ele deslocava-se aqui. Aliás, pelo que eu percebi de contactos com a família, ele até estaria de folga este próximo fim de semana e, em princípio, iria deslocar-se aqui para a terra natal dele”, desvenda o presidente da junta.

“Vinha regularmente matar saudades. Passou praticamente o agosto todo nas Sarnadas. Foi só uma semana de férias para Espanha, mas depois voltou”, recorda Nuno Marques. Nesse mês, marcou presença nas festividades locais, onde também esteve com o primo afastado: “Há cerca de três semanas, mais ou menos, estive com ele, lá nas festas populares”.

Em Lisboa, prosseguiu estudos e trabalhou como segurança. Apaixonou-se pela mulher, que também era de Oleiros, e com quem teve dois filhos (agora com idades entre os 11 e os 16).

O luto nacional é mais sentido na terra que o viu nascer, crescer e cuidar de todos com quem se cruzava. “Era atencioso com todos os velhinhos, toda a gente, sendo familiar ou não”, desabafa Nuno, descrevendo uma aldeia agora cabisbaixa e sem forças.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Dedicação de André levou-o aos ascensores. E a ensinar outros guarda-freios

Todos os guarda-freios que vão parando esta quinta-feira no Martim Moniz têm uma palavra amiga para dizer sobre André. Quem o conhece não consegue disfarçar a voz trémula, quem não o conhece tão bem — porque está na Carris há pouco tempo ou porque nos últimos anos André se tinha dedicado mais aos ascensores, não passando tanto por aquela zona — assume que nos breves momentos em que conviveram sempre ficaram com boa imagem dele.

Uma colega aconselha a espera pelo elétrico seguinte, onde vem “quem o conhece muito bem” e terá certamente algo para dizer. Menos de dez minutos depois aparece Pedro, que ao ouvir o nome de André, suspira, sorri timidamente, abana a cabeça e tira os óculos de sol. “Tenho tantas, tantas histórias com ele…”

Depois de chegar a guarda-freios, André foi ganhando experiência e destacando-se como um trabalhador exemplar. Fruto da dedicação, começou também a guiar ascensores, o que pode acontecer depois de “um ano de experiência”, por ser necessária mais formação, explica ao Observador Francisco Oliveira, presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes.

O dirigente sindical ressalva que essa evolução não é linear: “há guarda-freios com dez anos de experiência que nunca chegam aos ascensores”. André pertencia à Estação de Santo Amaro e “estava sempre disponível para empresa e já com responsabilidade, por isso fazia muitas vezes o trajeto do ascensor”.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

“Hoje em dia, praticamente só fazia aquele trajeto. Os guarda-freios depois de escolherem determinado tipo de serviço fazem uma rotação e nessa rotação podem fazer por exemplo duas semanas nos ascensores e depois duas semanas nos elétricos. Neste caso, ele tinha muito o serviço na Glória. Todas as semanas fazia serviço lá, mas também ia aos elétricos”, descreve.

A formação para guarda-freio, geralmente, dura dois meses e meio, contemplando uma componente técnica e prática lecionada pela Carris. Depois, quando passa aos ascensores, há novas lições específicas, de cerca de uma semana.

Reconhecido pelo seu bom trabalho, o oleirense foi escolhido para acompanhar novos colegas. Pedro, recorda agora, teve a sorte de calhar com André nos primeiros dias de teste. “A empresa, nomeadamente as chefias, selecionam pessoal com mais experiência e com uma certa paciência e que não se importa que o guarda-freio faça alguns erros, que ainda não conduza de acordo com o que é considerado uma boa condução defensiva”.

“Há de haver um critério em termos psicológicos. A chefia vê quem é uma pessoa com mais paciência, mais abordável. E quando se vê que há assim alguém, um guarda-freio mais aberto, mais simpático, com mais paciência, que saiba conduzir bem, que tenha sido acompanhado e bem avaliado por parte das chefias, eles escolhem sempre para acompanhar alguém”.

“Eu tive o prazer de ter o André a acompanhar-me vários dias na 28”, lembra, sentado dentro do elétrico que faz a mesma carreira. Como professor, o guarda-freio era mais prático do que teórico, o que Pedro confessa ter sido uma grande ajuda: “Sempre gostei disso nele”. “O mais novo tem que ser acompanhado nos primeiros dias, para ver se não faz erros e onde pode melhorar. Às vezes o acompanhante até pode dizer que ainda não está pronto”. Felizmente, completa, não foi o que aconteceu no seu caso.

“Foram momentos muito bem passados. Já o conheço há uns anos e sei de histórias, fora e dentro da empresa, que mostram o caráter dele, que era um bom colega e um bom pai. O que ele tinha para dizer era dito. Não usava eufemismos, mas dava-se com as pessoas”, completa. Mesmo com a falta do amigo, reconhece que ainda tem “muito para aprender com ele”.

A olhar para o lugar vazio do condutor, assume que às vezes, como faz agora, sentava-se como um passageiro mais e ficava “ali, só a vê-lo a conduzir. E absorvia”. “Ele era, e foi, importante para mim”.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Um “pai sempre presente” que guiava elétricos vestido de Pai Natal

Entre as homenagens que se vão multiplicando nas redes sociais, há quem recorde a dedicação de André, não no trabalho, mas nas festas do colégio onde tinha os dois filhos, numa escola do município de Odivelas. É sempre lembrado como um “pai sempre muito presente” e muito “participativo nas atividades e festas” dos dois filhos.

Nesse estabelecimento de ensino, a ligação da família Marques dava-se não só por ser o local frequentado “durante mais de dez anos” pelos dois filhos do casal, mas também por ser local de trabalho da mulher de André. Uma ex-colega, que prefere manter o anonimato, lembra-se bem de quando a esposa do guarda-freio ficou grávida e elogia os dois “filhos magníficos” do casal.

Em dezembro, André assumia o papel de Pai Natal e vestia o fato vermelho. Era ele quem guiava o “Elétrico de Natal”, uma iniciativa da Carris destinada às crianças. Os colegas frisam que os trabalhadores que aderiam não recebiam mais e era voluntariado. Algo perfeito para André: não era “qualquer um” que fazia esse serviço.

O dia de trabalho apanhado pela TV e os conselhos aos mais novos

Com a farda habitual dos funcionários da Carris e a identificação com A. Marques ao peito, uma das habituais jornadas de trabalho foi captada pela SIC e agora imortalizada. Entrevistado por Miguel Costa pouco falou: disse que a subida era de cerca de 200 metros e admitiu que custa “um bocadinho”. No Facebook, depois de ter sido corrigido por um amigo (a subida é de 265 metros), assumiu que “foi tudo inesperado” e reagiu com humor: “Se eu tivesse tempo para ir à net como tu, sabia dizer o número exato, assim de repente foi o que se arranjou, foi tudo tão inesperado que fiquei…”.

Agora, surpreendido — e com enorme tristeza — pela morte de André, Miguel Costa recordou-o nas redes sociais: “Há cerca de dois anos, tive a sorte de o conhecer, quando de forma generosa e simpática aceitou conversar comigo, sem qualquer aviso prévio, no Alô Portugal. Hoje, recebemos com enorme tristeza a notícia da tragédia do Elevador da Glória. (…) O guarda-freio simpático, prestável e bondoso que conheci neste dia, e que nunca esquecerei. Um daqueles encontros breves, mas que ficam para sempre na memória”.

As saudades já apertam. “Não é um ser humano fácil de encontrar por aí. Estava sempre alegre, estava sempre tudo bem, nunca havia problemas”, resume emocionado Eduardo, depois de ter partilhado muitos momentos com o colega.

“Eu lembro-me ainda de conversas que tive no início com ele”, relata o funcionário que está na Carris há oito anos. “Ele dizia-me para ter calma e para para fazer as coisas com calma e devagarinho. Essas coisas que os mais velhos costumam dizer, os conselhos. Cumpridor, ajudava sempre as pessoas. Ele conhecia muita gente, daqueles clientes mais recorrentes que temos aqui no 28. Inclusive ele ajudava aquelas pessoas de mais idade a subir e a descer o elétrico”.

“Sempre bem disposto, sempre bem disposto. Às vezes, quando as coisas até não lhe corriam bem, que às vezes tinha passageiros que não lhe facilitavam as coisas. Há gente mais simpática do que outras. Mas há muita gente simpática que se aproxima e que se interessa pelo que fazemos”, completa Pedro.

O aprendiz de André lembra que rapidamente começaram a conviver fora do trabalho, em jantares combinados com colegas e ex-guarda-freios. Nos últimos tempos, lamenta, cruzavam-se menos, por um ter turnos diurnos e o outro, noturnos. “Brincava comigo porque eu sou assim mais magrinho”, diz enquanto volta a sorrir.

Recordando a tragédia de quarta-feira, os guarda-freios não têm dúvidas em defender que se alguma coisa de errado aconteceu, não foi culpa do colega. “Às vezes os bons vão e os maus é que cá ficam, que é o que se costuma dizer”, resume Eduardo.

As cerimónias fúnebres do homem que morreu a fazer o que gostava também terão lugar na terra que o viu nascer. O corpo estará em câmara ardente na Capela Mortuária da Basílica da Estrela, a partir das 16h00 desta sexta-feira, de onde sairá às 19h. O funeral será às 18h30 de sábado na Igreja Matriz de Sarnadas de São Simão, sendo depois sepultado no cemitério local.

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