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Os dois candidatos estiveram, no mesmo dia, em campanha em Carvalhos.
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▲Os dois candidatos estiveram, no mesmo dia, em campanha em Carvalhos.

▲Os dois candidatos estiveram, no mesmo dia, em campanha em Carvalhos.

Um candidato "apático", outro que "só tem altura". Em Gaia, o regressado Menezes e o estreante Correia lutam por dois legados

Menezes volta 12 anos depois com boa receção popular e acusações de PS ter montado "operação de marketing caríssima" contra si. João Paulo Correia faz transição para PS novo e lembra "traição" a Gaia.

“Onde é que está a minha mulher? Eu quero a minha mulher”. Desejo cumprido: Ana Caetano Menezes, mulher de Luís Filipe Menezes, aparece ao seu lado, o braço esquerdo de um entrelaça-se ao braço direito do outro e o ex-autarca já pode começar a missão matinal de percorrer a feira dos Carvalhos, em Vila Nova de Gaia. Menezes ainda aceita que um elemento da equipa lhe dê um jeito ao cabelo e opina sobre as compras que a mulher vai fazendo nas bancas (bacalhau, queijo, banana, castanhas), mas assim que entra no recinto o seu foco é total: na próxima hora passará o tempo, ou não fosse um profissional de campanha, a percorrer a feira em passo rápido mas sem deixar uma feirante por beijar, traçando o espaço em movimentos diagonais para chegar a todos, agarrando com força os braços de quem o interpela.

Nesta manhã de quarta-feira, o antigo autarca de Gaia, candidato regressado ao fim de doze anos, tem razões para fazer um sorriso confiante a quem passa: a última sondagem publicada sobre a corrida no concelho atribuía-lhe oito pontos de vantagem sobre o principal adversário, o socialista João Paulo Correia, e se a feira de Carvalhos for um barómetro fiável a confiança de Menezes sairá reforçada. Na equipa fazem-se contas e especula-se que poderá mesmo vir a ser um dos autarcas mais votados no PSD — até por se encontrar no terceiro mais populoso do país, depois de Lisboa e Sintra. É claro que ter governado a autarquia durante doze anos tem os seus riscos em termos de popularidade e desgaste, mas ou a manhã é de sorte ou a memória que ficou de Menezes é sobretudo positiva.

Ao Observador, o candidato que muitos dos feirantes tratam por “o presidente” confessa até ter ficado “surpreendido” com a receção que tem nas ruas, prova da “confiança” que o eleitorado gaiense continua a ter em si e nas suas propostas — “é uma adesão espetacular, o povo é tudo menos estúpido“. Feira fora, Menezes agarra-se a quem vê à frente, distribui beijos, fala ao ouvido de feirantes e clientes, trilha caminho como quem conhece bem o terreno. Normalmente seria raro ouvir-se que “voltar ao passado” é um objetivo positivo, mas é isso que grita uma das vendedoras: quer voltar ao passado de Menezes.

Quem vai recordando os problemas desse passado é a candidatura do PS, que lembra a dívida superior a 300 milhões de euros que Menezes deixou quando saiu da câmara — por limitação de mandatos e para se candidatar à autarquia do Porto, corrida que perdeu contra Rui Moreira — e fala, por isso, numa “gestão desastrosa” e num ponto de partida “tenebroso” com que o PS teve de lidar quando chegou ao município, em 2013. O tema tem dominado boa parte da campanha e a equipa de Menezes vai frisando que boa parte dessa dívida traduziu-se em investimentos úteis, que hoje marcam a cidade, da reabilitação da frente ribeirinha à construção de bairros sociais.

Mas Menezes vai mais longe na resposta, falando ao Observador numa “narrativa” contra si “montada pelo anterior executivo, o que até podia dar em processo judicial”, denunciada até por antigos colaboradores do PS na câmara “muito credíveis”. É o caso do antigo adjunto (de 2013 a 2016) do atual presidente da câmara, Bruno Santos, que nas redes sociais escreveu um texto em que garantia ter acompanhado “muito de perto a estratégia comunicacional” do primeiro mandato de Eduardo Vítor Rodrigues na autarquia: ” Acompanhei diretamente o processo de consolidação estratégica e promoção de uma narrativa centrada na ideia de “falência financeira” da autarquia e de uma “dívida colossal” herdada dos mandatos anteriores de Luís Filipe Menezes, que agora se candidata de novo à presidência da Câmara”.

Segundo o ex-adjunto, o executivo socialista teria então desenhado “planos comunicacionais”, selecionando “números isolados, retirados do contexto flobal das contas municipais”, e interpretando de forma “enviesada” os relatórios financeiros, num discurso “com que se pretendia simultaneamente censurar o passado – os mandatos de Luís Filipe Menezes – e justificar a falta de iniciativa e capacidade criadora do presente”. “As estatísticas foram moldadas e disseminadas para transmitir um falso cenário de colapso, quando a realidade era bem mais complexa e longe de corresponder a essa representação distorcida, manipulada e notoriamente instrumental”, escreveu.

“Havia, na equipa dirigente montada pelo PS Gaia, quem considerasse impossível um desempenho político equivalente, ou sequer parecido, com o que Luís Filipe Menezes tivera nos seus mandatos. Era necessário, portanto, fabricar um cenário fantasioso de dificuldades inultrapassáveis, herdadas do “despesismo” e do “desperdício” anteriores, ameaças de “falência”, projecções catastrofistas que pudessem posteriormente justificar um fantasioso milagre de rigor orçamental e de recuperação financeira – as famigeradas “contas no verde”. Tratou-se, na verdade, de uma gigantesca e caríssima operação de marketing político“.

Importa recordar que Bruno Santos saiu a mal da câmara, depois de se desentender com o presidente, que lhe dedicou um texto nas redes sociais em que o acusava de “culambismo” [sic], de ser “mal formado” e estar num lugar importante “por efeito de escolhas mal feitas (mea culpa)”, de ser vigarista e corrupto. O autarca chegou a ser acusado de difamação por causa dessas publicações, mas foi absolvido pelo Tribunal da Relação.

▲ Luís Filipe Menezes, acompanhado pela mulher, em ação de campanha.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Os dois legados em confronto e o exemplo de Santana Lopes

As tensões entre a candidatura de Menezes e o PS estão longe de ficar por aqui: ainda em conversa com o Observador, numa pausa na sua corrida às bancas da feira dos Carvalhos, o ex-autarca caracteriza o atual poder em Gaia como “muito autoritário“, recordando que a câmara “distribuiu subsídios a granel” agora, na reta final do mandato, numa reunião realizada esta semana.

Menezes já tinha acusado os autarcas socialistas de terem uma “atitude de desespero e delírio de quem se quer manter no poder de qualquer forma”, num “último suspiro vindo do além”, e de estarem “ao serviço da candidatura do PS no concelho”; o executivo frisou que os apoios atribuídos a instituições nesta reunião foram “aprovados na maioria das vezes com o contributo dos vereadores do PSD” e estavam “pendentes“, sendo de “extrema relevância” para as instituições em causa.

A ideia de Menezes, nesta corrida que no fundo confronta dois legados – o seu, há doze anos, e o do PS, numa série de três mandatos que termina agora — é concentrar-se em tratar da “classe média, que está exangue”, desde logo pela Habitação: assegura que a promessa de construir mais quatro mil casas não é megalómana, pelas grandes dimensões do concelho (ali ao lado, no Porto, Manuel Pizarro é acusado pelo PSD de comprometer as contas com uma proposta para construir cinco mil casas, sendo que o Porto tem um orçamento maior) e porque vai tentar recuperar a fatia do Plano de Recuperação e Resiliência que não chegou a ser executada no concelho.

Na feira, dá um abraço particularmente apertado a uma feirante que lhe diz que “está tudo pior”. Outra considera que em Gaia “está tudo paradinho”. Menezes vai atirando promessas de “resolver isso”, “mudar aquilo”, incluindo na mobilidade, que motiva várias queixas: quer “mudar tudo” nos transportes, considerando que a rede de autocarros UNIR veio “mimetizar o sistema que existia e fazer pior, porque a fotocópia é sempre pior do que o original” e que vai mudar o sistema — numa primeira fase, em dois a três meses, para resolver os problemas mais urgentes de quem precisa de se deslocar no concelho; definitivamente, a um ano e meio, incluindo-se também o plano de “abrir mais duas ou três vias estruturantes a sul”. Nova farpa ao executivo socialista: “Tem um pensamento do século XVIII, só faltou pôr os gaienses a andar de carroça e de burro“.

▲ Menezes fez questão de cumprimentar os vários feirantes que estava na feira dos Carvalhos.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Mas fora as propostas, João Paulo Correia guarda-lhe um último ataque, a puxar pelo lado mais emocional da política: em 2013, quando os seus mandatos em Gaia terminaram, Menezes candidatou-se ao Porto (perderia contra Rui Moreira) e segundo o socialista “desvalorizou” o seu antigo concelho, numa “traição” que os gaienses ainda recordam. Menezes responde com ironia e comparando o seu regresso ao de Pedro Santana Lopes à Figueira da Foz: “É, as pessoas na Figueira ficaram tão tristes quando Santana voltou…”. Risos na equipa. E dispara: “É o tipo de crítica de um político pequenino, só tem altura em centímetros, porque dimensão intelectual não tem”.

Apesar de a grande maioria das interações na feira ser positiva (“dê-me um abracinho, que eu gosto muito de um abracinho de uma pessoa bonita”, pede a uma idosa junto a uma banca de fruta; outra mostra-lhe fotos dos netos no telemóvel), Menezes termina a ouvir um recado desagradável: uma mulher diz-se “muito magoada” com ele porque o irmão morreu enquanto era funcionário da câmara, no tempo de Menezes, e ele “nem seguro lhe deu”, não respondendo aos pedidos da família. O candidato nega ter recusado os pedidos para que a viúva fosse ouvida. “Oh, nunca tem culpa”, atira, desagradada, a cliente da feira, que com uma amiga começa a gritar pelo PS: “Não gosta mas teve de ouvir!”. Menezes remata assim: “Tenho 80% de apoio nesta feira, as senhoras não gostam… é a democracia a funcionar!”.

Um PS a tentar virar a página (contra o “apático” e “cansado” Menezes)

João Paulo Correia vai acabar a manhã perto dos Carvalhos, mas arranca na junta de freguesia de Oliveira do Douro. E corre um risco: visita o bairro municipal D. Manuel Martins, onde, como nos restantes bairros sociais, se regista algum sentimento de gratidão para com Menezes. É por isso que ouve logo uma mulher que dispara: “Quem limpou isto tudo foi o Menezes, que isto era uma miséria”. O socialista não se deixa ficar: “Mas quem fez a manutenção nestes anos foi a câmara, não foi ele”.

Pouco depois, uma mulher reclama por ser a primeira vez que vê o presidente de junta — falso, responde imediatamente este — no seu bairro. “Não minta, fomos esquecidos, ninguém fez nada. Sabe quem foi o único que fez alguma coisa aqui?”. Bingo: “O Menezes! Tenho de ser sincera, quem gostar de mim gosta, quem não gostar não gosta!”, grita. Mas há uma nuance importante que a equipa nota: com o candidato à câmara, a mulher é gentil, não reclama e aceita uma caneta de brinde; a fúria foca-se em Filinto Lima, atual presidente da junta (e presidente da Associação Nacional dos Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas).

A distinção é uma das chaves da campanha, e um equilíbrio que João Paulo Correia para fazer: estando evidentemente ligado ao PS de Gaia e não rejeitando a herança de Eduardo Vítor Rodrigues, tenta ao mesmo tempo distinguir-se e prometer que seguirá um novo rumo (“O que foi bem feito vamos continuar”, resume o contagiante hino de campanha do PS transmitido pelas colunas).

O principal motivo de distanciamento seria, claro, o processo que levou à perda de mandato definitiva de Eduardo Vítor Rodrigues, ao fim de três mandatos, por uso indevido de um carro do município, e que fez com que a presidência da câmara passasse para as mãos da vice, Marina Mendes, a 30 de junho. O facto de o ex-vice presidente da câmara, Patrocínio Azevedo, ter sido acusado pelo Ministério Público de 18 crimes, incluindo cinco de corrupção na Operação Babel, levou a que Menezes falasse numa “palete de arguidos” produzida pelo PS na câmara: “Ninguém conseguiria tanto arguido junto”.

João Paulo Correia sabe que agora a missão é apresentar-se como um PS novo, fresco, que recupera o que o executivo anterior fez de bom (ou o programa não começasse por apresentar o legado “2013 vs 2025”) e se distancia das polémicas e casos judiciais, concentrando-se em propostas como a construção de 1100 casas (quem prometer mais está a mentir, avisa), a criação de um gabinete para a transparência na câmara, a eliminação das portagens e a execução da linha rubi de metro e da linha de alta velocidade, que passará por Gaia.

Enquanto espera para falar aos jornalistas, João Paulo Correia recebe um apoio entusiástico: uma idosa agarra-se ao candidato a gritar que o PS vai ganhar. “‘Tava ansiosa por ver aqui o PS, caraças! Viva o PS! Já passaram à minha porta os do Chega e eu disse assim: chegai para lá!”. O município foi governado pelo PS nos últimos três mandatos e os fiéis ainda são, naturalmente, mais que muitos.

O episódio tem como paisagem sonora o hino de João Paulo Correia, que a equipa se orgulha de ter sido elogiado por Pedro Santana Lopes no seu espaço de comentário no Now. Na verdade, Santana foi mais longe, reconhecendo que a campanha do socialista está a crescer. “Os amigos de Gaia”, como veio escrever num esclarecimento deixado no Facebook, não gostaram e expressaram-lhe o seu “incómodo e insatisfação”.

“Sou grande admirador do trabalho de Luís Filipe Menezes em Gaia, que muito mudou aquele concelho e, também, por reflexo, a zona ribeirinha do Porto e a Foz do Douro. Atravessar o rio ali passou a ser muito mais bonito com o trabalho de Menezes em Gaia. Para além de admirar o trabalho feito antes, insisti duas ou três vezes com o próprio para se decidir por uma nova candidatura. Gaia com Menezes é uma coisa, sem ele é outra. Não tenho dúvida. É muito bom para Gaia se Luís Filipe Menezes ganhar. Quero muito que ele ganhe. Estamos entendidos?”, frisou, admitindo também ter “boa impressão” do candidato socialista — e “gostar de dizer” quando acha um hino “giro”.

▲ João Paulo Correia visitou a freguesia de Oliveira do Douro e acabou a manhã de campanha em Carvalhos.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Aos jornalistas, João Paulo Correia garantiu sentir essa mesma “confiança extra” e um “impulso forte” desde o primeiro debate em que participou, considerando que mostrou estar bem preparado — e, mais do que isso, ter uma campanha “renovada”: “Não sou amarrado a problemas do passado, apático e cansado, como o meu adversário. Não fugi das pessoas e não apareci em julho”, disparou, juntando às críticas a Menezes a referência à “desastrosa” gestão financeira: “Quem o diz é o Tribunal de Contas, até Rio disse que [Menezes] era o campeão da dívida e que faria Sócrates corar de vergonha”.

Correia aparece, então, como herdeiro do PS de Eduardo Vítor Rodrigues? O candidato pondera. “Não se trata de ser herdeiro; é uma transição de ciclo, com novos desafios”. Explica mais: “Houve muita obra feita nos 12 anos do PS; contudo, estamos em 2025 e há uma transição de ciclo”. Será essa a apresentação que lhe valerá, na hora seguinte, uma receção simpática nas ruas, por onde é acompanhado pelo socialista e “amigo” João Torres. “Sou candidato pela primeira vez”, diz a uma senhora. “Mas a câmara é do PS”, atira esta. Pausa. “E o PS é um partido credível”. Passou no teste. Se a leitura do legado socialista for essa, Correia poderá suspirar de alívio. Mas isso só se saberá na noite de 12 de outubro.

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