Desde a sua última convenção, o Bloco de Esquerda perdeu o grupo parlamentar, passando de cinco deputados para apenas um, piorou ligeiramente o resultado obtido nas europeias de 2019 e teve um decréscimo da sua (já modesta) implantação no território, com um mau resultado nas autárquicas de setembro. Ainda assim, a moção da continuidade apresenta-se à convenção deste fim de semana quase ilesa depois do declínio dos últimos anos.
Há duas semanas, os militantes de base do Bloco puderam eleger os seus representantes para esta convenção e a moção encabeçada por José Manuel Pureza garantiu 79,8% dos delegados, percentagem pouco inferior aos 81% da última edição, aquando da passagem de testemunho de Catarina Martins a Mariana Mortágua. Por outras palavras: a linha oficial, pese embora os maus resultados eleitorais, está mais do que legitimada internamente.
José Manuel Pureza, antigo líder parlamentar do Bloco, será, a partir de domingo, o novo coordenador nacional do partido. Resta saber o que dirá no seu discurso inaugural e até onde vai na autocrítica em relação ao que aconteceu ao partido. Sem ter dado qualquer entrevista até ao momento, a única coisa que se sabe é que a nova direção vai criar o cargo de “secretário da organização” — um braço direito do líder com especial importância no “diálogo permanente com as estruturas locais”.
Este cargo parece ser uma tentativa de responder às críticas de excessiva centralização na tomada de decisões, que sempre existiram entre a oposição, mas têm sido recentemente exteriorizadas também por militantes mais alinhados com a direção, como Fernando Rosas.
A principal questão é o que fará de diferente José Manuel Pureza. O professor universitário de Coimbra é elogiado pela moderação e capacidade de fazer pontes, mas resta saber se será o suficiente para inverter a trajetória descendente do partido para evitar que o Bloco caia na irrelevância eleitoral.
▲ José Manuel Pureza na última convenção do Bloco de Esquerda, em maio de 2023
TOMAS SILVA/OBSERVADOR
Um novo líder com uma cara conhecida
José Manuel Pureza é natural de Coimbra, concelho pelo qual foi eleito deputado nas eleições de 2009, 2015 e 2019, tendo sido líder parlamentar do Bloco logo na sua primeira passagem pelo Parlamento. Tinha 15 anos no 25 de Abril, evento “fervilhante e mobilizador” que acredita ter sido definidor no seu percurso político, segundo disse ao jornal Campeão de Coimbra.
Licenciou-se em Direito na sua cidade natal, em 1981, no mesmo ano em que celebrou o seu casamento. Uma característica que o faz destacar-se no Bloco é precisamente ser um religioso praticante, chegando a ser referido como o único deputado católico da história do partido. Nos seus tempos de Coimbra, chegou mesmo a fazer parte da equipa diocesana nacional da Juventude Universitária Católica.
Acabaria por prosseguir os seus estudos na área do Direito Internacional com especial enfoque no tema da paz. O seu percurso académico fez-se sempre na sua cidade natal, onde completou um doutoramento em Sociologia e se tornou professor e investigador. É um elemento próximo das principais figuras do partido, tendo sido nomeadamente o mandatário nacional da campanha presidencial de Francisco Louçã, em 2006.
Mesmo quando esteve fora do Parlamento manteve-se, durante vários mandatos, na direção e na comissão política do Bloco, do qual atualmente não faz parte. Mais recentemente, foi candidato à presidência da Câmara de Coimbra nas autárquicas de setembro, tendo obtido uns modestos 2,86% dos votos (menos do que Chega e PCP), que não lhe valeram a eleição para o executivo municipal
Marisa Matias, que tem tomado a dianteira na representação da moção A, elogiou a “enorme capacidade de diálogo e de abertura” de Pureza, caraterísticas pessoais que lhe dão “as condições ideais para protagonizar esta nova fase que se quer para o Bloco”. A antiga eurodeputada explica que a nova direção não representa “uma mudança radical do ponto de vista da orientação política”, mas “uma mudança significativa na forma de fazer a política“.
A análise é sempre feita em contraste com a fama de radical que Mariana Mortágua ganhou nos últimos anos — se não dentro do Bloco, pelo menos, no espaço público. Contudo, a oposição tem dificuldade em acreditar que a figura de Pureza, por si, possa acertar o rumo do partido. “A atual direção tem estado a dizer que tem uma mudança de paradigma. No entanto, tendo em conta a experiência passada e até o comportamento atual, não acreditamos nisso”, diz Nuno Pinheiro da moção S.
▲ Pureza foi deputado e membro da comissão política do Bloco, em vários mandatos
ANTÓNIO COTRIM/LUSA
Subscritores da moção A também identificam “erros”
Se a moção A promete uma nova abordagem, os nomes que se seguem ao de Pureza na candidatura à direção do Bloco apontam no sentido da continuidade. Entre esses candidatos cimeiros, estão os antigos deputados Isabel Pires (2º), Fabian Figueiredo (3º) e Marisa Matias (4º). Em sexto lugar, está Mariana Mortágua à qual se seguem outras caras que marcaram os últimos anos do partido como Joana Mortágua, José Soeiro, Catarina Martins, Pedro Filipe Soares ou Jorge Costa. Ainda assim, entre os que apoiam a continuidade, há quem não tenha problema em apontar “erros” aos principais dirigentes do Bloco.
Fernando Rosas disse, numa entrevista ao Público, que a direção do partido cessante tinha “insuficiências” e cometeu “erros graves”. Sem atribuir culpas exclusivas a Mortágua, o fundador do Bloco disse que a direção “tem tido dificuldade em construir uma resposta credível e eficaz” à deslocação do eleitorado para a direita. Rosas visou ainda as “respostas que não resultaram” na última campanha eleitoral, em que participou ativamente e foi cabeça-de-lista por Leiria, dando o exemplo da substituição dos comícios por contactos porta-a-porta.
Houve outro fundador a questionar a estratégia tomada pelo Bloco nas últimas legislativas. Ainda que de forma menos direta, Francisco Louçã assina exclusivamente um texto que será discutido na convenção deste fim de semana em que defende que as redes sociais “são um simulacro de vida social e tomar posição nelas é uma ilusão de política”. Estas palavras surgem como uma aparente crítica à estratégia utilizada por Mariana Mortágua na última campanha para as eleições legislativas, na qual os fundadores do partido eram desafiados a participar em vídeos para as redes sociais, num esforço para se aproximarem do eleitorado jovem.
Outro texto que promete gerar tensão entre os subscritores da moção A é intitulado “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Entre os signatários estão o antigo deputado Nelson Peral ou Andreia Galvão que, a partir de janeiro, poderá vir a assumir o lugar de deputada em rotatividade com Fabian Figueiredo. Apesar de estar prestes a tornar-se uma das figuras do partido com palco privilegiado e de ser já membro da atual direção, a bloquista não se coíbe de defender abertamente a necessidade de “renovar a direção”, de garantir uma “democracia interna efetiva” e de se “pôr fim ao centralismo excessivo” do Bloco.
▲ Andreia Galvão é candidata da moção A, mas junta-se à oposição no pedido para “pôr fim ao centralismo excessivo”
ANTÓNIO COTRIM/LUSA
Oposição mas mais fragmentada do que antes
Essas críticas são sublinhadas pela oposição à moção A, que se apresenta a esta convenção mais fragmentada do que no passado. A moção S vai contar com 55 delegados, a moção H com 19 e as moções B e C com 13 delegados cada. Todas juntas não chegam para fazer sombra aos 498 delegados eleitos pela moção da continuidade. Na anterior convenção, Pedro Soares conseguiu unir a maioria dos descontentes na moção E, que, ainda assim, acabaria por conseguir apenas 15% dos votos na corrida contra Mortágua.
Desta feita, o antigo deputado estará ausente da convenção, mas, mesmo assim, não deixou de antecipar que José Manuel Pureza vai “manter a mesma linha” da direção de Mortágua. “O problema é que José Manuel Pureza faz parte do núcleo central e da entourage. O que me parece ser necessário é uma nova resposta política, mudanças profundas. Não continuar a depender — como tem vindo a ser feito desde a geringonça — do Partido Socialista”, disse em entrevista ao Observador.
Esta é outra questão que dará lugar à maior discussão durante o fim de semana: deve ou não o partido unir-se à esquerda? “O sectarismo impediu de fazer alianças pré-eleitorais com o Livre, nas eleições legislativas. Se o tivéssemos feito, só obteríamos vantagens sem qualquer prejuízo para a nossa imagem e para os nossos princípios”, afirmam os subscritores da moção S. A moção de Pureza também indica no mesmo sentido, mas com as próximas eleições (além das presidenciais) em 2029, o plano da convergência à esquerda terá de esperar até ser posto em ação.
Por fim, a discussão à volta da democracia interna no Bloco também dominará certamente o debate. Antes do início da convenção, as críticas à figura de secretário da organização já começaram a fazer-se ouvir. Enquanto a moção da continuidade promete alguém com “responsabilidade de dialogar permanentemente com as estruturas locais e articular essa comunicação para que a organização possa funcionar sem que isso tenha de estar dependente da coordenação do partido”, a moção S vê no anúncio uma manifestação da “ausência de autocrítica“. Nuno Pinheiro defende que só isso justifica que a moção A “permita arrogar-se no direito de anunciar modelos organizativos novos, transmitindo a ideia falsa que tudo está bem e que basta mudar nomes”.
Há quem entenda, porém, que Pureza merece o “benefício da dúvida” por não estar “tão ligado às tendências que têm controlado o Bloco”, como defende Américo Campos da moção C. De maneira diferente, Ana Sofia Ligeiro, da B, afirma que “não há nenhum distanciamento de Pureza da direção atual do partido” e propõe mudanças estruturais como, por exemplo, um limite de mandatos aos órgãos do partido. Nuno Pinheiro oferece ainda outra perspetiva sobre o próximo líder do Bloco.
Este militante admite que o antigo líder parlamentar bloquista pode vir a ser apenas uma “figura de fachada”. Isto porque “está em Coimbra, quando há uma grande concentração de poder em Lisboa”, justifica, assinalando que existem “outras forças que têm dominado o Bloco” e podem impedir uma coordenação efetiva de Pureza.