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Pedro Sousa encabeçou a única moção de oposição à atual direção, na Convenção Nacional do Bloco, em 2023
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▲Pedro Sousa encabeçou a única moção de oposição à atual direção, na Convenção Nacional do Bloco, em 2023

TOMAS SILVA/OBSERVADOR

▲Pedro Sousa encabeçou a única moção de oposição à atual direção, na Convenção Nacional do Bloco, em 2023

TOMAS SILVA/OBSERVADOR

"Pureza faz parte da entourage de Mortágua"

Pedro Soares, antigo deputado e rosto da oposição interna do Bloco de Esquerda, reconhece qualidades ao futuro coordenador do partido, mas lamenta que atual direção continue sem perceber o que falhou.

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Pedro Soares, crónico opositor da atual direção do Bloco de Esquerda, considera que José Manuel Pureza, o óbvio sucessor de Mariana Mortágua, representa mais do mesmo. “Em termos políticos, são muito idênticos. Há uma recusa em tirar ilações”, lamenta.

Em entrevista ao Observador, no programa Vichyssoise, Pedro Soares diz que é “injusto” responsabilizar apenas e só Mariana Mortágua pelo mau momento que o Bloco atravessa. “A orientação política do Bloco perdeu credibilidade junto do eleitorado. Quando se perde credibilidade, é muito difícil voltar a ganhá-la”, lamenta.

Quanto ao futuro, e mesmo sem assumir que o Bloco corre o risco de desaparecer, Pedro Soares atira: “Ou o Bloco se regenera e altera a sua orientação política, ou então de facto vai ter uma vida muito difícil. Não estou a ver grandes alterações no horizonte.Vamos esperar pela convenção e o que sai dali, mas há uma recusa absoluta em retirar consequências das derrotas”.

"É preciso uma nova resposta. Uma resposta política à esquerda que não tenha medo de falar, por exemplo, dos problemas da imigração, dos problemas da segurança. Uma resposta firme e inovadora"

“Bloco perdeu credibilidade junto do eleitorado”

Disse que o secretariado nacional do Bloco está “a oferecer a cabeça de Mariana Mortágua numa bandeja” para se salvar. Considera que esta saída de Mariana Mortágua não foi uma decisão da própria, mas sim um ato concertado para manter a linha dominante do partido?
A raiz dos problemas do Bloco de Esquerda vai muito para além de Mariana Mortágua. É um excelente quadro político de esquerda, valorizo muito o papel que tem tido no Parlamento e não só. E considero que responsabilizar ou tentar atirar para cima de Mariana Mortágua a responsabilidade da situação que se vive no Bloco é que me parece injusto.

É conhecida a proximidade de Mariana Mortágua a Francisco Louçã. A influência excessiva de Louçã junto de Mortágua pode tê-la prejudicado?
Não vou especular sobre essa matéria. A responsabilidade pela situação a que chegou o Bloco é uma responsabilidade da maioria da direção. A atual direção, que criou uma espécie de cordão sanitário à volta da oposição, isolou-se.

Neste processo há alguma espécie de sucessão dinástica?
Parece-me que é um termo muito forte. Mas há uma procura evidente de manter a direção dentro dos limites do restrito núcleo de pessoas que têm dirigido o Bloco.

A direção do Bloco está preocupada em manter o poder?
Está sobretudo preocupada em que o fundamental não seja alterado. Há sempre uma recusa absoluta de retirar ilações e consequências. Portanto, o que foi feito até agora foi manter tudo na mesma com pequenas alterações, privilegiando sempre a manutenção da atual linha política. Isso é um problema central.

José Manuel Pureza, que é um católico e que tem sido elogiado pela sua moderação, poderá reverter esse declínio do Bloco?
É uma pessoa estimável. Sou amigo dele. Não é uma questão pessoal. O problema é que José Manuel Pureza faz parte do núcleo central e da entourage. É escolhido precisamente para manter a mesma linha. O que me parece ser necessário é uma nova resposta política, mudanças profundas. Não continuar a depender — como tem vindo a ser feito desde a geringonça — o Partido Socialista. Não digo que não tenha que haver coligações, acordos, ligações com outras políticas…

Mas tem de ser construída uma identidade própria…
Exatamente. Acho que esse é o problema. O Bloco perdeu a identidade.

O que justifica a falta de adesão do eleitorado ao Bloco?
A orientação política do Bloco perdeu credibilidade junto do eleitorado. Quando se perde credibilidade, é muito difícil voltar a ganhá-la.

Mariana Mortágua focou-se demasiado na causa de Gaza e da flotilha? Isso pode ter levado parte dos eleitores a deixarem de se reconhecer do Bloco?
Foi uma atitude de coragem. Se foi a opção mais indicada, acho discutível. Em todo aquele período em que Mariana entrava nos telejornais para falar da flotilha, perdeu relativamente a outras lideranças políticas que falavam das coisas concretas do país. Podíamos ter participado na flotilha com outro dirigente do Bloco…. Mas a minha crítica não é em relação à Mariana nem em relação à sua participação na flotilha. O problema essencial é que o secretariado do Bloco não faz o balanço das derrotas eleitorais e não retira consequências políticas. Agora, in extremis, vem oferecer a cabeça da Mariana Mortágua para se redimir de todo este processo de perda de influência. Acho que isso é errado, dá uma imagem errada.

Que causas deve o Bloco abraçar causas e de que temas deve falar? A esquerda deixou de falar sobre problemas que dizem respeito aos eleitores?
O espaço político da da esquerda social — que defende igualdade, luta contra as discriminações, quer melhores condições de vida para os trabalhadores — continua a existir. É atual, vemo-lo todos os dias. O problema é o sistema partidário. O sistema partidário à esquerda entrou em falência. É preciso uma nova resposta política, venha ela de dentro ou fora do Bloco. É preciso uma nova resposta política que ocupe este espaço que continua a existir das ideias da esquerda.

Esse espaço nos últimos anos tem vindo a ser ocupado pelo Livre. Acha que o crescimento deste partido esvaziou, de alguma maneira, o Bloco?
Acho que é um problema mais grave, infelizmente. Se estivéssemos a falar disto há dois ou três anos, não diria o que vou dizer agora. Mas o problema é que esse espaço está a ser ocupado pela extrema-direita, pelo populismo. Esse é o problema central. O problema não é o Livre.

Mas o Livre é um exemplo de um partido à esquerda que ainda assim conseguiu crescer.
Acho que é conjuntural. Vamos ver o que é que vai dar nas próximas eleições. O Livre é mais um partido de refúgio. Uma espécie de marca branca, em que as pessoas que não estão contentes com o PS ou estão descontentes com o Bloco até são capazes de votar. Mas não me parece que haja uma consolidação, até porque tenho as maiores dúvidas sobre o programa do Livre em termos das ideias da esquerda. O problema não é o Livre. É este espaço à esquerda, o espaço da revolta, da indignação, de quem quer mudar alguma coisa e não aguenta mais este tipo de vida, que está a ser ocupado por forças perigosíssimas, populistas da extrema-direita. A esquerda não tem conseguido enfrentar este problema. É preciso uma nova resposta. Uma resposta política à esquerda que não tenha medo de falar, por exemplo, dos problemas da imigração, dos problemas da segurança. Uma resposta firme e inovadora.

Este verão participou num fórum do movimento cívico que admitia fundar um novo partido de esquerda. Admite vir a participar na criação desse novo partido?
Neste momento, sou militante do Bloco de Esquerda e não faria qualquer sentido estar a dizer que é preciso um novo partido.

Mas pondera sair do Bloco?
Não. Sei que há dirigentes do Bloco que se irritam muito com a minha presença nas redes sociais, nos media, mas é a democracia, é o pluralismo. Sei que se dão mal com esse pluralismo, mas paciência, não me vão calar.

O Bloco está reduzido a um único deputado. É possível recuperar?
Há condições, no Parlamento, na sociedade, nos movimentos, nas lutas laborais, nos combates culturais, para que a esquerda possa afirmar-se, ganhar nova dimensão e ultrapassar a dimensão que já teve.

As notícias da morte do Bloco são manifestamente exageradas?
Acho que é um bocadinho lúgubre estar a falar de morte de quem quer que seja, muito mais de um partido político que foi uma esperança em Portugal, uma esperança à esquerda. Espero que não seja morte do Bloco. Acho é que o Bloco ou se regenera e altera a sua orientação política ou então de facto vai ter uma vida muito difícil. Não estou a ver grandes alterações no horizonte, mas vamos esperar pela convenção e o que sai dali.

Também nos aproximamos rapidamente das eleições presidenciais. Vai apoiar Catarina Martins?
Eu apoio uma ideia. Temos tempo… Esta pulverização de candidatos à esquerda, que não ganham peso político e não conseguem disputar uma segunda volta, apesar do voluntarismo de certos candidatos, é um mau sinal. Acho que é um sinal de que a esquerda, em geral, está numa posição defensiva, de defender o seu reduto, o seu castelo, e não de juntar forças para atacar, para contra-atacar esta ofensiva da direita.

Esta candidatura de Catarina Martins é um mau serviço à esquerda?
Apelo aos candidatos e às candidatas à esquerda que se sentem à mesa e se entendam. Se foi possível fazer coligações para as autarquias, se há quem continua a pensar numa geringonça, por que é que não é possível chegar a um entendimento entre as várias candidaturas no terreno e apresentar um candidato único?Sentem-se à mesa e entendam-se. É fundamental que isso aconteça para credibilizar as coisas .

António José Seguro é o representante do PS, que é o maior partido do centro-esquerda Realisticamente: o Bloco deveria, e ainda vai a tempo, de desistir da candidatura de Catarina Martins?
O próprio António José Seguro não se assume como uma candidatura de esquerda. Isso é sintomático. Não falo em desistências de ninguém; falo em conjugar forças e chegar a um entendimento. Pode passar por um dos candidatos que neste momento existe ou até uma outra pessoa que seja suprapartidária. Precisamos de ter uma candidatura que seja ofensiva. Não chega a dizermos que somos por Abril e somos pela Constituição. Precisamos olhar para a frente, para o horizonte. Isso implica uma força anímica que, neste momento, os candidatos à esquerda do Partido Socialista não estão a ter.

"O Livre é mais um partido de refúgio. Uma espécie de marca branca, em que as pessoas que não estão contentes com o PS ou estão descontentes com o Bloco até são capazes de votar. Mas não me parece que haja uma consolidação, até porque tenho as maiores dúvidas sobre o programa do Livre em termos das ideias da esquerda"

“Seguro dá sinais estranhos e Gouveia e Melo parece querer disputar espaço à esquerda”

Preferia estar na linha da frente de uma manifestação com Mariana Mortágua ou com José Manuel Pureza?
Estaria na linha da frente de uma manifestação com qualquer um deles.

Não preferia nenhum?
Não preferia nenhum, até porque em termos políticos eles são muito idênticos.

Preferia participar numa conferência para discutir o estado atual da esquerda com Rui Tavares ou Francisco Louçã?
Era importante que os dois estivessem. Se se trata de conversar sobre a esquerda e de ultrapassar dificuldades, nomeadamente, em relação às presidenciais, era bom que estivessem os dois e muitos mais.

Preferia comer bacalhau à Narcisa com Jorge Pinto ou com António Filipe?
Gostava do bacalhau à Narcisa, seja com quem for. Para lhe dizer a verdade, não conheço o Jorge Pinto. Conheço pessoalmente o António Filipe. Aliás, foi deputado comigo no Parlamento.

E é um bom garfo, reza a lenda.
Tem bom humor. Gostaria de almoçar um dia com ele, sem dúvida.

Em quem votaria numa segunda volta das presidenciais: Henrique Gouveia e Melo ou António José Seguro?
Acho que mais próximo da eleição decidiria. Neste momento, não quero decidir nada sobre isso, até porque as campanhas estão a decorrer. António José Seguro dá sinais estranhos e o Gouveia e Melo também parece que agora quer disputar o espaço à esquerda. Portanto, era melhor ver mais próximo das eleições em quem votaria, no caso de isso acontecer.

[Há dúvidas até ao fim que acabam na vitória mais curta da História. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir o último episódio aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]

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