Além da troika

O país vivia uma campanha eleitoral atípica, com a troika a entrar pelo país e um Memorando de Entendimento assinado pelo Governo cessante (com o acordo do PSD e do CDS) a traçar metas orçamentais apertadas e um menu de medidas muito restritivas. Foi neste contexto que Passos Coelho apresentou e defendeu o seu programa eleitoral e disse a frase: “Este programa está muito além do memorando”. E até deu dois exemplos: o fim do TGV e mais privatizações. Chegou mesmo a acrescentar, já depois de eleito, que “independentemente daquilo que foi acordado com a UE e o FMI, Portugal tem uma agenda de transformação económica e social que é decisiva para pôr fim a modelos de endividamento insustentáveis”. A ideia acabou por sair-lhe cara, já que foi aproveitada daí em diante pela oposição para acusar o seu Governo de querer ir além da troika.

Barítono

Em 2002, quando preparava os ensaios para o musical My Fair Lady, o encenador Filipe La Féria fez uma série de castings à procura do galã apaixonado por Elisa Doolitle, uma pobre vendedora de flores do Covent Garden. Entre os vários candidatos, como o próprio La Féria descreveria mais tarde no Diário de Notícias, “apareceu Passos Coelho de jeans, voz colocada, educadíssimo e bem-falante”. A prova foi, nas palavras de La Féria, “convincente”. Mas havia um problema: “Passos Coelho era barítono e a partitura exigia um tenor”. Logo, não foi aceite. O humorista Ricardo Araújo Pereira chegou a dizer, no auge da austeridade e em jeito de graça, que La Féria deveria ser “chicoteado” por não ter aceitado Passos — que assim se virou para a política. Passos nunca deixou de aplicar os seus dotes vocais. Desde o famoso “la,la,la, la”, até aos “Amigos para Siempre” que cantou com Portas nas legislativas, passando por várias cantorias com tunas ou grupos populares com quem se foi cruzando em campanhas ou ações políticas.

Cata-vento

A relação de Passos Coelho com Marcelo nunca foi a melhor. No Congresso do PSD de 2016, quando o país já chamava o Presidente da República pelo nome próprio, Passos não cedia e preferia “dr. Rebelo de Sousa” ou “militante suspenso”. A guerra começou nos anos 1990, mas um dos episódios mais marcantes da guerra Passos-Marcelo nos últimos anos deu-se no Congresso de 2014. Na moção de estratégia global, o líder do PSD apresentava um perfil de candidato presidencial para 2016, que pretendia excluir Marcelo Rebelo de Sousa. O presidente do PSD, impunha que o candidato apoiado fosse “mais como um árbitro ou moderador, evitando tornar-se numa espécie de protagonista catalizador de qualquer conjunto de contrapoderes ou num catavento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político“. Um fato à medida de Marcelo, que acusou o toque. O professor reagiu no dia seguinte, assumindo que o perfil rejeitado por Passos era o seu: “Claramente, eu acho que ele [Pedro Passos Coelho] quis excluir na moção de estratégia o candidato Marcelo Rebelo de Sousa”. O PSD de Passos acabou por apoiar Marcelo, mesmo que Passos tenha tentado ter outro candidato (Rui Rio foi um deles). A expressão “cata-vento” ficou. A distância entre Passos e Marcelo, enquanto líder da oposição e Presidente, também.

Diabo

“Gozem bem as férias que em setembro vem aí o diabo”. Passos terá dito a frase à porta fechada, numa reunião de bancada parlamentar no final de julho de 2016 a antecipar que o país liderado por António Costa enfrentaria dificuldades depois do verão de 2016. A reunião foi à porta fechada, mas, mesmo assim, a expressão pegou na imprensa e no debate político. O “diabo” de que Passos falava era o agravamento da imagem externa do país e uma eventual nova crise junto dos mercados. Que nunca aconteceu. Passaram as férias grandes, o Natal, o ano de 2017 e o “diabo” não apareceu. Portugal somou boas notícias, embora o crescimento e o investimento ainda não tenham níveis que permitam combater a dívida — como o PSD tem insistido no debate político. O verdadeiro inferno do Governo acabaram por ser os incêndios, mas não aquele que Passos antecipou. O “diabo” virou piada e arma de arremesso político. Nesse capítulo, quase tudo o que podia correr bem ao Governo correu: défice abaixo do esperado, crescimento acima do esperado, rating a subir e Mário Centeno no Eurogrupo.

Enorme aumento de impostos

É talvez o “episódio” mais marcante da governação de Passos Coelho, que ficou inevitavelmente marcada pela ajuda externa. Passos fazia questão de ser ele a dirigir-se aos portugueses quando tinha de dar más notícias e anunciar medidas de austeridade, mas a grande notícia ficou guardada para o ministro das Finanças. A estratégia discursiva, no entanto, era a mesma: ser o mais honesto possível (Passos até chegou a pedir “desculpa” ao país quando ainda era José Sócrates primeiro-ministro e assinou, com o apoio do PSD de Passos, o memorando de entendimento da troika). Estávamos em outubro de 2012 quando Vítor Gaspar anunciou o famoso “enorme aumento de impostos” por via da redução nos escalões do IRS, de oito para cinco, e da criação de uma sobretaxa de quatro pontos percentuais sobre os rendimentos de 2013. “Embora este aumento enorme de impostos seja um aumento de impostos que não persistirá para sempre, que precisará de ser diminuído, ele será diminuído ao ritmo que conseguirmos efetivamente diminuir a dívida pública, e consequentemente não é vantajoso fazer comentários sobre calendários específicos”, disse Gaspar na altura. Passos Coelho não repetiria a expressão “enorme aumento de impostos”, mas deu-lhe um sinónimo: “Aumento muito significativo da carga fiscal”.

Futuro (“Para futuro”)

Não quis ser um líder que embarcasse na “espuma dos dias”, como disse tantas vezes. Que se limitasse a reagir e a governar para o curto prazo. Fez da ideia de que os interesses do país têm de estar acima dos interesses pessoais e do partido um lema político, e em cada discurso que utilizava em algum momento a expressão “para futuro”. Reformas para futuro, políticas para futuro, consensos para futuro. Tudo para o futuro e nunca só a pensar no dia de amanhã, como acusava o governo de António Costa, e a geringonça, de fazer, quando já estava na oposição. Quanto ao seu próprio futuro, é incerto. Para já, Passos Coelho fez saber que vai afastar-se dos holofotes e deixar espaço para os protagonistas que se seguem. Vai dedicar-se a dar aulas em várias universidades. No Congresso, sobe ao palco esta sexta-feira para se despedir e não volta nos dias seguintes. No Parlamento, fica até ao fim do mês. No futuro? Talvez uma candidatura à Presidência da República, dizem. Ou novamente à presidência do partido? Nunca se sabe.

Golpe (ou como Ganhar e não Governar)

Foi o grande golpe de António Costa para Passos Coelho. Depois de mais de quatro anos de governação com o cinto apertado da austeridade, a coligação Portugal à Frente, encabeçada pelo PSD de Passos e o CDS de Portas, acabaria por ganhar as eleições legislativas de 2015 com 38,5% dos votos, acima dos 32,3% do PS. Só que nem tudo o que parece é, e essa viria a ser a noite mais longa da governação de Passos Coelho: o jogo mudou e numa sucessão de declarações, primeiro Jerónimo de Sousa, depois António Costa e Catarina Martins lançaram os dados para jogar de novo. Foi assim que nasceu a “geringonça”, que formou maioria no Parlamento e que se uniu para chumbar o programa do curtíssimo segundo governo de Passos.

Hotel Sana

Foi o local onde decorreram todos os Conselhos Nacionais da liderança de Passos Coelho, e onde decorreram as eleições internas do PSD para a distrital de Lisboa. As últimas eleições, disputadas por Rodrigo Gonçalves e Pedro Pinto, amigo próximo de Passos, ficaram marcadas por um trabalho do Observador que filmou o lado escondido dos partidos: carrinhas de transporte de militantes, controlo artificial das votações e a participação dos notáveis. Foi na mesma cadeia de hotéis que Pedro Passos Coelho e Portas assinaram o acordo de coligação para as legislativas de 2015 e, três dias depois dessas eleições, numa tentativa de ultrapassar a esquerda que já se organizava para permitir que o PS governasse, voltou a ser também no Sana que assinou com Paulo Portas o “acordo de governo e de colaboração política entre PSD e CDS-PP”.  Não chegou, no entanto, a ter tempo, num segundo governo, para o pôr em prática. Esta espécie de fetiche social-democrata não parece ficar por aqui, foi no Sana que  Rui Rio se hospedou, em Lisboa, para participar no congresso do PSD, o seu primeiro como líder.

Irrevogável (ou iMessage)

Foi o ponto número dois do famoso comunicado através do qual Paulo Portas deu conta da sua demissão do governo saído da coligação PSD/CDS, no verão de 2013, logo depois da demissão do ministro das Finanças e em desacordo absoluto com a escolha de Maria Luís Albuquerque para suceder a Vítor Gaspar. Seguiram-se dias de crise política e o líder do CDS acabou por recuar na decisão, revogando o irrevogável e ficando como vice-primeiro-ministro. Foram os dias mais tensos do Governo de Passos Coelho, e como veio a saber-se depois, na biografia autorizada “Somos o Que Escolhemos Ser”, Passos tinha sido informado da demissão do seu ministro dos Negócios Estrangeiros por mensagem de telemóvel. Mais concretamente por iMessage (era uma forma de comunicação muito habitual entre o número um e o número dois do Governo PSD/CDS). A crise foi superada, Portas ficou, foi promovido, e durante uns tempos Passos guardou aquelas mensagens, de balões azuis, no seu smartphone.

Juízes conselheiros do Tribunal Constitucional

Um, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito. Oito foi o número de vezes que o Governo que Passos Coelho liderou viu o Tribunal Constitucional chumbar reformas ou normas orçamentais, algumas com significativo impacto nas contas públicas, como o chumbo dos cortes nos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos, logo em julho de 2012. Outro semelhante em abril do ano seguinte, em maio foi o chumbo à criação de comunidades intermunicipais (a reforma de Miguel Relvas), em agosto ao sistema de requalificação da função pública e, ainda nesse ano, mais dois travões do TC: normas do Código de Trabalho, nomeadamente o despedimento por inadaptação, e o regime de convergência de pensões da Caixa Geral de Aposentações e da Segurança Social.

No ano seguinte, em maio, mais três normas do Orçamento (cortes na função pública, nas pensões de sobrevivência e nos subsídios de desemprego e doença). Até ali, as reações do Governo tinham sido de dramatização de cada chumbo, medidas de compensação para travar a despesa imprevista, mas em junho de 2014 Passos Coelho foi mais longe e criticou os juízes conselheiros, pedia um escrutínio maior de quem compõe o TC: “Como é que uma sociedade com transparência e maturidade democrática pode conferir tamanhos poderes a alguém que não foi escrutinado democraticamente?”. Uma tirada muito criticada pela oposição. Dois meses depois, novo chumbo (a fechar a conta), dessa vez à contribuição de sustentabilidade sobre as pensões. A relação foi tão duradoura como acidentada.

Liberal

Quando apareceu em 2008, para desafiar Manuela Ferreira Leite e Pedro Santana Lopes, Passos trazia no bolso um discurso de rutura. “Sou um reformista e sou um liberal, não sou de direita nem sou de esquerda”, chegou a definir-se. O Passos que na liderança da JSD afrontara Cavaco Silva contra o aumento das propinas, surgia agora reinventado sob a aura do novo homo liberal. Acabaria derrotado, mas teve direito a uma segunda vida em 2010, depois de bater Paulo Rangel e Aguiar-Branco na corrida para a liderança do PSD. Chegaria a primeiro-ministro um ano depois, com o país a atravessar uma das maiores crises económicas da história.

O famoso “ir além da troika” e a tentativa permanente de reduzir o peso do Estado na economia valeram-lhe o rótulo de “neoliberal”, um epíteto que se tornou rapidamente em arma de arremesso da oposição. A impopularidade das medidas que tomou fez com que os sociais-democratas (Passos incluindo) metessem a palavra “liberal” na gaveta. Os anos de governação provocaram quase um trauma coletivo no partido, que dedicou mais tempo da campanha interna a discutir se estava ao centro ou à direita, se era social-democrata ou liberal, do que a discutir um programa alternativo ao de António Costa. No dicionário da política portuguesa, “liberal” tornou-se definitivamente uma palavra non grata.

Manta Rota

De chinelos nos pés, calções de banho, com a toalha numa mão e a outra na mão da mulher, Laura, Pedro Passos Coelho manteve o registo de sempre das suas férias de verão em família, mesmo depois de eleito primeiro-ministro. Fez o mesmo com o local onde reside, num subúrbio de Lisboa: Massamá. O mesmo prédio, hábitos semelhantes (passear os caniches da família, por exemplo, como o próprio chegou a contar logo no início do mandato). Passos Coelho fez disso uma imagem de marca: manter a normalidade da sua vida, apesar de ela ter mudado radicalmente. “Não se trata nem de teimosia nem de preocupação com a imagem. Dentro do que é possível, conservo o estilo de vida que tinha antes de ser primeiro-ministro e que está de acordo com os meus gostos e possibilidades”, explicou em maio de 2015 ao jornal Sol. Justificava as férias da Manta Rota, em condições que descrevia como “não luxuosas”, com o facto de poder estar “entre amigos e perto da praia”.

E quanto a Massamá, dizia que assim estavam “mais próximos dos meus sogros e da área de trabalho” da mulher: “Se algum dia se puser a necessidade de mudar de residência, isso será visto naturalmente tendo em conta as disponibilidades económicas”. A questão — posta desta forma — ganhava especial relevância nesta fase, quando o primeiro-ministro que o antecedeu, José Sócrates, estava preso por suspeitas de corrupção.

Nini

“Minutos após anunciar novas medidas de austeridade, Passos Coelho diverte-se em concerto”. Era o título de uma notícia da revista Lux, em setembro de 2012. O discurso desse dia tinha sido duro: “O Orçamento para 2013 alargará o contributo para os encargos públicos com o nosso processo de ajustamento aos trabalhadores do setor privado, mas este alargamento tem diretamente por objetivo combater o crescimento do desemprego. Como sabemos, é esta a grande ameaça à nossa recuperação e é esta a principal fonte de angústia das famílias portuguesas”. Foi com este duplo propósito que o Governo decidiu aumentar a contribuição para a Segurança Social exigida aos trabalhadores do setor privado para 18%, o que nos permitirá, em contrapartida, descer a contribuição exigida às empresas também para 18%”.

Mas pouco depois de o ter proferido, em tom solene, Passos Coelho não tirou o fato e gravata, nem o pin da lapela, mas foi nessa mesma noite festejar os 50 anos de carreira de Paulo de Carvalho, num concerto no Tivoli. E foi captado pelas câmaras a cantar a música “Nini dos meus 15 anos”. Paulo de Carvalho até disse, no fim, o quanto Passos tinha gostado do concerto: “Estivemos juntos no final e ele disse-me que gostou bastante. E não foram palavras de circunstância. Não é por ele ocupar o cargo que ocupa que nos tratamos de forma diferente”, disse.

Oportunidade (no desemprego)

Entre 2011 e 2014 o desemprego em Portugal batia recordes: em maio de 2014, o INE dava conta de que havia perto de 827 mil pessoas desempregadas, meio milhão das quais sem emprego há mais de um ano, sendo que cerca de 140 mil eram jovens. Este era o contexto quando Passos Coelho chocou parte da opinião pública. Foi em meados de 2012, numa intervenção no Centro Cultural de Belém, que o então primeiro-ministro pediu aos portugueses, sobretudo aos mais jovens, que arriscassem mais e que não encarassem o desemprego como algo negativo, mas sim como uma oportunidade para mudar de vida. “Estar desempregado não pode ser, para muita gente, como é ainda hoje em Portugal, um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma, tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida, tem de representar uma livre escolha também, uma mobilidade da própria sociedade”. As palavras ficariam na memória de todos e seriam recuperadas várias vezes pela oposição.

Piegas

Em fevereiro de 2012, mais um momento que entrou para a história da governação Passos Coelho e diretamente para o (vasto) lote de saídas menos felizes (e amplamente aproveitadas pela oposição) do primeiro-ministro que governava com a troika no país. Os tempos eram de contenção e cortes e Passos visitava, em Odivelas, o Instituto Superior de Ciências Educativas — onde tinha dado aulas até ser eleito primeiro-ministro. Aproveitou esse momento para um discurso sobre a formação dos jovens, pedindo exigência “com o padrão do ensino, com a investigação e com o saber, precisamos de ter qualificações mais exigentes”. Mas a tese não ficaria por aí, com Passos a dizer também que uma vez acreditando no caminho trilhado, havia que “ser exigentes, não sermos piegas e não termos pena dos alunos coitadinhos que sofrem tanto para aprender”. A marca que deixou a expressão “piegas” foi tão forte que, três anos depois, em campanha, António Costa ainda a usava como arma de arremesso, acusando Passos de ter tido “falta de consideração e respeito pelo que as famílias passaram ao longo destes anos”. E devolveu a frase a Passos: “É altura de lhe dizer: ele que não venha com pieguices porque ninguém o aguenta mais”.

“Que se lixem as eleições”

Estava há um ano no poder, a meses das eleições regionais nos Açores (o primeiro acto eleitoral desde as legislativas) e a um ano de Europeias e Autárquicas, quando Passos fez um discurso que ficou na memória. No final de um jantar no Parlamento, de encerramento da sessão legislativa, o líder do PSD traçou a linha para o período eleitoral que se seguiria: “Se algum dia tiver de perder umas eleições em Portugal para salvar o país, como se diz, que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal”. A mensagem era dirigida aos deputados que tinha ali à frente e ao nervosismo crescente sobre as consequências para o partido das medidas restritivas que o Governo PSD/CDS estava a aplicar no país. Passos não quis deixar margem para dúvidas de que o plano partidário estava em segundo lugar e carregou nas tintas, dizendo diretamente a cada um que “nenhum dos que aqui está foi eleito para ganhar as próximas eleições, ou para ajudar a ganhar autárquicas, nem as regionais deste ano nos Açores, nem as europeias que aí vêm a seguir, não foi para isso que fomos eleitos. Foi para responder ao país”.

Relvas

Miguel Relvas foi talvez o ativo que se tornou mais tóxico na equipa de Passos Coelho. Entre os críticos de Passos, era comum ouvir-se dizer que Passos era um líder sozinho que se rodeava das pessoas erradas. Conhecido membro da Maçonaria, Relvas foi ministro dos Assuntos Parlamentares no governo de Passos, de 2011 a 2013 — demitiu-se em abril de 2013 alegando falta de “força anímica”. Foram várias as polémicas em que Relvas se viu envolvido a partir do momento que integrou o Governo, desde o caso da licenciatura na Lusófona que fez por equivalências, ao caso Tecnoforma, que envolveu diretamente Passos Coelho, que era administrador daquela empresa. Em causa estavam suspeitas dos crimes de desvio de fundos, corrupção, prevaricação e tráfico de influências. Mas mesmo depois disso, em 2014, Passos ainda viria a escolher Miguel Relvas para cabeça de lista ao seu Conselho Nacional — e aí as críticas foram audíveis.

Segurança Social

Fevereiro de 2015. Parecia que o pior já tinha passado, mas Passos vê-se envolvido numa polémica pessoal: o jornal Público noticia que o então primeiro-ministro esteve cinco anos sem pagar contribuições à Segurança Social. Os factos eram estes: entre o dia em que terminou o seu mandato de deputado, em outubro de 1999, e a data em que começou a trabalhar por conta de outrem, no grupo FomentInvest, em setembro de 2004, Pedro Passos Coelho nunca pagou quaisquer contribuições à Segurança Social. O tema deu pano para mangas, com o primeiro-ministro a ser atacado por todos os lados, ainda para mais depois de ter exigido tantos sacrifícios aos portugueses.

Um mês depois, numas jornadas parlamentares, Passos viria a fazer um dos discursos mais duros — justificando as suas dívidas como “imperfeições”, e atacando, pelo caminho, o ex-primeiro-ministro José Sócrates, acusado de corrupção. “Não sou um cidadão perfeito, tenho as minhas imperfeições”, começaria por dizer, para depois continuar: “Nunca usei o lugar de primeiro-ministro para ocultar qualquer tratamento diferente do de qualquer cidadão, para enriquecer, para pagar favores ou para viver fora das minhas possibilidades”.

TSU

Setembro de 2012. Antes da saída de Vítor Gaspar e da consequente demissão “irrevogável” de Paulo Portas, a primeira grande crise do governo de Passos e Portas foi mesmo a crise da redução da Taxa Social Única (TSU) para as empresas e a subida da contribuição equivalente paga pelos trabalhadores à Segurança Social. A ideia, arrojada e arquitetada por Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque, era cortar a contribuição em 5,75 pontos percentuais, passando para 18%, ao mesmo tempo que se pretendia aumentar a parte a cargo dos trabalhadores, também para 18% (uma subida de sete pontos percentuais). A medida que devia ser aplicada quer aos trabalhadores do público como do privado, foi anunciada pelo próprio primeiro-ministro a 7 de setembro de 2012, numa comunicação ao país a partir da residência oficial de São Bento.

Apesar dos argumentos de Pedro Passos Coelho, que justificou a redução da TSU com a necessidade de melhorar a situação financeira das empresas e “combater o crescimento do desemprego”, a medida gerou contestação como nenhuma outra, não só entre a oposição e sindicatos, mas mesmo dentro dos partidos parceiros da coligação governamental. Paulo Portas, na altura ministro dos Negócios Estrangeiros não estava em Lisboa, mas discordou fortemente da medida, tendo mais tarde explicado que só não bloqueou a decisão para evitar uma crise nas negociações com a troika e uma “crise de Governo”. Paralelamente, Portugal saiu à rua, com dezenas de cidades a protagonizar as maiores manifestações anti-austeridade dos últimos anos.

Com as manifestações a decorrer, o Presidente da República convocou o Conselho de Estado para debater o tema. A reunião durou oito horas e no final, através de um comunicado, foi anunciado que o Governo tinha informado o órgão político de consulta do chefe de Estado de que estava disponível para, no quadro da concertação social, “estudar alternativas” à alteração da TSU. Foi o início do “enorme aumento de impostos”.

Usurpador

Podia ser a alcunha de António Costa nos piores pesadelos de Passos Coelho: Costa, o Usurpador. A verdade é que o que aconteceu nos dias seguintes às eleições de 2015 foi um momento tão inédito na história da política portuguesa, como de má digestão para o PSD e CDS que passaram os meses seguintes a reclamarem uma vitória que tinham tido nas urnas mas não tinham conseguido transpor para uma maioria parlamentar estável. Foi a primeira vez que a força política mais votada não conseguiu formar governo. Ou melhor, até formou — Cavaco Silva deu posse ao Governo de Passos — mas este ficaria conhecido como o Executivo mais curto da história: durou apenas 11 dias, cinco horas e 10 minutos. Caiu no Parlamento, quando a nova maioria de esquerda chumbou o programa de Governo e viria a aprovar depois o programa de Governo do PS de Costa, negociado com pinças com os partidos da esquerda. Também isso foi inédito: foi a primeira vez que o PCP se aliou a uma solução governativa.

Vítor Gaspar

Foi o ministro mais polémico do Governo de Passos desde o primeiro dia até ter abandonado o barco, em 2013. Apareceu como um economista de renome, fora da política-partidária. Era chefe do gabinete de consultores políticos do presidente da Comissão Europeia desde 2007, tinha sido conselheiro especial no Banco de Portugal e director-geral da área de investigação do Banco Central Europeu. Foi com base neste currículo que Passos Coelho o foi buscar para uma das pastas que se antevia mais difícil do mandato: a das Finanças, que se sabia vir acompanhada da execução de um memorando de entendimento da troika que tinha sido assinado pelo governo socialista, e que o governo social-democrata teria de cumprir.

Apresentou a demissão a 1 de julho de 2013, dando início à maior crise política do governo de coligação PSD/CDS (a que se seguiu a demissão “irrevogável” de Paulo Portas, dois dias depois). Para a história ficaram as suas conferências de imprensa no Terreiro do Paço, com o seu habitual tom de voz muito pausado e de discurso com ritmo sempre muito lento, onde anunciou as mais pesadas medidas de austeridade das últimas décadas.

 Xadrez político

“Em qualquer consulado o PSD será um partido importante no nosso xadrez político”. Foi uma das últimas intervenções de Passos Coelho, feita no jantar de Natal do grupo parlamentar em dezembro, ainda antes das diretas, já soava a despedida. Lá explicou que se “fecha um ciclo e abre-se outro” no partido, depois de oito anos da sua liderança, e que o PSD “será sempre relevantíssimo, porque foi sempre um partido que, independentemente das suas lideranças, conseguiu pressentir o futuro para o país”. Nos últimos tempos, o PSD foi posto de parte pelo PS nos momentos centrais da governação, perdendo relevância prática no xadrez político. Os socialistas acertaram, de início, que entendimentos com o PSD de Passos era tarefa impossível. E com o PSD de Rio? É a pergunta do momento. A disponibilidade de Rui Rio para isso está admitida. A importância do PSD no tabuleiro de xadrez que agora se reorganiza depende muito do peso eleitoral que conquistar nas próximas legislativas, mas também do que for conquistado pelas restantes forças com representação parlamentar.

Zangas

2010. A primeira grande zanga de Passos Coelho chegou às manchetes dos jornais logo nos primeiros meses de Passos Coelho como líder do PSD, ainda em 2010: “PSD dividido. Ângelo Correia corta com Passos Coelho“, lia-se na capa no jornal i. A verdade é que Ângelo Correia era uma espécie de “padrinho político” de Passos Coelho, tendo-o ajudado quando precisou de emprego (na Fomentinvest), mas depois chocaram quando o ex-dirigente do PSD discordou frontalmente da estratégia do “afilhado” de abrir uma linha de negociações com o Governo de José Sócrates: em declarações ao jornal i, Ângelo Correia dizia que a estratégia de Passos Coelho era “infelizmente uma inutilidade”, e que o PSD não ia ganhar “nada”. Apesar de acreditar que “Teixeira dos Santos e Francisco Assis” queriam mesmo negociar com o PSD, dizia que Sócrates e Pedro Silva Pereira “nunca o fariam”.

Muitas outras “zangas” se seguiram a esta, numa liderança que durou oito longos anos, primeiro enquanto líder da oposição que foi responsável pelo chumbo do PEC IV e a queda de Sócrates, depois como primeiro-ministro responsável por executar o programa da troika — e “mais além” — e depois ainda como ex-primeiro-ministro recambiada para a oposição, depois de ter perdido eleições, ganhando. Pelo meio, muitas pessoas que eram próximas ficaram pelo caminho. Um “zanga” digna de nota é a zanga com Feliciano Barreiras Duarte, que começou por ser chefe de gabinete de Passos Coelho, e se tornou um dos seus grandes críticos: hoje é um dos homens-fortes de Rui Rio. No fim, Passos foi visto por muitos como um “homem só”.