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Uma Marquise com vista sobre o rock'n'roll

O quarteto do Porto tem vindo a construir um percurso de entusiasmo e contágio. "Ela caiu", álbum de estreia agora editado, comprova-o. Os Marquise levam as novas canções aos palcos. Entrevistámo-los.

Em meados dos anos 70, as paisagens urbanas portuguesas começaram a mudar de feições, não só com o aumento da construção, mas também com as inovações (termo sujeito a opiniões distintas) que o acompanharam. Uma delas serviu para enclausurar as varandas e trazê-las para dentro das casas — a essas gaiolas de vidro e metal que começaram a brotar nas laterais dos edifícios chamámos marquises, em si mesmo uma derivação das “marquesas” que antes significavam apenas alpendres ou coberturas.

Apesar da utilidade, são hoje vilificadas, encaradas como um fenómeno descontrolado, um produto do seu tempo, sinónimo de mau-gosto — tudo caracterizações às quais os Marquise escapam. Além do nome, o único aspeto que o quarteto portuense tem em comum com esse elemento arquitetónico é a vontade manifestada de reclamar espaço: não em área útil habitacional, mas na cena musical portuguesa — e em vez de construir mamarrachos, pauta-se pela edificação de canções rock de inspiração devedora aos anos 80 e 90, mas com sensibilidade contemporânea.

Formada em 2022, a banda composta por Mafalda Rodrigues (voz), Miguel Pereira, (guitarra) Miguel Azevedo (baixo) e Matias Ferreira (bateria) teve uma ascensão fulgurante neste breve espaço de tempo. Com apenas um EP lançado — Marquise, de 2023 —, esgotaram salas como o Maus Hábitos e, no final desse ano, acabaram a vencer o prémio Super Emergente no festival do mesmo nome. Com o álbum de estreia Ela Caiu, lançado no final de fevereiro, começam assim um novo ciclo, com passagem pelo CCOP, no Porto, a 21 de março, e esta quinta-feira, 27, no Musicbox, em Lisboa (com primeira parte dos Humana Taranja).

[ouça o álbum “Ela caiu” na íntegra através do Spotify:]

A forma como tomaram o circuito de assalto e começaram a surgir nos radares da cena alternativa já levou alguns a considerá-los “a próxima grande cena” do rock nacional. Desafiada pelo Observador a comentar este rótulo e para analisar o percurso feito até agora, a banda troca sorrisos cúmplices e envergonhados no café do Cais do Sodré onde nos encontramos, antes de Matias tomar a palavra: “É muito fixe, acho que nenhum de nós estava à espera, principalmente com o EP, que a coisa arrancasse desta forma, mas mais agradecidos era impossível estar”. No entanto, o peso da expectativa é algo em que não pensam, pois a música “vem de um sítio genuíno e é o que tiver de ser”.

Feedback, fuzz e felicidade

Essa máxima de ir seguindo o que o destino trouxer tem tocado o percurso dos Marquise, ainda que a história do grupo comece como a de tantos outros — todos eles naturais do Porto, fizeram-se amigos antes de se tornarem colegas de banda. Miguel Pereira e Matias Ferreira conheceram-se no quinto ano, cimentando a relação com o amor partilhado pelos Nirvana. Quando passaram para o terceiro ciclo, adicionaram Miguel Azevedo à equação e a solução já passava por ouvir Pixies, Rage Against the Machine, Black Sabbath e outros nomes do cânone do rock e do metal. Mafalda Rodrigues seria o elemento final a juntar-se a esta fórmula, já no secundário. No entanto, apesar de existirem na órbita uns dos outros e de nutrirem a mesma paixão pela música, a formação enquanto projeto artístico precisou de uma certa dose de aleatoriedade, algo que acompanhá-los-ia desde então.

“Eu, o Matias e o Miguel [Azevedo] costumávamos ensaiar num estúdio no Marquês, o Progressões, íamos lá fazer umas covers”, conta Miguel Pereira. Numa dessas ocasiões, encontrou Mafalda no metro e desafiou-a a participar num dos ensaios com o resto do grupo. “Olha, já que cantas, junta-te e vamos para lá brincar um bocado”, recorda. “Na altura, os estúdios eram mesmo muito baratos. Íamos lá só mesmo para nos divertir”, acrescenta a vocalista.

Formada em 2022, a banda composta por Mafalda Rodrigues (voz), Miguel Pereira, (guitarra) Miguel Azevedo (baixo) e Matias Ferreira (bateria) teve uma ascensão fulgurante neste breve espaço de tempo. Com apenas um EP lançado — Marquise, de 2023 —, esgotaram salas como o Maus Hábitos e, no final desse ano, acabaram a vencer o prémio Super Emergente no festival do mesmo nome.

O intuito destes encontros, no entanto, rapidamente ganhou outros contornos. Sentados no canto da sala, os quatro elementos discutem entre si se Nave — um dos temas do EP de estreia — foi criado logo nesses primeiros ensaios. Não chegam a uma conclusão, mas a desavença denuncia que a centelha criativa já se encontrava bem viva desde que se juntaram. Aliás, como os próprios admitem, a vontade foi tanta que lançaram Marquise sem ter um ano sequer de atividade, tendo sido “tudo feito às três pancadas”, diz Miguel Pereira.

Laborado durante quase dois anos, Ela caiu, por comparação, é um trabalho onde se nota de imediato a experiência acumulada até aqui — até porque grande parte das canções nele incluídas já tinham sido testadas e refinadas ao vivo. “Quando lançámos o EP, já estávamos sempre a compor música. As que foram para o EP, foram porque tinham de ir naquele momento, mas já tínhamos outras. A partir daí, não parámos de compor”, afirma Matias.

Mas ainda que possam ter sido concebidas em proximidade, registam-se diferenças de maior nas canções dos dois lançamentos. No EP, há mais juventude imberbe, mais explosão, há a energia orelhuda de Acordei Mal, a provocação de Nave e a cavalgada a terminar QuatroQuatroCinco. Ela Caiu, por seu lado é mais deliberado, mais carregado, mais contido — o punk virou pós-punk. Compare-se, por exemplo, a forma como os dois começam: a linha de baixo soturna embebida em distorção que arranca Fauno ao bass-slapping saltitão de Meninas Bonitas.

▲ "A perspetiva de cada um é tão própria e tão diferente que é interessante vermos também como é que é gerir essas influências”, diz-nos Mafalda Rodrigues

Os Marquise, no entanto, rejeitam ter seguido este rumo com qualquer tipo de intuito em mente, atribuindo as mudanças à progressão natural do seu crescimento enquanto banda e enquanto pessoas. “Não acho que seja mais negro necessariamente. É só um reflexo das coisas que nós estávamos a ouvir. Antes, gostávamos era da grungealhada e do barulho, essas músicas refletem o que nós gostávamos de ouvir na altura, acordes com distorção e sempre a abrir. Nunca tivemos o intuito de nos meter numa caixinha de ser mais escuro ou de ser menos barulhento ou punk; é só mais o reflexo das coisas que nós gostamos de ouvir ou que estávamos a sentir”, comenta Miguel Azevedo.

Além de receber influências por osmose e feedback de outros projetos portugueses com quem foi partilhando palcos — em particular os da sua editora, a Saliva Diva —, a banda cita como inspirações mais diretas durante a conceção de Ela caiu nomes como Fontaines DC, Dry Cleaning e PJ Harvey. Ao longo das suas 10 faixas, contudo, ouvem-se também laivos de Pixies, The Cure, The Breeders ou Cocteau Twins. As guitarras a irromper como theremins tresloucados em Delírios, o compasso cambaleante muito 90s de Ofélia, a toada sépia do rock alternativo de Passado são apenas alguns exemplos, assim como a correria frenética a replicar o “ela não pára” cantado no refrão de Cidade — talvez a canção que melhor representa a ponte entre EP e álbum.

[o vídeo de “Passado”, um dos novos temas dos Marquise:]

Não há apenas um tipo de som específico a alimentar os Marquise, algo que Mafalda atribui ao facto de, com o tempo, terem começado a desenvolver gostos musicais distintos. “Não fazemos o género de canções que ouvimos. Sinto isso, pelo menos, e às vezes é um pouco assim uma discussão acesa. A perspetiva de cada um é tão própria e tão diferente que é interessante vermos também como é que é gerir essas influências”, defende. Essa diversidade, juntando-se ao facto da banda ter uma atitude plural quanto à composição — não compõem em improviso de estúdio nem em maquetes preparadas, sendo um misto dos dois sistemas e onde todos contribuem — faz com que qualquer ideia, por mais improvável que pareça, acabe filtrada pelas sensibilidades conjuntas dos quatro.

“A maior parte das ideias que cada um de nós os quatro traz faz com que nada soe como soava no início, nas nossas cabeças”, afirma Miguel Azevedo, dando como exemplo Algodão, uma das faixas mais intensas do disco. “É uma das nossas músicas mais jardadas e só comecei com um detalhe de guitarra acústica. Depois foi distorção e fuzz para ali, solos de baixo para lá, pormenores do Miguel na guitarra. Toma sempre uma proporção completamente diferente. Não estou a dizer que é maior ou menor, mas é um registo distinto do que cada um de nós estava a imaginar”, observa.

"Há sempre uma grande bagagem, principalmente de música rock, vinda do Porto. Tento sempre pôr esta atmosfera do que é viver nas ruas, na cidade, nas pessoas. Acho que é impossível não imaginares o Porto ao ouvir este álbum.”

“Nunca fomos muito matemáticos nessa questão da composição, é sempre bastante natural e varia de música para música”, acrescenta Matias. Noutra demonstração, recorda que Não quero ser — exercício de dinâmicas entre o ritmo marcial dos versos e a libertação catártica do refrão — ”tem sempre a mesma progressão de acordes; não muda, só a intensidade, as dinâmicas, os sons. Só depois da música existir é que reparamos nisso”. Já em De alguém hão-de ser, a sua natureza inteiramente acústica e sem percussão foi, pelo contrário, uma escolha consciente de depuração, já que “chegou a ter uma caixa de ritmos, a ter baixos e baterias, a ter muita coisa”. “No início, tentámos um bocado fugir daquilo que a música ficou, mas fomos percebendo que de facto ela funcionava assim”, admite o baterista.

Como cozinhar o título de um álbum

Se Marquise parece ser um nome com uma pontada de ironia, o batismo do álbum de estreia podia ter seguido no mesmo caminho, tendo a banda encarado como alternativas “Café com Cheirinho” ou “Urbanos Depressão”. “Quase que caímos naquela cena de, quanto menos procuras, mais as coisas caem do céu e foi o que aconteceu com esta música, com esta letra. Mal a acabámos, ficámos ‘tem de ser o nome do álbum’”, revela Mafalda. A vocalista refere-se assim a Nuvem, pequeno interlúdio almofadado com guitarras shoegaze onde é repetido como um mantra a frase “ela caiu”.

Para perceber como surgiu a ideia, é preciso compreender que, chegados aos estúdios Arda Recorders para gravar o disco, os Marquise sentiram-se como miúdos numa loja de doces. Desde amplificadores a pedais de efeitos e kits de bateria, a banda pôde explorar e descobrir o que melhor resultava para cada canção. Mas mais importante do que isso, pôde contar com os préstimos de João Brandão, produtor de extenso currículo. “Desde o início que ele compreendeu bem o que pretendíamos e foi ao nosso encontro. Isso levou naturalmente a essa recetividade da nossa parte, aliada também a um grande voto de confiança nas pessoas que estavam a trabalhar connosco”, afirma Miguel Pereira.

▲ “Há muita malta que tem vontade de fazer coisas e faz. E mesmo que haja poucas condições ou pouco financiamento, é malta que se vai informar, fazer coletivos e associações"

O produtor, no entanto, faria mais do que apenas aconselhar a banda, tendo tido um papel fundamental em como Nuvem surgiu. Projeto falhado de canção por ser demasiado polido, a banda esteve para desistir dela até que Miguel Azevedo lutou pela sua permanência. A arbitrar a diferença de opiniões, João Brandão optou por outra solução, começando por cortá-la para apenas cerca de 90 segundos. “Ele deu um pitch down à música, ela ficou também mais lenta e brincou muito mais com a atmosfera. Ficámos todos parvos, do estilo ‘é isto, isto sim, agora tem mais sentimento’, e ele respondeu ‘agora têm de arranjar uma letra para isto’”, conta Mafalda.

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“Entretanto, nessa sessão de estúdio, estávamos a ouvir as canções todas mais uma vez e fiquei muito absorvida ainda na Cidade, acho que foi a última que tínhamos ouvido nessa sessão e a única coisa que me veio à cabeça foi ‘ela caiu”, continua. Como tal, a vocalista teve uma missão ingrata proposta pelo produtor. “Ele disse-nos ‘OK, agora vocês vão tocar no Funchal, portanto, Mafalda, grava isto no avião e traz-me para cá’. Entretanto, tentámos todos gravar vozes no avião, só que claramente não correu bem. Não nos estávamos a ouvir uns aos outros, nem estávamos a ouvir a nós mesmos. Portanto, o clip inicial da Nuvem sou eu a cantar no avião, com a atmosfera toda ainda das pessoas a falar e tal. Um pouco desafinado, mas a malta curtiu, embora eu não estivesse muito recetiva à cena”, confessa.

Não surpreende, de resto, que Mafalda tenha ido buscar a outra das canções de Ela caiu a inspiração para a letra de Nuvem. Apesar de não ser um álbum conceptual, é atravessado por alguns temas e motivos. “Temos temas que tocam um pouco do binómio entre cidade e campo, o ambiente da água, seja em forma literal ou não”, afirma. A isto junta-se não só a sua entrega vocal — entre a vibração dramática de Elizabeth Fraser e aquela doçura combativa de Lena d’Água —, como uma aproximação às letras onde nada é literal; tudo deve ser encarado como metáfora, como efabulação, entre o mito e os jogos de palavras e as livres-associações.

“Eu preciso de dizer isto, mas sem ninguém perceber o que é! Acho que, estando a escrever, e lá está, não é literal por isso mesmo, quero que as pessoas se identifiquem — e eu própria quero identificar-me com aquilo — mas sem transparecer quem sou realmente”, declara. “Apesar de tudo, sinto que não fiz de propósito, simplesmente foi acontecendo. Acho que a maneira como eu escrevo é por metáforas ou por certas ligações. Há sempre uns temas que são recorrentes. Eu nem sabia até o álbum estar completo e ouvi-lo do início até ao fim”, completa.

Porto, cidade aberta à música

Outra marca identitária que a banda admite e veste com orgulho é ser do Porto — algo que, de qualquer das formas, encara ser impossível dissociar do som que fazem. “Obviamente, temos também referências musicais muito fortes daquilo que é a nossa cidade. Ornatos, Clã… Há sempre uma grande bagagem, principalmente de música rock, vinda do Porto. Tento sempre pôr esta atmosfera do que é viver nas ruas, na cidade, nas pessoas. Acho que é impossível não imaginares o Porto ao ouvir este álbum”, afirma a vocalista.

A ligação à cidade natal, porém, foi também instrumental na projeção dos Marquise, pela forma como se integraram nas iniciativas da cena alternativa local. Aqui, regressamos ao início da conversa, ao “será o que tem de ser” e como há certas coisas que acontecem sem plano. “Acho que tivemos muita sorte com as pessoas com quem nos rodeamos. Pelo menos no início da banda, tivemos muitas oportunidades de ‘olhem, querem tocar? Precisamos de uma banda, bora’. Esses pequenos cachês ajudaram imenso para que tivéssemos conseguido gravar o EP”, conta Mafalda.

“O pessoal da nossa idade está formar coletivos, a criar salas para promover concertos, está com muita sede e está a fazer porque quer fazer e porque tem de fazer. Aproveitámos a onda. Está toda a gente a aproveitar a onda. Se isto está a crescer, vamos.”

De todos esses espaços, a Faculdade de Arquitetura do Porto, onde a vocalista estuda, assumiu um papel particularmente importante — foi lá, no decurso de uma festa onde foram tocar, que conheceram técnicos de som que os convidaram a tocar no estúdio que tinham acabado de abrir. E também foi lá que encontraram os membros dos Baleia Baleia Baleia, co-fundadores da Saliva Diva. “Viram o nosso concerto, gostaram e falaram connosco. Foi mais uma vez estar no sítio certo, à hora certa e, pronto, eles terem gostado da nossa música também”, comenta Miguel Azevedo.

Dificilmente os Marquise teriam o sucesso que começaram a granjear sem as canções certas ou vontade de arriscar — recorda-se aqui a célebre frase “a sorte dá trabalho”. Todavia, a projeção também é fruto, reconhecem, de um momento crescente de associativismo no Porto, de gente disposta a formar associações e tentar manter espaços de espetáculos, não obstante a especulação imobiliária proibitiva e as dificuldades financeiras associadas à música ao vivo.

“Há muita malta que tem vontade de fazer coisas e faz. E mesmo que haja poucas condições ou pouco financiamento, é malta que se vai informar, fazer coletivos e associações, a pensar ‘OK, como é que vou sacar este financiamento para fazer esta programação artística ou cultural, etc…’. É pessoal que também está muito dentro de associações que já existem. Acho que há um reviver deste associativismo, pelo menos no Porto, e é algo muito bonito”, sublinha Mafalda.

Matias concorda e dá-lhe sequência. “O pessoal da nossa idade está formar coletivos, a criar salas para promover concertos, está com muita sede e está a fazer porque quer fazer e porque tem de fazer. Aproveitámos a onda. Está toda a gente a aproveitar a onda. Se isto está a crescer, vamos”, termina.

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