Ainda há 30 ou 40 anos, a defesa do ambiente era vista como coisa de gente lírica, sem qualquer sentido da realidade, uma causa de criaturas de túnicas floridas, sandálias, barba hirsuta e pouca apetência por tomar banho.

Percorreu-se um longo caminho: hoje vivemos num mundo em que as estrelas de Hollywood e da música pop recomendam que se urine no duche, poupando assim uma descarga de autoclismo – considerando 12-13 litros por descarga, ao fim de um ano são 4000-5000 litros de água que se poupam, explicam os entusiastas da ideia. O consumo doméstico de água per capita nos países da OCDE é de 180 litros/dia (295 nos EUA, 194 em Portugal, 95 na República Checa), pelo que 12-13 litros a menos são um contributo modesto, mas é inegável que as descargas de autoclismo, consideradas como um todo, merecem atenção, já que representam uma fracção importante do consumo doméstico (até 30% em França).

A ideia de urinar no duche não veio de Hollywood, pois já tinha sido proposta em 2009 por um grupo ambiental brasileiro, que lançou uma campanha cujo slogan era “Faça xixi no banho, ajude a Mata Atlântica” e que viria, mais tarde, a ganhar o apoio da super-modelo Gisele Bundchen.

Quando, na Primavera de 2015, se tornou patente que a Califórnia iria entrar no quarto ano consecutivo de seca e as autoridades impuseram uma série de restrições ao consumo de água, reforçadas por multas pesadas, a beautiful people de Beverly Hills e Santa Monica percebeu que a luta contra a escassez de água exigia algo mais do que urinar no duche: houve quem anunciasse publicamente que passaria a tomar duches muito breves ou até a prescindir deles, o que leva a que se dê graças por, por enquanto, o empenho da cinema e da TV em providenciar experiências realistas passe por somar uma dimensão à imagem mas não por juntar-lhe odor.

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O Lago Oroville, o segundo maior reservatório da Califórnia, em Setembro de 2014

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O Lago Oroville em Julho de 2011

À medida que a cruzada pelo ambiente ganha adeptos vão surgindo sugestões menos ortodoxas (e igualmente ao arrepio dos nossos preconceitos sobre higiene e salubridade): em 2013, na Taça Gothia, um torneio de futebol juvenil na Suécia, foi apresentada uma máquina que gerava água apta a ser bebida a partir do suor extraído de equipamentos desportivos ensopados em suor.

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No início de 2015, fez sensação outra máquina que promete salvar o planeta indo contra as nossas reacções instintivas de repugnância: o Omniprocessor, desenvolvido por Peter Janicki e patrocinado pelo capitão-de-indústria-reconvertido-em-benemérito Bill Gates, é capaz de transformar excrementos em água potável.

O Omniprocessor foi acolhido entusiasticamente – e um pouco acriticamente – como a solução simultânea para dois problemas cruciais dos países em desenvolvimento: a eliminação de resíduos e o abastecimento de água potável. E tudo isto sem consumir electricidade, já que a queima da parte sólida dos excrementos produz electricidade suficiente para operar o Omniprocessor.

Dir-se-ia algo da ordem do miraculoso, uma invenção do Professor Pardal, boa demais para ser verdade – e é mesmo. As tecnologias para transformar resíduos, sólidos ou líquidos, de origem humana ou animal, em água potável existem há décadas, pelo que o desenvolvimento de mais uma pouco adianta se não responder satisfatoriamente a estas perguntas-chave: A sua construção e operação é comercialmente viável? Pode ser construído, operado e mantido sem necessidade de pessoal especializado e peças e reagentes dispendiosos?

Há muito que estão em funcionamento, um pouco por todo o mundo, sistemas que desempenham funções análogas, embora recorrendo a soluções diversas, e se não costumam levar a depuração ao ponto de produzir água potável é pela simples razão de que é desproporcionadamente caro dar esse passo extra. Mas a maioria das estações de tratamento de águas residuais que há pelo mundo fora produzem, se estiverem a ser operadas correctamente, água adequada para rega ou lavagem de ruas ou para ser vertida nos rios, lagos e mares. Que traz, então, de novo o Omniprocessor, para lá do patrocínio de uma celebridade?

O tratamento dos problemas de ambiente nos media tende a oscilar entre a catástrofe e o milagre. A narrativa-padrão apresenta-se assim: “o nosso estilo de vida está a conduzir o planeta para o abismo e o mundo pode colapsar amanhã mesmo, mas uma descoberta científica sensacional poderá salvar-nos no último minuto, sem que precisemos de mudar o nosso estilo de vida”. Na verdade, sendo essas “descobertas sensacionais” velhas ideias recauchutadas ou fantasias sem sustentação, a mudança de estilo de vida é a única forma de evitarmos a lenta mas inexorável degradação do planeta – mas é a essa mudança que resistimos com todas as nossas forças e manhas.

As águas gourmet

Regressemos às celebridades que crêem sinceramente estar a fazer a sua parte na luta contra a falta de água quando urinam no duche e que não vêem contradição em beberem água engarrafada proveniente de nascentes nos Andes ou nas ilhas Fiji ou da recolha de água da chuva na Tasmânia.

Entre as classes possidentes, as águas gourmet tornaram-se obrigatórias e até já surgiu a figura do sommelier de águas, um especialista que recomenda águas de acordo com os pratos servidos.

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Martin Riese, “sommelier” de águas, exibe os seus apuradíssimos talentos numa degustação pública

Michael Mascha, um dos reputados sommeliers de água, considera que beber água da Patagónia a uma refeição não é mais extravagante do que beber um vinho do Chile ou de França. Se a capacidade do palato para distinguir entre águas – cujo sabor é, em princípio, muito ténue – parece ser muito vacilante, a intimidade entre Mascha e a indústria das águas prime – veja-se o seu site Finewaters – pode levantar suspeitas sobre a isenção dos seus julgamentos.

Mascha foi o escolhido para apresentar ao público americano a nossa Água das Pedras (que será comercializada como Pedras Water) num evento promocional, paralelo ao Summer Fancy Food Show, em Nova Iorque em Junho passado.

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Stand da Pedras Water em Nova Iorque, no Summer Fancy Food Show: o objectivo é “saltar (…) para as mesas dos restaurantes de luxo de Nova Iorque” e, presume-se, contribuir para um planeta mais verde

A terminologia extravagante dos sommeliers de águas tem inevitáveis analogias com as dos sommeliers de vinhos e enólogos, mas nas águas o conceito de vintage é mais dilatado: a água norueguesa Svalbardi, obtida em glaciares nos fiordes do arquipélago de Svalbard (anteriormente conhecido como Spitsbergen), a meio caminho entre o extremo norte da Escandinávia e o Pólo Norte, orgulha-se de ter uma idade média de 4000 anos. E orgulha-se também de a sua obtenção envolver uma expedição ao Árctico, por vezes requerendo “uma semana de buscas no mar até encontrar o gelo certo”. As peças de gelo seleccionadas são em seguida “retiradas manualmente da água através de uma embarcação especialmente equipada. O gelo é depois levado para a estação árctica de Longyearbyen, onde é fundido e engarrafado”.

Se isto parece ser um longo e tortuoso caminho para matar a sede, é possível ser-se ainda mais extravagante: a MaHalo Hawaii Deep Sea Water é (diz-se) captada a 1000 metros de profundidade no Oceano Pacífico (na “zona de rejuvenescimento de águas”, seja lá isto o que for) e é dessalinizada, num “edifício mágico” dotado dos “mais sofisticados sistemas de filtragem do mundo”, e engarrafada em embalagens “de forma única”, concebidas por especialistas para terem a “ergonomia perfeita”.

Vale a pena contrapor a esta verborreia pseudo-científica um facto comezinho mas real: em 2011, a MaHalo foi autuada pelas autoridades sanitárias do Hawaii por misturar as águas residuais provenientes da filtragem com a água filtrada.

Claro que as demandas por icebergues virgens, as fontes localizadas em montanhas inacessíveis e o desenvolvimento e operação dos “mais sofisticados sistemas de filtragem do mundo” custam caro. A maioria das águas premium faz-se pagar a 10-20 euros por litro, podendo subir para o dobro ou triplo no caso da Glaciana, proveniente de um glaciar em Osa, Noruega, da Finé, proveniente de uma fonte artesiana no Japão, ou da 420 Volcanic, proveniente de um vulcão extinto em Tai Tapu, Nova Zelândia.

Mas as águas gourmet são caras não apenas em termos de preços de mercado – são-no também em termos ambientais. O consumo de energia associado ao transporte de 700 litros de água por ano (assumindo um consumo médio de 2 litros por dia e por pessoa) entre a Patagónia e a Califórnia ou entre Svalbard e a Quinta da Marinha excede largamente os benefícios ambientais decorrentes de poupar 365 descargas de autoclismo mediante o expediente de urinar no duche.

Mesmo entre os cidadãos de classe média do mundo ocidental, que não têm meios para fornecer o frigorífico com 420 Volcanic, o consumo de água engarrafada tem vindo a crescer rapidamente – e é paradoxal que essa tendência tenha emergido escassas décadas depois de, coroando um moroso e pesado investimentos em furos, barragens, sistemas de tratamento e redes de distribuição, se ter conseguido assegurar que das torneiras da maioria da população jorra água cumprindo os critérios de qualidade impostos pelas autoridades de ambiente e saúde pública.

O consumo global de água engarrafada quadruplicou entre 1990 e 2005 e estima-se que tenha atingido os 115.000 milhões de litros em 2006 e os 265.000 milhões em 2010. O mercado global de água engarrafada representa hoje 200 mil milhões de dólares por ano e é apenas superado, em valor, pelo dos refrigerantes com gás (Coca Cola e similares). Mas enquanto se prevê que as vendas destas cresçam, nos próximos anos, a uma taxa anual de 1.3%, projecta-se para a água engarrafada uma taxa de crescimento anual de 3.9%.

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Consumo de água engarrafada em 1999 e 2004, em milhares de milhões de litros

A opção pela água engarrafada é legítima (este é um daqueles casos em que vale o “gostos não se discutem”), mas é contraditória para os que se reclamam como “ambientalmente conscientes” (e quem não o é hoje no mundo desenvolvido?), já que a água engarrafada tem custos ambientais decorrentes do seu transporte, dos custos em matéria-prima e energia no fabrico das embalagens, e da posterior rejeição dessas embalagens. Os 31.200 milhões de litros de água engarrafada consumidos nos EUA em 2006 implicaram o fabrico de 900.000 toneladas de garrafas de plástico, processo em que se consumiu energia equivalente a 17 milhões de barris de petróleo.

É mais difícil calcular o consumo de energia envolvido no transporte, pois a distância coberta por cada garrafa entre a fonte e a mesa do consumidor é muito variável, com as águas baratas a fazerem viagens curtas e as águas gourmet a dar a volta ao mundo. Algumas estimativas sugerem que 25% da água engarrafada seja consumida fora do país de origem, mas até um modesto trajecto de 200 ou 300 Km dentro do país tem custos energéticos elevados, pois o volume envolvido – 700 litros por pessoa e por ano – ultrapassa largamente o de qualquer outro consumo alimentar.

É curioso que os gurus da alimentação e da ecologia que admoestam o cidadão irresponsável por consumir anualmente algumas dezenas de quilos por ano de bananas colombianas ou maçãs argentinas e exortam ao consumo de produtos hortícolas locais, dêem tão pouca atenção ao colossal tráfego de água engarrafada.

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O mercado mundial de água engarrafada, de acordo com a empresa líder de vendas em cada país

Os ataques à água engarrafada têm sido débeis e a indústria defende-se com diversos argumentos: por um lado, a água engarrafada é invariavelmente publicitada como oferecendo benefícios para a saúde e até para o aspecto físico (pele mais suave, cabelo mais sedoso, melhor trânsito intestinal, perda de peso), embora tal careça de comprovação científica – na verdade, uma percentagem considerável (até 40% nos EUA) da água engarrafada é apenas água da torneira a que foram adicionados minerais.

Por outro, a indústria alega que o seu produto é o que tem a menor pegada de carbono de todas as bebidas em garrafa ou lata. Porém, é falacioso comparar a pegada ecológica da água engarrafada com a de ice tea, refrigerantes ou vinhos. Ela deve ser comparada com a do seu concorrente directo, que é a água da torneira, cuja pegada ecológica é quase desprezível, já que representa 1/90 do consumo doméstico de água (dois litros face a 180 litros de consumo doméstico – média da OCDE, valores por pessoa e por dia).

É paradoxal que toda a água nas redes públicas de abastecimento seja, obrigatoriamente, elevada a um nível de qualidade adequado a que seja bebida e que, na prática, tantas pessoas a usem apenas lavar roupa, chão e automóveis, tomar banho, regar plantas de interior ou para descargas sanitárias, para os quais serviria água de qualidade bem inferior.

Um relvado no deserto

A água para rega leva-nos a outra área contraditória da vida nos países desenvolvidos: a proliferação de relvados, público e privados, em climas inadequados.

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Urbanização em Cathedral City, Califórnia: durante quanto tempo poderemos dar-nos ao luxo de ter relvados luxuriantes em climas desérticos?

Também neste domínio, a prolongada seca na Califórnia levou a que as vedetas de Hollywood despertassem do seu alheamento do mundo: Kate Walsh (Anatomia de Grey) e Billy Ray Cyrus (cantor country e pai de Miley Cyrus) anunciaram esta Primavera a conversão dos seus relvados perdulários em ascéticos jardins de plantas suculentas.

A voga dos relvados foi importada em meados do século XIX das húmidas Ilhas Britânicas para os EUA, onde proliferou explosivamente nos anos de prosperidade do pós-guerra, espalhando-se em seguida um pouco por todo o mundo. No seu livro de 1841, A Treatise on the Theory and Practice of Landscape Gardening, Adapted to North America, Andrew Jackson Downing, um dos pais da arquitectura paisagista norte-americana, proclamou que o jardim perfeito não poderia dispensar uma extensão de “relva aparada de forma a ter a suavidade do veludo”.

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A casa suburbana modelo surge rodeada de uma área improdutiva, dispendiosa, consumidora de água e contaminadora do ambiente

Nos EUA o relvado é uma instituição nacional e está profundamente imbricado no American dream: a vivenda do subúrbio americano é inconcebível sem relvado.

O relvado tem, porém, vindo a ser alvo de violentos ataques: Ted Steinberg, um historiador da relação conflituosa entre homem e ambiente nos EUA e autor, entre outros livros, de American Green: The Obsessive Quest for the Perfect Lawn (2006), definiu-o como “uma experiência química à escala nacional que usa os residentes [dos subúrbios] como cobaias”.

David Quammen já questionara a obsessão americana com relvados em Rethinking the Lawn, um artigo publicado na revista Outside em Julho de 1994 (republicado na colectânea The Boilerplate Rhino), apontando que a área total de relvados artificiais dos EUA é equivalente à de toda a Irlanda – com a diferença significativa de que manter a relva verde quase dispensa intervenção humana na Irlanda, enquanto a maioria dos relvados americanos são contra natura, desenvolvendo-se em zonas áridas e semi-áridas. Os valores médios apontados por Quammen para a Costa Oeste coincidem com os que o desesperado mayor de Beverly Hills apresentou recentemente para o seu município: a irrigação de relvados representa nestas zonas 60-70% do consumo de água urbano.

Outra diferença significativa é que os relvados em torno das mansões senhoriais britânicas oitocentistas eram mantidos aparados com suma economia e eficiência por ovelhas, enquanto os relvados modernos requerem máquinas de cortar relva.

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Anúncio a cortador de relva, finais de anos 40, início dos anos 50

Em Rethinking the Lawn, David Quammen evoca a sua adolescência no início dos anos 60 para apresentar a teoria que então congeminara, enquanto desempenhava as monótonas tarefas de manutenção do relvado familiar, de que a relvadomania era produto de uma conspiração soviética, que, de algum modo, conseguira fazer uma lavagem cerebral à classe média americana, levando-a a conferir prioridade àquela tarefa de Sísifo.

Enquanto os americanos desviavam milhões de dólares e milhões de horas de trabalho para a manutenção de milhares de km² de superfície improdutiva em torno dos seus lares, a URSS adiantava-se na corrida ao espaço; os americanos labutavam penosamente com os olhos fixos na relva, enquanto o Sputnik e Yuri Gagarin subiam às estrelas.

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A manutenção do relvado tornou-se no fulcro da vida doméstica de muitos homens e adolescentes norte-americanos. Anúncio a cortador de relva Reo, 1950

O consumo de energia do cortador de relva tem, todavia, um impacte ambiental moderado quando comparado com a aplicação de pesticidas e fertilizantes. Parte dos pesticidas destinam-se a eliminar as famigeradas “ervas daninhas” – o relvado “ideal” é um tapete verde homogéneo formado apenas por uma ou duas espécies. Como é sina das monoculturas, o relvado mono-específico é mais susceptível a pragas, o que obriga a aplicar mais pesticidas para combater as pragas que não existiriam se não tivéssemos usado pesticidas para eliminar espécies “indesejáveis”.

Enquanto na agricultura o uso de pesticidas e fertilizantes é limitado, quanto mais não seja por se tratar de uma actividade comercial competitiva, nos relvados particulares as aplicações são feitas segundo o capricho do proprietário: o que ajuda a explicar que a média das aplicações de pesticidas seja, na agricultura, de 3 Kg/hectare, enquanto em relvados é de 3,6 a 11 Kg/hectare.

Somando todas as despesas, a manutenção dos relvados norte-americanos representa, de acordo com Elizabeth Kolbert (em “Turf wars”, artigo publicado em The New Yorker de 21 de Julho de 2008), 40.000 milhões de dólares por ano, o que dá para pôr uma dúzia de Sputniks em órbita. O mais espantoso é que embora todos estes inconveninetes e irracionalidades sejam há muito conhecidos, em 2008 os relvados americanos continuavam a alastrar (de acordo com Kolbert) ao ritmo de 1500 km² por ano.

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Campo de golfe em Sun City Palm Desert, Califórnia: o deserto aguarda a oportunidade para reconquistar o espaço que foi seu

O relvado chegou tardiamente a Portugal, mas rapidamente ganhou voga, em torno das vivendas e nos espaços públicos, mas sobretudo sob a forma de campos de golfe, que, para maior prejuízo, escolheram instalar-se não no Minho mas em zonas semi-áridas como a Península de Setúbal e o Algarve, com o beneplácito de figuras como Macário Correia, ex-secretário de Estado do Ambiente e ex-presidente das câmaras de Tavira e Faro, que pretendia silenciar os detractores dos campos de golfe equiparando estes a “uma pastagem melhorada”.

A haver “melhoramento”, sê-lo-á apenas na óptica do golfista, já que na óptica do ambiente as desvantagens são muitas – só no que diz respeito aos pesticidas, há que considerar que da trintena de variedades usadas correntemente nos relvados, 16 são tóxicas para aves, 24 para peixes e organismos aquáticos e 11 para abelhas.

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Allgarve ou o encontro utópico de dois mundos: relva escocesa e palmeiras sub-tropicais

Quando se soma o consumo para irrigar relvados ao consumo doméstico, os 12-13 litros de uma descarga de autoclismo começam a parecer pouco relevantes. Mas é preciso alargar ainda mais a moldura e considerar a água que é consumida no fabrico dos produtos (de alfaces a pneus, passando por lenços de papel e peúgas) e serviços de que desfrutamos.

Foi assim que surgiu o conceito de “pegada hídrica”, ou seja, o consumo total de água por pessoa, que varia entre 2483 m3/ano nos EUA e 660 m3/ano no Afeganistão. A média global é de 1243 m3/ano e Portugal ocupa a pouco honrosa 6.ª posição do ranking de 151 países, com 2264 m3/ano (são 6.202 litros/dia).

O consumo doméstico representa em média apenas 5% da “pegada hídrica” e uma descarga de autoclismo de 12 litros torna-se irrelevante face aos consumos da ordem dos 2000 litros/dia da maioria dos países industrializados.
Mas se nuns lugares a água está em falta, noutros perspectiva-se que ela esteja a mais. Entre as principais consequências da queima de combustíveis fósseis está a subida da temperatura média do planeta e a consequente subida do nível do mar, ameaçando de submersão vastas áreas costeiras e podendo levar ao desaparecimento de ilhas no Pacífico (Kiribati, Palau, Salomão, Tuvalu) e Índico (Maldivas, Seychelles).

Sonhos húmidos no Dubai

Mais uma vez, as celebridades de Hollywood e da música pop estão na primeira linha da batalha pelo planeta: entre as que têm assumido posições públicas quanto à necessidade imperiosa de lutar contra as alterações climáticas estão Cameron Diaz, Brad Pitt, Daryl Hannah, Leonardo DiCaprio, Edward Norton, Mark Ruffalo, Natalie Portman e Sting.

Todavia, Brad Pitt e Angelina Jolie, ao mesmo tempo que crêem que a elevação do nível do mar em resultado da acção humana é uma realidade e deve ser combatida a todo o custo, terão, em 2007, adquirido um lote no The World Archipelago, um dos arquipélagos artificiais projectado para a costa do Dubai.

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The World Archipelago ou World Islands

O projecto é megalómano, vão, ostentatório e elitista, como quase tudo o que se faz no Dubai, e inclui além de The World, os arquipélagos Palm Jumeirah, Palm Deira, The Universe e Palm Jebel Ali. As ilhas artificiais são criadas através da dragagem de areias no fundo do Golfo Pérsico e prevê-se que sejam ocupadas por vivendas, marinas (seis, só em Palm Jebel Ali), parques de diversões aquáticas, hotéis, health resorts – tudo no segmento hiper-luxo, está claro.

Os nomes publicitados como compradores de lotes ou ilhas individuais incluem estrelas de Hollywood e Bollywood, jogadores e ex-jogadores de futebol (entre os quais David Beckham) e ténis, pilotos e ex-pilotos de Fórmula 1 (Michael Schumacher foi presenteado com uma ilha por um sheik quando da sua despedida da Fórmula 1), estrelas rock (o inevitável Rod Stewart) e milionários excêntricos (o ainda mais inevitável Richard Branson).

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Alguns dos arquipélagos artificiais projectados para a costa do Dubai: Palm Jumeirah à esquerda, Palm Deira à direita; entre eles The World e The Universe

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Outra perspectiva dos arquipélagos artificiais do Dubai: à esquerda dos arquipélagos da imagem acima, pode ver-se o arquipélago de Palm Jebel Ali

Se é certo que estas ilhas minúsculas e rasas se contarão entre as primeiras vítimas de uma previsível subida do nível dos mares, ainda mais irónico é que o casal Brangelina tenha anunciado que a sua ilha iria contribuir para aumentar a consciência ambiental e encorajar as pessoas a viver “uma vida mais verde”.

O que haverá de “verde” numa ilha cuja criação requereu a bombagem de dezenas de milhares de toneladas de areia (além do custo energético há que contabilizar a disrupção do ecossistema marinho), cuja manutenção obrigou à construção de molhes de protecção e obrigará, previsivelmente, a recargas de areia e dragagens regulares, e cujo abastecimento de água e energia terá de ser feito através de um cordão umbilical submarino ligado ao continente? Que volume de água será preciso gastar diariamente para manter a vegetação nestas ilhas arenosas?

E melhor será nem contabilizar do custo ambiental de cada viagem em jacto privado entre uma das mansões de Pitt & Jolie nos EUA e a sua ilha-modelo no Dubai… Nem que o casal Brangelina e a sua prole levassem 500 anos a urinar no duche e a separar o lixo doméstico seriam capazes de compensar o dedo mais pequeno da sua pegada ecológica.

Mas talvez nunca se chegue a contabilizar os créditos e débitos ambientais da ilha-modelo de Pitt & Jolie, pois o projecto da empresa imobiliária Nakheel Properties está em banho-maria, em parte devido à crise financeira de 2008 e as suas sequelas. A construção de novas ilhas está suspensa e as ilhas existentes continuam desabitadas (existe apenas uma casa-modelo para mostrar a potenciais compradores e um beach club) e começaram a ser comidas pela erosão, enquanto os canais entre elas começaram a ficar assoreados – nem outra coisa seria de esperar desta tentativa irreflectida de moldar a topografia e a batimetria, contrariando a dinâmica natural do mar.

https://www.youtube.com/watch?v=rCDYYjBiywg

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The World: a realidade, em Abril de 2015, 12 anos após o lançamento do projecto

É por demais evidente quão contraditórias são as estrelas mediáticas que se julgam investidas de autoridade moral para instruir as massas, por vezes num tom irritantemente paternalista ou sobranceiro, a levar uma vida “mais verde”, quando elas próprias têm pegadas ecológicas descomunais – provavelmente até Tinkerbell, o falecido Chihuahua de Paris Hilton, terá deixado impressa uma pegada ecológica maior do que a de uma família de 12 pessoas de Mumbai.

Numa entrevista recente ao Expresso (04.07.15), quando lhe perguntaram qual era o principal objectivo da sua vida, Arnold Schwarzenegger respondeu estar “empenhado numa causa ambiental que garanta um mundo limpo, verde e sustentável no futuro […] Sete milhões de pessoas estão a morrer a cada ano por doenças directamente causadas pela poluição. Acho que podemos fazer melhor para mudar isto. É esta a minha cruzada.”

É uma cruzada que Schwarzenegger tem combatido com exemplar abnegação ao volante de um dos seus SUVs Hummer, de um Mercedes Unimog custom de cinco toneladas ou de alguma das outras “bombas” da sua colecção de veículos (que inclui, ente outros, um Porsche 911 Turbo, um Mercedes SLS AMG, um Bentley, um Ferrari e um tanque M47 Patton).

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Arnold Schwarzenegger ao volante do Mercedes Unimog que adquiriu por 250.000 dólares em 2012 (e que, entretanto, pôs à venda)

A pegada de Schwarzenegger quando se desloca pelo ar não é menos impressionante: durante parte dos mandatos como governador da Califórnia, Schwarzenegger fez diariamente 2 x 580 Km entre a sua mansão em Brentwood, nos arredores de Los Angeles, e a capital estadual de Sacramento. Uma hora de voo num Gulfstream tem o impacte ambiental equivalente a um ano de uso médio de um automóvel utilitário – um grupo ecologista estimou que Schwarzenegger consumiu nestes trajectos casa-escritório 4,3 milhões de litros de jet fuel.

Porém, quando, em 2009, se deslocou a Copenhaga para participar na Conferência do Clima, Schwarzenegger fez questão de anunciar previamente que utilizaria um voo comercial – um exemplo de frugalidade!

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Arnold Schwarzenegger a bordo do seu jacto privado Gulfstream de 38 milhões de dólares

Schwarzenegger, embora seja mais extravagante do que a média das celebridades no que diz respeito a parque automóvel, está bem acompanhado no que diz respeito a jactos privados. Até William Henry Gates III, ao mesmo tempo que promove a máquina prodigiosa que converte excremento em água potável e pugna pela redução das emissões de CO2 (“gosto de ajudar as pessoas a perceber quão importante isso é”), faz-se transportar num Bombardier BF-700 Global Express de 40 milhões de dólares.

Quando os cruzados por um planeta verde se comportam assim, melhor será não pensar no que farão os exterminadores implacáveis.

Mas as vedetas de Hollywood que estão convencidas de que fazem tudo para salvar o planeta enquanto se comportam, na prática quotidiana, como os seus piores inimigos, são apenas a face mais extrema e visível de uma contradição que inquina as vidas de quase todos os habitantes do mundo desenvolvido.

Próximo capítulo: A caminho do Inferno ao volante de um SUV