Invadiram o TikTok da mesma maneira que voam das prateleiras do supermercado: a grande velocidade. Desde o início de agosto que são vendidas uvas com sabor a manga, ou sabor a algodão doce, e nas redes sociais, dividem-se as opiniões. Há quem detecte o sabor, ao passo que outros dizem que não diferem das uvas normais. Uns dizem que as preferem às uvas ditas normais, outros consideram um cacho “absolutamente repugnante”.
Uma coisa é certa: viralizaram nas redes sociais e são um sucesso. “Tornou-se rapidamente numa tendência e num produto muito procurado”, confirma o líder de categoria fruta e legumes do Continente ao Observador. David Monteiro explica que devido à “procura significativa” que o produto tem causado nos primeiros dias nas prateleiras, rapidamente se expandiu para as várias lojas de norte a sul do país. “É um conceito diferenciador pelo que tem suscitado a curiosidade dos consumidores em muitas regiões, nomeadamente nos grandes centros urbanos”, acrescenta.
Não é algo novo no mercado internacional. A produtora responsável é a International Fruit Genetics (IFG), uma empresa norte-americana que se especializou na criação de diferentes tipos de uva, desenhadas para agradar a todo o tipo de paladares. O sabor a algodão doce chegou pela primeira vez a um supermercado em 2011, na cidade de Bakersfield, na Califórnia — onde está sediada a empresa. Daí, a saída tem vindo a aumentar exponencialmente e, em 2025, já é comercializada em mais de uma dezena de países em todo o mundo.
Mas a forma como são feitas estas uvas difere muito das uvas convencionais? E com esta alteração de sabores, podem ser prejudiciais à saúde? Vários especialistas respondem ao Observador.
Manipulação genética, administração artificial de sabores ou cruzamentos naturais. Como são feitas estas uvas e de onde vem o sabor?
Apesar de ser o primeiro pensamento que passou pela cabeça dos diferentes nutricionistas consultados pelo Observador ao ouvir o conceito de uma “uva com sabor a algodão doce”, esta reinvenção da fruta não passa pela administração artificial de um aroma, nem de manipulação genética. Como explica o responsável pela categoria fruta e legumes do Continente, “são desenvolvidas através de uma técnica de hibridação clássica”, algo que considera ser “absolutamente fundamental esclarecer”.
“Estas uvas são fruto de um processo de melhoramento vegetal clássico, baseado em cruzamentos entre variedades existentes dentro da mesma espécie”, esclarece David Monteiro, afastando qualquer indicação que aponte para a existência de organismos geneticamente modificados, em vez da real “seleção natural feita por especialistas em viticultura”. Assim, garante que o sabor não é administrado, mas sim fruto de um processo agrícola “delicado e meticuloso”, em que cada cacho é colhido de forma individual com base no seu estado de maturação. As uvas com sabores variados são plantadas em Espanha, com os enxertos que são fornecidos pela IFG.
Como a grande maioria das uvas disponíveis no mercado, estas não têm grainha — uma outra modalidade do fruto que surgiu através de um processo semelhante de hibridação de espécies. De uma forma mais técnica, David Monteiro adianta que os diferentes sabores resultam da “aplicação de pólen de algumas variedades existentes de uvas às flores de outras”. Desta forma, os produtores conseguem alcançar “combinações aleatórias” que são, numa fase posterior, apresentadas a um “painel de provas”. É neste etapa que se decide quais são as “uvas mais especiais para serem cultivadas”.
O processo em si não é fora do comum, como explica ao Observador o nutricionista Rui Valdiviesso. “A forma de produzir estas uvas é uma fórmula que a humanidade já usa há milénios”, admite o especialista, fazendo um paralelismo com uma outra aplicação das uvas: o vinho. “Quando se utiliza uvas para vinificação, muitos depois têm sabores extremamente complexos. E claro, a origem desses sabores já estava na uva”, afirma, mencionando que são “frutos com uma quantidade enorme de moléculas diferentes”.
Com tamanha variedade de espécies, “a concentração, a reação com outras [espécies] e a própria maturação” cria as diferentes expressões moleculares que depois originam os sabores que remetem para outros alimentos fora deste meio. E este processo não foi repetido apenas para alcançar este sabor final, mas também para a textura da própria uva, ou até mesmo a cor e as suas dimensões. Porém, uma das mutações genéticas naturais que destaca é a ausência de grainha, que se vê atualmente nas prateleiras de todos os supermercados e que foi alvo do mesmo processo de “seleção artificial”.
Se o sabor destas uvas vem do cruzamento de diferentes espécies, resta a questão: De onde vem o sabor a algodão doce? Afinal, o autocolante na embalagem diz claramente: “Sabor a algodão doce”. Efetivamente, no procedimento habitual de produção destes alimentos, os nomes das variedades são atribuídos em função do sabor que fazem lembrar, não necessariamente daquilo que é utilizado artificialmente para intensificar a experiência gastronómica.
Neste caso em específico, não se trata de inserir de alguma forma algodão doce em cada uma das uvas, mas sim um desígnio por aproximação. Como explica o líder da categoria fruta e legumes do Continente, o “algodão doce” é um sabor fortuito que resultou de um processo natural. Desta forma, apesar de o produto ser apresentado como tendo “sabor a algodão doce”, “o sabor não é de algodão doce, mas antes um sabor que remete para o algodão doce”.
O mesmo verifica-se para os produtos que são vendidos como tendo sabor a manga ou morango, por exemplo. Apesar de cruzamentos entre diferentes frutas serem possíveis e até relativamente comuns na natureza, como refere a nutricionista Conceição Calhau.
Com um sabor que parece artificial, será que fazem bem à saúde?
À primeira vista, as uvas com sabor a algodão doce parecem uvas “normais”. Algumas pessoas nas redes sociais admitem que as compraram acidentalmente e só se aperceberam da diferença quando deram a primeira dentada. Aí, a diferença sente-se de imediato, com um travo doce nas papilas gustativas. Neste momento, até se pode sentir que estas uvas têm um teor de açúcar bastante mais elevado que a uva clássica. Porém, de acordo com informação disponível online, estas têm entre 16 e 17 gramas de açúcar por cada 100 gramas de uva.
Comparado com uma uva verde clássica — que tem entre 13 a 15 gramas — não é uma diferença assinalável. Num contexto geral de fruta, a uva por si já é das mais doces. Para referência, uma maçã tem entre 10 e 13 gramas de açúcar por cada 100, e uma melancia tem entre oito e nove gramas. Ainda assim, apesar de ser uma fruta com um teor elevado de glucose e frutose — e esta variante ser parcialmente mais doce — a sua ingestão continua a ter grandes benefícios.
A uva, naturalmente, “é uma grande fonte de fibra, vitamina C, potássio e compostos bioativos como o resveratrol” — este último com importantes propriedades antioxidantes e um “antifúngico natural”. Esta variedade, apesar de mais açucarada, mantém um “contributo para a saúde” equivalente ao das uvas comuns, afirma a nutricionista Paula Ravasco.
Seguindo esta linha de pensamento, a especialista considera que estas uvas “não são prejudiciais”, mas a sua relevância prática depende da forma como forem comunicadas e integradas nos hábitos alimentares. “Se forem usadas como estratégia complementar para incentivar o consumo de fruta, podem ser bem-vindas. Porém, não devem substituir a valorização da fruta na sua forma natural e acessível a todos”, refere.
Explica, também, que a perceção de um sabor mais doce — mesmo que a quantidade de açúcar não seja significativamente maior que as uvas clássicas — advém de uma diferente “composição aromática e do equilíbrio entre açúcares e ácidos orgânicos”. Traduzindo em termos mais práticos, Paula Ravasco diz que a diferença para o fruto tradicional “não é significativa” ao ponto de alterar o impacto que possa vir a ter na saúde dos consumidores.
Já Rui Valdiviesso, também professor no Instituto Universitário de Ciências da Saúde da CESPU, refere que estas uvas podem potencialmente ter algum benefício em alguns contextos. Tendo este sabor mais doce e acessível para os paladares mais sensíveis, o nutricionista admite que podem ser uma possível porta de entrada para a introdução de mais fruta na alimentação daqueles que não têm esse hábito no seu dia-a-dia. Acrescenta, também, que em alguns casos podem agir como substitutos de alimentos “ultraprocessados” que constam na dieta diária dos mais jovens.
“Vamos imaginar que uma substitui uma porção de uvas por uma barra de cereais que, nutricionalmente, pode não ser tão interessante. Se realmente este sabor mais original da uva puder aliciar pessoas para substituir snacks ultraprocessados, então podemos ter aqui algo que pode ser interessante em termos de recomendação alimentar”, afirma o nutricionista, fazendo a ressalva que “qualquer recomendação alimentar tem o seu contexto”.
Ainda assim, sublinha: “Não há quase diferença nenhuma” entre estas uvas com sabores variados e uma uva clássica em termos nutritivos, mas pode ser importante caso contribua para “aumentar a quantidade de consumo de frutas” de uma forma geral. Neste sentido, indica que um aumento do consumo de fruta em prol de opções menos orgânicas poderia “ajudar a reduzir alguma da incidência de doenças crónicas não transmissíveis”.
“Porque nós sabemos que um aumento do consumo de fruta e hortícolas está associado a uma diminuição da probabilidade de alguns tipos de cancro, como o colorretal, por exemplo. Portanto, poderia ter esse interesse. E será para isso também que a inovação pode ser útil”, conclui.