A interna entra numa sala onde já se encontra uma dúzia de colegas, sentados à secretária. Mas a médica não se dirige a eles. Ao centro da sala, à sua espera, está Horácio Costa. O diretor do serviço de Cirurgia Plástica do Hospital de Gaia veste um fato de templário — o manto branco, a cruz vermelha da Ordem dos Templários por cima e, a cobrir a cabeça, uma touca de cota de malha. Nas mãos, a réplica de uma espada, que usa para benzer a interna vinda da Turquia, já ajoelhada à sua frente. Noutros momentos, a cena repete-se com Horácio Costa vestido de Obélix. Descrito como “excêntrico” por alguns colegas, o homem que André Ventura agora chamou para a exigente pasta da Saúde do seu governo-sombra é também apontado como uma referência na área da Cirurgia Plástica.
Aos 71 anos, o médico, especialista na área da Cirurgia Plástica, continua a trabalhar no Hospital de Gaia, sendo também diretor clínico do Hospital da Venerável Ordem Terceira de São Francisco do Porto. Ao Observador, fonte próxima de Horácio Costa descreve o médico como “excêntrico” e desconhecedor do SNS como um todo, embora o considere “tecnicamente muito bem preparado” na área em que se especializou e onde sempre exerceu Medicina. Outros dois médicos, que trabalharam diretamente com Horácio Costa, destacam também a sua elevada competência técnica, admitindo que sempre adotou uma postura “fora da caixa”, defendendo “ideias fortes”.
Horácio Costa concluiu o internato na especialidade de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva em 1990, quando lhe foi atribuído o grau de especialista por parte da Ordem dos Médicos. Cinco anos depois, concluiu a especialidade em Cirurgia Maxilofacial, a área onde optou por se especializar e em que foi recolhendo prestígio junto dos pares, mesmo a nível europeu.
Por essa altura, em 1995, tornou-se médico no serviço de Cirurgia Geral do Hospital de Gaia. O mesmo hospital em que, em 1999, por sua iniciativa, foi fundado o serviço de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Maxilofacial, tornando-se o hospital uma referência nesta área na região norte do país. “Tecnicamente, é muito bom, e no início dos anos 2000 a maioria dos hospitais do Norte não tinha esta especialidade”, diz fonte próxima de Horácio Costa, realçando que o cirurgião foi um dos “maiores dinamizadores da aproximação do hospital à Academia”. Ao longo dos anos em que foi diretor de serviço, o médico sempre defendeu a inclusão do ensino universitário na esfera do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho (atualmente Unidade Local de Saúde de Gaia e Espinho), o que acabou por aconteceu há cerca de dois anos.
▲ Horácio Costa, de 71 anos, é cirurgião plástico, especialista nas área da microcirurgia e reconstrução
“Tecnicamente excelente”, Horácio Costa fundou e impulsionou a Cirurgia Plástica em Gaia
Muito interventivo e com um perfil “dinâmico”, impulsou a aproximação do serviço que liderava às sociedades científicas e aos especialistas internacionais. Foi diretor do European Journal of Plastic Reconstructive Surgery, membro do European Board of Plastic Reconstructive and Aesthetic Surgery (que reúne os mais conceituados especialistas nas áreas da Cirurgia Plástica e Estética a nível europeu) e da International Society Plastic Reconstructive and Aesthetic Surgery e um dos responsáveis pela organização de múltiplos eventos nestas áreas em Portugal e no estrangeiro.
Uma médica do Hospital de Gaia, que pediu para não ser identificada, corrobora as boas competências técnicas de Horácio Costa. “Como médico, é excelente. Está ligado à área da microcirurgia, dos implantes, é uma sumidade nessas áreas“, destaca a especialista. Horácio Costa foi também professor no Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar durante mais de uma década, entre 2006 e 2019.
Fonte próxima de Horácio Costa acrescenta que “o serviço [de Cirurgia Plástica de Gaia, que Horácio Costa liderou durante 25 anos] estava sempre bem cotado na entidade europeia de acreditação de cirurgia plástica”, sendo que muitos eventos eram “realizados com o apoio de Gaia”, diz a mesma fonte. Desta forma — e sendo reconhecido em Portugal, e além fronteiras, como um serviço de excelência —, o Hospital de Gaia nunca teve dificuldades em atrair internos para fazer formação na área da Cirurgia Plástica e Maxilofacial, com as vagas colocados à disposição dos jovens médicos a serem sempre preenchidas na totalidade.
E foi precisamente numa receção a médicos internos no Hospital de Gaia que Horácio Costa se tornou conhecido do grande público, em dezembro de 2023. Num vídeo, que circulou nas redes sociais, pode ver-se o médico vestido de templário, com a cara quase completamente tapada e envergando uma espada.
As receções dos internos nas vestes de templário e de Obélix
O vídeo em que Horário Costa surge vestido de templário foi gravado em 2023. Mas, segundo fonte próxima de Horácio Costa, consultada pelo Observador, o médico levava a cabo estas “praxes” desde 2016, em alguns momentos optando por um fato de uma personagem do maior amigo de Asterix. “Desde 2016 que o fazia, vestido de templário ou de Obélix. Era uma tentativa de ser engraçado, fazendo praxe a toda a gente, para deixar as pessoas bem dispostas”, recorda a mesma fonte. No vídeo da alegada praxe de 2023, o médico dirige-se à médica interna em inglês, imita gestos associados a cavaleiros da Época Medieval e, no final, abraça-a.
A médica especialista do hospital de Gaia que falou com o Observador admite que Horário Costa “sempre foi fora da caixa”, mas garante que o médico “é um excelente ser humano”. “Todos temos uma maneira diferente de abordar certas matérias. Ele recebia os internos de forma diferente, isso não faz dele pior nem melhor que ninguém”, defende, garantindo que os internos “gostavam dele”.
Apesar de estes rituais serem acompanhados por muitos médicos especialistas do serviço e até por outros internos, Horácio Costa nunca pediu autorização nem informou o Conselho de Administração do então Centro Hospitalar de Gaia/Espinho. Aliás, o médico falava à imprensa sem informar o hospital e “nunca quis saber do regulamento interno”, diz a mesma fonte, ignorando a coordenação que os diretores de serviço têm de estabelecer com a cúpula das unidades hospitalares. Essa liberdade com que geria o serviço nem sempre foi bem recebida pelos responsáveis da instituição.
Ex-PSD, IL e CDS, independentes e um ex-ministro. Os nomes do governo-sombra do Chega
“Começou a agir quase como órgão independente do hospital, quando ninguém lhe atribuiu essa função”, diz fonte próxima de Horácio Costa, o que potenciou um clima de crispação entre o médico e o conselho de administração presidido por Rui Guimarães, que liderou o Centro Hospitalar de Gaia/Espinho entre 2019 e 2025. Quando o vídeo da inusitada receção aos internos de 2023 começou a circular nas redes sociais, o hospital assumiu, publicamente, em resposta à rádio Renascença, que nunca dera autorização a tal iniciativa.
Outro fator de discórdia entre o médico e a direção do hospital foi a vontade de expansão do serviço que dirigia, que Horácio Costa pedia com insistência junto do Conselho de Administração. “Demos-lhe um serviço muito digno, mas queria instalações próprias e megalómanas, com 40 camas. Não fazia sentido, ainda para mais com a cirurgia de ambulatório em expansão”, diz ao Observador fonte do anterior conselho de administração do Hospital de Gaia.
Descrito como excêntrico e “com muito dinheiro”, Horácio Costa gostava de exibir a sua coleção de carros de luxo no estacionamento do hospital — nuns dias, aparecia com um dos dois Ferrari que tinha comprado, noutros dias vinha ao volante do seu Maserati. “Estacionava os carros nos piores sítios possíveis para dar nas vistas, é muito vaidoso” [tinham de o chamar para ir mudar de sítio], conta a mesma fonte. Numa das especialidades médicas mais rentáveis para um médico (a da Cirurgia Plástica), o especialista acumulava a direção do serviço em Gaia com a atividade no Hospital da Venerável Ordem Terceira de São Francisco do Porto, o que ainda hoje acontece, apesar de, em maio de 2024, ter deixado a direção de serviço do hospital público por limite de idade — quando fez 70 anos. No entanto, ao abrigo do regime especial para médicos acima dessa idade, continua a trabalhar no SNS. Curiosamente, para o seu lugar, à frente do serviço de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Maxilofacial, foi nomeado, através de concurso interno, o próprio filho, que tem o mesmo nome, Horácio Costa.
▲ Horácio Costa fundou e liderou o serviço de Cirurgia Plástica do Hospital de Gaia durante 26 anos. É apontado como "vaidoso" e sempre disponível para os doentes
Fábio Poço
Até ao ano passado, quando passou a ter um horário reduzido no hospital de Gaia, o compromisso com o serviço e com os doentes era total, dizem os médicos e pessoas próximas de Horácio Costa. “Tinha grande sentido de missão, chegava a fazer três [turnos urgências por semana] mesmo sendo o diretor, estava sempre disponível, aceitava fazer cirurgias a qualquer hora, sendo que algumas, de reconstrução, podiam demorar 12, 14 horas”, diz fonte do hospital de Gaia, que classifica o médico como “destemido”.
Aproximação ao Chega “é natural”. Médico partilha desinformação e ataca a comunicação social
Conotado até à pandemia como mais próximo do PS, diz a fonte consultada pelo Observador, Horácio Costa começou a assumir publicamente posições mais próximas do Chega há cerca de três a quatro anos. “Começaram a surgir publicações no Facebook dele com uma aproximação ao Chega, de teor nacionalista”.
Na sua página pessoal de Facebook, Horácio Costa — que é também o número dois do Chega à Câmara Municipal de Gaia nas próximas eleições autárquicas — partilha frequentemente vídeos com intervenções do presidente do partido, André Ventura. São também frequentes os ataques à comunicação social, que o médico classifica como “jornalixo”, e a partilha de publicações falsas ou enganadoras, algumas delas já verificadas pelo Observador, como a que alegadamente mostrava uma agressão recente a um agente da PSP na zona de Sintra.
Um médico que trabalhou com Horácio Costa na Ordem dos Médicos (e que também pediu para não ser identificado) realça que o cirurgião plástico “sempre foi um homem de ideias fortes”, com propostas “por vezes fora do contexto” e assumindo sempre uma posição de protesto e de desacordo com os responsáveis das organizações das quais fazia parte. Daí que o médico contactado pelo Observador não tenha sido surpreendido com a aproximação ao partido de André Ventura. “Como o Chega tem sido um partido de protesto, é natural. Ele protesta muito, é o espaço natural para ele”, refere. Fonte próxima de Horácio Costa diz mesmo que o médico “defende o Chega com unhas e dentes”.
Outra fonte contactada pelo Observador adianta que Horácio Costa foi mandatário do Chega nas legislativas de 2024 no concelho de Gaia e que, apesar de não ser o principal rosto do partido nas listas para a câmara nas autárquicas deste ano — esse lugar coube ao atual líder da concelhia, António Barbosa —, é reconhecido entre os habitantes da cidade e “tem carisma junto da população”. “Há muito tempo que faz artigos de opinião no [jornal] Gaiense sobre o estado do país e da política, vive em Arcozelo [uma das freguesias do sul do concelho, o 3.º mais populoso do país com mais de 300 mil habitantes]”, adianta a mesma fonte, que trabalhou com Horácio Costa durante anos no Hospital de Gaia.
António Barbosa é o candidato do Chega à Câmara de Vila Nova de Gaia
Sobre a possibilidade (“não descabida tendo em conta as sondagens”) de Horácio Costa poder, a breve trecho, tomar posse como ministro da Saúde, a mesma fonte diz que “seria um disparate”. “Deve estar plenamente convencido de que seria um bom ministro. Mas é uma pessoa que não tem noção da gestão e sustentabilidade“, garante. Outra fonte, próxima de Horácio Costa, diz que “seria um erro”, uma vez que o médico desconhece o “SNS como um todo”. O presidente da concelhia do Chega de Vila Nova de Gaia tem uma opinião contrária e destaca os conhecimentos de Horácio Costa, que o tornam apto para o cargo.
“Pelos conhecimentos que tem, pela dedicação, o partido viu que poderia vir a ser uma mais-valia nesse cargo”, diz ao Observador, António Barbosa, esclarecendo, no entanto, que a escolha do cirurgião para ministro-sombra da Saúde foi da inteira responsabilidade da Direção Nacional do Partido.
“Cada português tem direito de escolher o partido que quer. A política é política, a Medicina é a Medicina”, diz a médica de Gaia próxima de Horácio Costa, pedindo que não se confundam os dois planos.
O Observador tentou, por diversas vezes, contactar Horácio Costa no âmbito deste artigo, mas até ao momento não obteve qualquer resposta.