Não foi o primeiro lugar que desejou, mas foi mais do que suficiente para cantar vitória. Pela segunda vez na história Portugal tem uma segunda volta em presidenciais e André Ventura, líder de um partido com seis anos, carimbou o seu lugar. Além disso, essa batalha coloca-o frente a António José Seguro, permitindo-lhe recuperar a bandeira da luta contra o socialismo.
Ainda os votos estavam por contar e já André Ventura ensaiava os planos para as próximas três semanas de campanha: agregar a direita. Perante uma grande dispersão de votos à direita e a derrota do candidato apoiado pela AD, o presidente do Chega apresenta-se como o único com a possibilidade de “liderar a direita” na segunda volta e vai usar isso para capitalizar para si e para o Chega.
Consciente, até pelos números das sondagens, de que corre numa pista em que a taxa de rejeição será um fator impossível de ignorar, Ventura conseguiu esta noite um conjunto de vitórias: é o único na segunda volta que pode chamar a si o espaço da direita; fará um discurso focado na agregação dessa direita contra o socialismo e ganhará capital político para quando voltar a vestir o fato de líder da oposição, com uma votação provavelmente reforçada relativamente ao que teve nas legislativas. No meio de tudo isso, já depois de o líder do PSD ter dito que não apoiará ninguém na segunda volta, Ventura aproveitou para dizer que será preciso saber “de que fibra são feitos” os líderes de partidos de direita.
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
O socialismo como divisão e agregação
Em primeiro lugar, o socialismo. Há muito que Ventura faz da luta contra o socialismo uma bandeira do Chega. E, agora que está sozinho na segunda volta com um ex-líder do PS, tem nas mãos a possibilidade de usar esse trunfo em mais uma ronda do já habitual “nós contra eles”. Focou-se nisso mesmo. Disse que vai “liderar o espaço não socialista” em Portugal, pediu que o deixassem “apelar ao povo que não quer o socialismo”, “ao povo que não quer o PS” e fê-lo de tal forma que, além de Seguro, referiu-se a outros protagonistas do PS.
“Esse país que não quer José Sócrates, que não quer António Costa, esse país que rejeita Ferro Rodrigues, esse país que não quer a degradação do socialismo, esse país só tem uma escolha agora e essa escolha”, justificou, apelando a todo o povo que “não quer o socialismo”. À saída, chegou mesmo a dizer que vai apelar a todos e corrigiu para dizer que conta com quem “não quer o socialismo”.
Sem deixar dúvidas relativamente ao objetivo traçado, André Ventura mostrou que o pretende fazer agregando as direitas. E apesar de assegurar que “isto não é sobre Luís Montenegro”, o candidato presidencial apoiado pelo Chega acredita que é possível que “a direita fragmentada” se vá “agregar e unir”. Para que tal aconteça, referiu que “a direita ganhou estas eleições e só perderá as eleições com o egoísmo do PSD, da IL ou de outros que se dizem de direita, mas que agora têm de escolher entre um socialista e quem quer realmente fazer reformas no país”.
“Agora é que vamos ver a fibra de que são feitos”, vincou, fazendo da segunda volta “uma luta do espaço não socialista contra o espaço socialista em Portugal” e assegurando que esta “não vai ser só uma luta do Chega contra o PS”. E ainda jurou que um adversário socialista vem mesmo a calhar: “A luta que começa daqui a meia hora mobiliza-me mais do que qualquer outra luta que pudéssemos travar com qualquer outro adversário.”
Com os olhos postos no futuro, André Ventura foi buscar inspiração ao passado, à espera de uma repetição das presidenciais de 1986, mas ao contrário. “Em 1986, era o espaço da esquerda que estava fragmentado e não o espaço da direita. O que é que aconteceu, para mal dos nossos pecados, um dos candidatos da esquerda venceu a batalha da esquerda, mas perdeu a primeira volta, e viria a ganhar a segunda volta das eleições. É isso que vai acontecer connosco no dia 8 de fevereiro deste ano”, desejou.
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
O afastar do papão e o modo campanha ativado
Com taxas de rejeição altas e a tal necessidade de agregar, André Ventura aproveitou o discurso da noite eleitoral para tentar afastar papões, ainda que tenha deixado escapar o discurso moderado da primeira volta. “Há uma escolha segura, não Seguro, em relação à segunda volta”, prometeu Ventura, pedindo aos portugueses que “não tenham medo da mudança”.
Para isso, o presidente do Chega recordou as últimas eleições legislativas — que lhe permitiram ser declarado líder da oposição — para dizer que houve um “enorme abalo político” e sugerindo que não houve regressão: “Melhorámos desde então. Não fizemos tudo. Mas na imigração, nos impostos, na nacionalidade, demos passos. O que eu vos quero pedir agora a todos é que confiem em mim.”
Para Ventura, trata-se de um “país profundo que não quer voltar atrás” e tentou chegar um pouco a todo o lado ao referir “os jovens que saíram do país e querem regressar”, os “empresários sufocados pela corrupção, pelos impostos, pela degradação” e aos que “querem um país cristão — porque António José Seguro não quer”. Mas também sublinhou que Seguro vai fazer o país “voltar para trás imigração”, “vai permitir que as portas continuem totalmente abertas” e que “quem “vêm para cá não tenha que cumprir regras”.
Já com o modo de campanha ativado, André Ventura quis esclarecer que, consigo a Presidente da República, “os imigrantes que vêm para Portugal e as minorias que cá estão vão ter que cumprir a lei”. “Este candidato socialista, que disputará connosco as eleições, defende tudo ao contrário do que defendemos. Quer mais impostos para distribuir mais subsídios, quer continuar a sufocar as empresas com mais burocracia, quer mais imigração descontrolada, quer menos segurança e mais descontrolo na nossa justiça, não fosse o PS talvez o maior responsável moral do país pelo estado da corrupção e pelo estado de degradação em que o país está.”
Pelo caminho, deixou várias palavras aos emigrantes — que na campanha disse que podiam dar-lhe a vitória numa segunda volta — para voltar a defender que houve uma “tentativa do sistema não lhes permitir votar”. Realçando os emigrantes foram “traídos” pelo país, Ventura referiu que sejam precisos “mais do que nunca”. “Talvez precisemos mesmo que saiam todos [para ir votar], mas mesmo todos, para conseguirmos convencer o país de que não podemos voltar atrás. António José Seguro representará o regresso da tralha de José Sócrates a Portugal.”
Perante uma sala cheia de apoiantes que cantaram “Portugal é nosso e há-de ser, Portugal é nosso até morrer” após críticas aos apoios a imigrantes, André Ventura disse que o 25 de Abril trouxe “avanços, retrocessos e erros” porque “deixou muita gente para trás”, numa nova referência aos “abandonados do Ultramar” e aos “ex-combatentes abandonados à sua sorte”. “Como é que alguém que chega a Portugal tem subsídios de mil euros e [ele] recebe 80 depois de ter dado a minha vida pelas Forças Armadas portuguesas”, questiona, concluindo que se trata de uma “vergonha” e prometendo que consigo serão “primeiro os portugueses”.
Ainda perante as conclusões da “imprensa estrangeira” que diz que “o fascismo e a extrema-direita está a vencer em Portugal”, André Ventura garantiu que se chegar a Belém “Portugal continuará a ser o país amistoso e amoroso que sempre foi”, mas nunca deixará que seja “humilhado por qualquer chefe de Estado estrangeiro ou por qualquer país estrangeiro” — numa referência às críticas que fez a Marcelo Rebelo de Sousa.
Depois de conhecer os resultados, André Ventura falou “democraticamente” com Luís Marques Mendes, João Cotrim Figueiredo e António José Seguro, mas assegurou que irá “lutar por cada milímetro desta eleição” numa batalha pela “alma do país”. A antecipar uma segunda volta difícil — como aliás foi dizendo ao longo da campanha — Ventura disse que não pode “prometer vitória”, mas jura trabalho e a dedicação e entrega possível.