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“Sinto que os meus olhos, e também os olhos do mundo, estão cada vez mais virados para outras geografias e para África. Sempre ambicionei estar mais ligada ao circuito musical africano”, disse Selma Uamusse, antes de atuar no Visa for Music
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▲“Sinto que os meus olhos, e também os olhos do mundo, estão cada vez mais virados para outras geografias e para África. Sempre ambicionei estar mais ligada ao circuito musical africano”, disse Selma Uamusse, antes de atuar no Visa for Music

▲“Sinto que os meus olhos, e também os olhos do mundo, estão cada vez mais virados para outras geografias e para África. Sempre ambicionei estar mais ligada ao circuito musical africano”, disse Selma Uamusse, antes de atuar no Visa for Music

Visa for Music: um encontro de paixões musicais e de um "enorme motor económico" — e Portugal quer entrar no ritmo

Entre concertos, contactos e negócios, é um dos maiores encontros da indústria da música em África. Este ano, vimos promotores lusófonos a encurtar distâncias e uma cena marroquina em total ebulição.

“Com ou sem açúcar?” Está um dia de sol em Rabat, a capital de Marrocos, e um ancião vestido com trajes tradicionais do deserto magrebino está sentado sob uma enorme tenda de acampamento, a servir o típico chá de menta às centenas de estrangeiros que por ali passam. A ocasião é a abertura da 12.ª edição do Visa for Music, um festival de showcases, mercado e convenção da indústria da música que decorreu entre 19 e 22 de novembro e se tem afirmado como um dos mais importantes do género em todo o continente africano — até pela proximidade geográfica com a Europa e a identificação cultural com o Médio Oriente, unindo uma série de eixos.

Artistas africanos e do mundo árabe apresentam-se a centenas de programadores de festivais, agentes e jornalistas de todo o globo. “Este ano tem sido muito intenso, com pessoas a vir de todo o planeta. Temos mais de mil delegados, 144 festivais representados, cerca de 400 artistas”, descreve ao Observador o fundador e diretor artístico do Visa for Music, Brahim El Mazned, que também é o responsável pelo Festival Timitar de Música do Mundo, em Agadir, há mais de 20 anos.

Pela localização estratégica, por conseguir estabelecer pontes entre diferentes partes do mundo e graças à vasta diáspora na Europa e na América do Norte, Marrocos tem conseguido criar valor e desenvolver a sua indústria musical, um processo que se tem intensificado ao longo dos últimos anos.

Na cerimónia de abertura do Visa for Music, um dos principais parceiros do festival, a Fundação Hiba, divulgou que as indústrias criativas e culturais marroquinas em 2024 já representavam 2,7% do PIB. “A cultura já não é só uma paixão, é um enorme motor económico”, afirmou o presidente da fundação, Younes Boumehdi.

Segundo os mais recentes dados, existem cerca de 150 mil trabalhadores nas indústrias culturais de Marrocos, com 34% dos empregos a serem ocupados por mulheres. “Cada artista que vive da sua música, cada técnico que trabalha numa produção, cada empreendedor cultural que constrói a sua estrutura, cada um é uma vitória contra o êxodo do talento, pela escolha de ficar e construir aqui”, acrescentou Boumehdi, aludindo às elevadas taxas de emigração que têm marcado a história deste país do norte de África.

▲ O Visa for Music também tem contribuído para formar profissionais da cultura no país, promovendo todos os anos workshops e masterclasses com especialistas de outros territórios

“Isto é apenas o princípio. Queremos duplicar o peso das indústrias culturais e criativas até 2030. Esta ambição não é um sonho, é alcançável. E por essa África fora encontramos o mesmo potencial explosivo. O continente tem uma tremenda oportunidade diante de nós: dar vida à Zona de Comércio Livre Continental Africana. Claro que ainda se mantêm grandes desafios. O acesso a financiamento ainda é muito limitado. As disparidades no rendimento entre continentes persiste. A proteção relativa a direitos de autor necessita de progredir. Mas podem contar com Marrocos. A nossa posição única, na interseção entre África, Europa e o mundo árabe, com o Atlântico, torna-nos num acelerador natural de oportunidades. Aqui, os encontros tornam-se em contratos e as partilhas desenvolvem-se numa cooperação a longo prazo.”

Com quase 40 milhões de habitantes e uma população substancialmente jovem, o Visa for Music também tem contribuído para formar profissionais da cultura no país, promovendo todos os anos workshops e masterclasses com especialistas de outros territórios. “Penso que os nossos profissionais beneficiam bastante disso e temos visto como as coisas mudaram nos últimos 12 anos em Marrocos”, defende Brahim El Mazned. “A música tem crescido muito, há muitos artistas de diferentes géneros com enormes públicos, não só em Marrocos mas pelo mundo. E muitos desenvolveram os seus projetos, os seus estúdios, os seus espaços de trabalho.”

Um país tão próximo que nos parece distante (e a ausência institucional de Portugal no Visa for Music)

Os concertos, encontros, formações e eventos paralelos do Visa for Music ocupam Rabat por estes dias. Do mercado tradicional na velha medina aos edifícios modernos e desenvolvidos onde é notória a herança do colonialismo francês, a cidade que serve de residência oficial ao Rei de Marrocos e que alberga o Parlamento está repleta de visitantes com o crachá do festival pendurado ao pescoço.

O Le Pietri Urban é um hotel que costuma receber concertos e jam sessions no seu amplo restaurante e bar. Em noites de Visa for Music, torna-se num dos muitos sítios da cidade onde se promovem encontros entre profissionais da indústria — as relações tanto se constroem nas reuniões formais durante o dia como nos momentos noturnos, descontraídos e espontâneos, ligados à música.

Em cima do palco, num ambiente vibrante, músicos de diferentes nacionalidades, de Marrocos à África negra, passando pela Europa, vão-se sintonizando pela linguagem universal das notas musicais. Sem nada o fazer prever, a música tradicional gnawa ganha um espírito jazzístico e funde-se com as harmonias subsaarianas. Um dos instrumentistas que contribuem para este organismo vivo, a pulsar do palco, é o saxofonista português Carlos Martins.

Fundador da associação Sons da Lusofonia — entidade com 30 anos de história que promove o Lisboa Mistura e a Festa do Jazz, cujas próximas edições acontecem no mês de dezembro — é um dos profissionais portugueses que decidiram estar presentes no Visa for Music deste ano.

"Ainda não posso dizer, mas já há várias coisas a andar. A nós é algo que nos faz falta, temos de olhar para Marrocos como um país vizinho e com uma certa irmandade, de lá podem vir soluções e ideias inovadoras. O potencial é grande. Poderia haver mais intercâmbios entre músicos e festivais, residências artísticas que sirvam para aprofundar um trabalho sustentável ao longo do tempo entre os dois países, uma cooperação entre as rádios e televisões, ao nível institucional e empresarial."
Carlos Martins, fundador da Sons da Lusofonia

Foi a estreia em Rabat de um Carlos Martins decidido a aprofundar as relações culturais entre Portugal e Marrocos, assumindo um papel de mediador. “Temos uma proximidade geográfica muito grande, mas depois isso não se manifesta a nível cultural. Então o meu trabalho tem sido pensar numa estratégia de internacionalização da música portuguesa e de estabelecer contactos com entidades locais para outras colaborações que não sejam só dentro do festival”, conta ao Observador.

Durante estes dias, Carlos Martins reuniu-se com o embaixador de Portugal em Rabat, conversou largamente com Brahim El Mazned, encontrou-se com diferentes entidades estabelecidas em Marrocos sobre possíveis colaborações. Tal como a música, o desporto pode tornar-se um fator agregador e de cooperação económica, e o Mundial de futebol de 2030 — que se irá dividir entre Portugal, Espanha e Marrocos — tem sido encarado com um potencial que poderá ir muito além das quatro linhas.

“Neste Visa for Music já foi um fator de aproximação, toda a gente está a pensar no mesmo e há uma grande vontade das entidades marroquinas em trabalhar com Portugal. Ainda não posso dizer, mas já há várias coisas a andar. A nós é algo que nos faz falta, temos de olhar para Marrocos como um país vizinho e com uma certa irmandade, de lá podem vir soluções e ideias inovadoras. O potencial é grande. Poderia haver mais intercâmbios entre músicos e festivais, residências artísticas que sirvam para aprofundar um trabalho sustentável ao longo do tempo entre os dois países, uma cooperação entre as rádios e televisões, ao nível institucional e empresarial… Há um caminho para desbravar em todas as áreas. E isso não nos devia fazer recear nada, mas antes entusiasmar-nos. Portugal precisa de diversificar as fontes de financiamento e a sua relação com os países vizinhos.”

Carlos Seixas é o diretor do Festival Músicas do Mundo (FMM), em Sines, há 25 anos. Referência internacional, Sines tem sido um exemplo de longevidade e consistência num mercado volátil e precário. Ao longo do ano, Carlos Seixas viaja para diferentes países, para estes festivais e convenções ligados às músicas tradicionais, para descobrir novos artistas que possam fazer parte de um futuro cartaz do FMM. Nos últimos anos, não tem perdido uma edição do Visa for Music, notando uma “grande evolução” na dimensão e relevância do festival em Rabat.

“É um grande encontro africano e do mundo árabe. Tem muitos países, de todo o continente. Há uma preocupação em unir e destacar países que não têm tanta exposição. Já conheci um delegado do Botswana… Não é muito normal encontrares certos profissionais na Europa”, partilha com o Observador. “E cada vez mais há aqui um interesse dos europeus.”

▲ O tunisino Omar Hayat atuou na cerimónia de abertura do festival

Também o diretor do FMM lamenta que a relação entre Portugal e Marrocos não seja “mais próxima”. “Isto está completamente virado. Continuamos naquela onda de darmos as costas ao vizinho, de cada um cuidar do seu quintal. Lisboa e Rabat estão mais perto do que Lisboa e Barcelona. Não faz sentido nenhum. E temos um histórico ancestral com este povo, há uma relação evidente.”

São vários os países com uma forte presença institucional no Visa for Music de 2025. Espanha trouxe uma comitiva de artistas e organizou um evento paralelo no Instituto Cervantes de Rabat. O Institut Français de Rabat, as embaixadas do Canadá e da Bélgica também fizeram esse trabalho de proximidade e cooperação institucional, trabalhando para estreitar os laços com Marrocos. Os profissionais portugueses que estão em Rabat, para onde não há voos diretos a partir de Portugal, vieram a custas próprias, mesmo que com apoio logístico do Visa for Music, e não há qualquer sinal de uma presença institucional portuguesa na convenção.

“Portugal tem a fama, e se calhar o proveito, de estar atrasado”, diz Carlos Seixas. “Não há um alinhamento das estruturas parlamentares portuguesas em relação às instituições que se ocupam das questões culturais e da música. Não há um grande investimento na internacionalização.”

Por sua vez, Carlos Martins acredita que falta uma “visão transversal” que junte as entidades públicas que poderiam fazer esse trabalho, como o Instituto Camões (que tem um centro de língua portuguesa em Rabat) ou a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP). “Poderiam ter um papel determinante nas políticas estratégicas de internacionalização e expansão da cultura portuguesa, e poderiam fazer uma mediação forte com os privados e a sociedade civil, para que se possam criar sinergias e formas de aproximação.”

Outro dos profissionais do setor que fez questão de se deslocar a Rabat foi Luís Viegas, responsável pela agência Ao Sul do Mundo. Num mercado com cada vez mais festivais deste género, o que impossibilita — até por questões financeiras e de disponibilidade — estar presente em todos, o agente acredita que o Visa for Music é “um dos mais importantes” neste momento. Ainda assim, o investimento que fazem para estar presentes é sempre incerto. “Nunca sabemos se vai dar frutos ou não, mas este é um trabalho de médio e longo prazo, a consistência é a chave para a sustentabilidade e tem de ser um investimento continuado.”

Para Luís Viegas, a ausência institucional de Portugal num evento como este explica-se pela “falta de meios” e da visão da cultura enquanto “fator de desenvolvimento económico e de integração social”. “Talvez até já haja quem tenha percebido que existe esse potencial, mas depois existem limitações políticas, instrumentais… Às vezes, sente-se que há um esforço, mas fica muito aquém das reais necessidades para podermos competir e estarmos em pé de igualdade com Espanha, França ou o Canadá. A [associação] Why Portugal costuma estar presente em vários mercados, mas acredito que não consiga estar em todos, somos um países que não tem muitos recursos financeiros, para não lhe chamar pobre.”

“Se já estava claro antes, agora no Visa for Music ficou claríssimo. Portugal, com estas ligações que tem ao sul, com estes trajetos ancestrais e milenares, devia ajudar mais a Europa a fazer a ligação com esta parte de África. Seria importante assumirmos esse papel. E para isso temos que estar no terreno a concretizar coisas."

Carlos Martins acredita que a história que nos une ao norte de África pode ser um potencial desperdiçado pela visão ideológica construída em Portugal. “Existe uma ligação quase espiritual e que não foi esquecida: a do Al-Andalus. No Alentejo, por exemplo, isso é muito visível. A música alentejana ainda vive dessa expressão, dos códigos dessa linguagem falada e musical. Obviamente que a língua e a religião nos afastam, parece ser um Mediterrâneo muito maior do que aquilo que é, mas se ultrapassarmos esta visão única dos Descobrimentos — que não foram Descobrimentos nenhuns — talvez possamos ter, em termos de retorno, muito mais futuro.”

Nos próximos anos, uma das suas principais missões e ambições será estreitar pontes entre o sul da Europa e o norte de África. “Se já estava claro antes, agora no Visa for Music ficou claríssimo. Portugal, com estas ligações que tem ao sul, com estes trajetos ancestrais e milenares, devia ajudar mais a Europa a fazer a ligação com esta parte de África. Seria importante assumirmos esse papel. E para isso temos que estar no terreno a concretizar coisas, tem que ser algo fundado na ação, no trabalho e muitas vezes em situações que são difíceis, para conjuntamente as ultrapassarmos, e só depois desse confronto com a realidade é que podemos celebrar verdadeiramente alguma coisa no futuro e inspirar outros a fazê-lo.”

Desafios, oportunidades e a vontade de criar um maior circuito: a África Lusófona no Visa for Music

Por ocasião dos 50 anos das independências, processo desencadeado pela guerra colonial e pela revolução do 25 de Abril, a África lusófona também esteve em destaque no Visa for Music deste ano. Uma das conferências desta edição juntou à mesma mesa agentes culturais de vários Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) para discutirem a realidade da música na lusofonia.

Cabo Verde tem sido apontado como um exemplo nestas matérias. O Ministro da Cultura e das Indústrias Criativas do arquipélago, Augusto de Albuquerque Veiga, foi um dos convidados do festival marroquino. O ministro cabo-verdiano sublinhou a “a linguagem comum de revolução e reconciliação” nas músicas dos PALOP, descrevendo-as como uma “geografia sonora de emancipação” face à colonização do Estado Novo. Destacou o papel “decisivo” da diáspora cabo-verdiana que se encontra espalhada pelo mundo e a importância que a “democratização” digital trouxe aos artistas e agentes culturais em África. “A nossa música não é só um reflexo do passado, mas a afirmação do presente e uma promessa de futuro.”

Há dois anos, com o apoio do ministério, foram implementados cursos de gestão musical e de eventos em Cabo Verde, de modo a profissionalizar os agentes do setor. Augusto de Albuquerque Veiga salientou a importância de trabalhar com o setor privado e de continuar a política de subvenções a artistas e associações culturais que têm desempenhado um trabalho de exportação musical. Têm feito também um esforço para estreitar as relações entre Cabo Verde e Marrocos, dois países atlânticos que assinaram recentemente um memorando para promover a “circulação de artistas”, sendo que Marrocos já tem sido, ao longo dos anos, um destino preferencial para os estudantes cabo-verdianos seguirem os seus estudos universitários.

▲ Sami Galbi, um dos artistas presentes na edição deste ano do Visa for Music

“Cabo Verde é um país pequeno e a nossa música é a nossa força. Então, temos que aproveitar estas oportunidades, e estes mercados são muito importantes para nós”, acrescenta, à margem da conferência, em declarações ao Observador, Benito Lopes, o diretor geral do Atlantic Music Expo, o grande festival de showcases e convenção da indústria da música em Cabo Verde, fundado em 2013, precisamente pelo atual Ministro da Cultura e das Indústrias Criativas.

O Atlantic Music Expo, cuja próxima edição se realiza entre 6 e 9 de abril de 2026 na cidade da Praia, é um dos vários festivais do género que está presente com um stand na feira do Visa for Music, que ocupa dois pisos do Teatro Nacional Mohammed V, em Rabat. “É fundamental para dar a conhecer a nossa cultura, as nossas tradições e também ganhar experiência em como funcionam estes grandes mercados. Para nós tem sido uma mais-valia, perceber como nos devemos adaptar às novas tecnologias e pensar noutras formas de exportar a nossa música”, acrescenta Benito Lopes. “E Marrocos é uma porta aberta para Cabo Verde, com quem temos uma ligação de longa data através dos ministérios da educação. Em toda a África devíamos criar mais sinergias e desvincularmo-nos um pouco dos mercados europeus. Não deixam de ser os nossos parceiros, mas devíamos ter um maior mercado interno no continente africano.”

Separados por um longo território, os diferentes representantes dos PALOP no Visa for Music descreveram as dificuldades que sentem na formação de um circuito lusófono. “Angola está longe e não temos uma indústria. Temos pequenos festivais e profissionais que metem mãos à obra para fazer as coisas acontecerem, mas não temos festivais internacionais desta natureza e estamos muito dependentes de Portugal e do Brasil. Os maiores artistas fazem os seus direitos de autor em Portugal”, argumenta o diretor da produtora e agência N’Guimbi Produções, José Esteves Cacunga. “Nós temos leis em Angola que poderiam ser importantes, mas não são implementadas. O nosso governo deveria implementar políticas para formar mais profissionais da cultura. E temos de criar mais pontes entre os países africanos de língua portuguesa.”

Fernando Cabral, manager dos Tabanka Djaz, a maior banda da Guiné-Bissau, referiu a urgência de desenvolver um maior circuito dentro de África. “Com 30 anos de carreira, esta é a primeira vez dos Tabanka Djaz num showcase festival. Atuamos na Europa, na América, na Ásia… Mas por que não fazemos tours em África?”

Selma Uamusse: “É a convicção, mesmo de uma forma mais filosófica, de que o passado e o futuro vão dar a África. Esta programação tem uma ligação muito próxima entre instrumentos tradicionais africanos e a música eletrónica, como se a ancestralidade e o futuro estivessem muito bem conectados. E é algo que, quando penso nas coisas que quero fazer, me faz todo o sentido neste momento”.

A resposta é apontada, em momentos distintos, pelos diferentes participantes do painel. A dificuldade em circular e obter vistos, os custos das viagens, a falta de infraestruturas e de profissionais da cultura qualificados são algumas das principais razões indicadas. Cabo Verde tem feito esforços de “diplomacia cultural” para facilitar os processos de vistos junto da União Europeia, para estabelecer acordos com outros países da lusofonia, e olha para o Magreb com o mesmo potencial.

“Os Calema fizeram um sucesso com um artista marroquino e deram-se a conhecer ao mundo árabe”, aponta o ministro Augusto de Albuquerque Veiga, citando Enty Hayaty, a versão do êxito Te Amo que juntou os irmãos são-tomenses radicados em Portugal e o artista pop marroquino Saad Lamjarred, cujo videoclipe soma quase 120 milhões de visualizações no YouTube.

Artista moçambicana a viver em Portugal há muitos anos, Selma Uamusse foi a única música estabelecida no país a viajar este ano para o Visa for Music. “Sinto que os meus olhos, e também os olhos do mundo, estão cada vez mais virados para outras geografias e para África. Sempre ambicionei estar mais ligada ao circuito musical africano”, partilha com o Observador, horas antes de subir ao principal palco do festival marroquino, o Teatro Nacional Mohammed V. “É a convicção, mesmo de uma forma mais filosófica, de que o passado e o futuro vão dar a África. Esta programação tem uma ligação muito próxima entre instrumentos tradicionais africanos e a música eletrónica, como se a ancestralidade e o futuro estivessem muito bem conectados. E é algo que, quando penso nas coisas que quero fazer, me faz todo o sentido neste momento.”

Autora de uma música ligada às suas raízes moçambicanas, tanto nos sons como na língua, Selma Uamusse resolveu candidatar-se — com a sua agência Ao Sul do Mundo — a um fundo da GDA (Gestão dos Direitos das Artistas) para conseguir fazer este trabalho de internacionalização no Visa for Music. O objetivo passa por apresentar o seu concerto a programadores que a queiram contratar para os seus festivais ou salas de espetáculo. “Há muitos países africanos que não conheço — como a Gâmbia, Camarões, Senegal — e tenho a ambição de tocar nesses países e de poder experienciar. Ainda ontem jantámos num restaurante com música ao vivo, descobri instrumentos que nunca tinha visto, fonéticas que te fazem viajar para outros lugares, e a música é isso, é estar sempre em pesquisa e em busca de coisas que nos deixem espantados. Por muito bons que sejam os concertos e o circuito mais ocidental, entre a Europa e a América, há muito mais mundo, muito mais vida para explorar e isso interessa-me muitíssimo.”

▲ A única loja de discos da capital marroquina, a Everything Vintagy, está instalada num centro comercial de bairro

Selma Uamusse conta que tem vindo, aos poucos e sem pressas, a trabalhar em canções novas para um projeto que possa suceder ao seu segundo álbum, Liwoningo, editado em 2020. “Felizmente temos tido o privilégio de tocar fora e de colaborar com muitas pessoas, mas no que toca ao meu projeto, este ano nem tinha a expetativa de tocar tanto, mas estivemos em alguns sítios muito bons, como Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Brasil e claro que isso é inspirador e faz-te sempre pensar: o que é que tenho para dizer? Então, estamos, com muita humildade e alguma sabedoria, a trabalhar em coisas novas, mas sem um prazo. Já temos apresentado algumas canções novas nos concertos, mas com tranquilidade porque, ao contrário do circuito mais pop, não sinto a pressão de ter que estar sempre a apresentar alguma coisa nova e isso é muito libertador.”

O tão ambicionado circuito musical dentro do continente africano continua bastante dependente da rede dos institutos franceses que têm centros culturais em diversos países — e de alguns festivais que existem em territórios mais desenvolvidos. “São os franceses que têm a grande rede, sólida e consistente, no continente africano”, diz o agente de Selma Uamusse, Luís Viegas. “E o Visa for Music pode ser um mercado muito útil para fazer com que este circuito se desenvolva e funcione. Porque não se trata de fazer uma data aqui e acolá. Se a Selma for tocar à África do Sul, é uma logística bastante dispendiosa só para uma data. Por acaso ali já existe um circuito de cooperação entre alguns festivais da África do Sul, Moçambique, Suazilândia… Mas o continente africano continua carente deste tipo de iniciativas.”

Carlos Seixas, um homem do mundo e profundo conhecedor das músicas de diferentes países, fala sobretudo num problema de “acessibilidades” dentro do continente. “Os voos são muito caros, é difícil viajar entre países, muitas estradas não existem, há uma grande dificuldade de comunicação. Então continua a haver uma certa dependência da Europa, que tem um mercado muito mais sólido.”

Marrocos e o orgulho identitário: uma cena musical ligada às raízes que está a fervilhar

A cena musical em Marrocos aparenta viver um certo momento de ebulição. São muitos os artistas na montra do Visa for Music, marroquinos ou descendentes, que estão ligados às suas raízes tradicionais para apresentarem propostas sonoras frescas e contemporâneas — seja no universo da música eletrónica, da pop ou do rap, muitas vezes em fusões que atravessam e mesclam os diferentes circuitos.

Aziz Konkrite, produtor marroquino que sempre viveu em França, usa os métodos do hip hop — do sampling e da colagem — para recuperar e dar novas vidas aos sons tradicionais das diferentes regiões de Marrocos. Em paralelo ao Visa for Music, onde atuou numa fortificação medieval em Rabat, Aziz Konkrite desconstrói as suas batidas numa sessão intimista na única loja de discos da capital marroquina, a Everything Vintagy, instalada num centro comercial de bairro.

“O arquivo pode inspirar, mas não nos deve limitar. O objetivo é criar um novo ciclo, em que os registos antigos e as novas vozes dialogam umas com as outras. Essa é a verdadeira missão" — Disco Atlas.

Enquanto revela os samples, as diferentes voltas que lhes deu e os elementos sonoros que acrescentou, outros artistas da pujante cena musical marroquina vão absorvendo e deixando-se inspirar por aquelas músicas. Sami Galbi, Guedra Guedra ou Rhita Nattah são alguns dos que assistem à apresentação do compatriota. À sua volta, uma parede de posters de filmes em francês, e centenas de discos de vinil, CD e cassetes de música árabe.

O grande promotor do evento, que faz a curadoria de uma seleção dedicada de música marroquina na loja, é Disco Atlas — DJ e arquivista local que divide a vida entre Rabat e Barcelona, na vizinha Espanha. Aliás, faz o mesmo trabalho na cidade catalã ao levar para lá cassetes e discos de música marroquina, de modo a “criar pontes entre os dois lados do Mediterrâneo”, como descreve ao Observador.

O seu projeto nasceu em 2019, da sensação de que algo importante se estava a perder. “Quando a indústria das cassetes e do vinil terminou em Marrocos, um mundo inteiro de som desapareceu também. Os registos ficaram dispersos, esquecidos, ou perdidos em caixas poeirentas sem ninguém para os proteger”, conta. “Ao mesmo tempo, via cada vez mais estrangeiros a vir para Marrocos, a pesquisar o nosso património, a usar os nossos sons para os seus projetos e carreiras, muitas vezes sem sequer mencionarem as pessoas que tinham criado aquela música. Havia uma certa beleza nesse interesse, mas também uma falta de respeito e de contexto.”

Quis então preencher essa lacuna e assumir a responsabilidade de se tornar um arquivista e colecionador, um “guardião do património” que pudesse devolver esses sons à vida enquanto mantinha “a memória viva” dos seus autores. Só depois, de forma natural, começou a passar música como DJ, como uma forma de partilhar todos os tesouros sónicos que havia descoberto — e que continua a descobrir, nos mercados de rua, em vendas de garagem ou em arrecadações bolorentas.

▲ Aziz Konkrite, produtor marroquino que sempre viveu em França, usa os métodos do hip hop — do sampling e da colagem — para recuperar e dar novas vidas aos sons tradicionais de Marrocos

Para Disco Atlas, até pela ligação direta que mantém com Barcelona, encara esta missão permanente como uma forma de construir pontes com a Península Ibérica. “Sobretudo em direção à nossa herança andaluza, que é uma parte muito importante e muitas vezes esquecida da identidade musical que hoje temos. Muitos dos nossos ritmos, instrumentos e estéticas têm raízes nesta história partilhada que atravessa o Mediterrâneo. Para mim é muito importante demonstrar que a nossa cultura sempre esteve ligada, em movimento, em diálogo com outros.”

Enquanto observador atento da música marroquina, sublinha que, durante anos, a diáspora foi fundamental para modernizar o som — até porque tinham outras influências musicais, acesso a estúdios e a tecnologias, e mais oportunidades para desenvolverem uma carreira sustentável. Ao mesmo tempo, acredita que vários artistas utilizavam a identidade marroquina mais como um “símbolo estético”, sem necessariamente haver uma profundidade musical ou cultural nas suas raízes. “Tornou-se comum espelhar essa identidade a nível visual, sem fazer a pesquisa por trás dos sons.”

No entanto, Disco Atlas aponta que nos últimos anos — e num certo paralelismo com o que tem acontecido em Portugal e muitos outros países, em que artistas contemporâneos se têm virado mais e mais para as tradições musicais dos seus territórios, fazendo nascer híbridos — houve um ponto de viragem. No caso de Marrocos, o DJ e arquivista acredita que o impressionante quarto lugar que a Seleção Nacional conseguiu no Mundial de futebol de 2022 — e que levou inclusive a equipa a bater a Seleção portuguesa nos quartos de final — fez surgir uma “onda de orgulho que se estendeu além do futebol”. Foi um recorde absoluto para África e para o mundo árabe.

“Os marroquinos em todo o lado começaram a reconectar-se com a sua herança de uma maneira honesta. Conseguias senti-lo nas ruas, nas conversas e na música. Esta energia levou muitos artistas, sobretudo na diáspora, a redescobrir as suas origens com mais curiosidade e respeito. Tornou-se mais comum ver artistas a trabalhar com ritmos tradicionais, a fazer sampling de melodias ancestrais, a colaborar com músicos de Marrocos e a usar instrumentos como o guembri, bendir e ribab num contexto contemporâneo.”

“Os jovens já nem sequer falam muito francês, além da língua materna que é o árabe agora estão mais próximos do inglês. E acho que isso é bom. Ao mesmo tempo, há muitas colaborações a acontecer nesta sub-região, com a Tunísia, com o Egito… É um bom sinal. Acho que tudo é possível em Marrocos", conta Sami Fati.

Um dos muitos músicos que representam esse momento de transição é Sami Fati, artista franco-marroquino que, depois de uma série de projetos musicais a explorar diferentes sons e que até o levaram a colaborar com músicos tradicionais de diversos territórios, nos últimos anos se virou para Marrocos — a terra do seu pai — para criar o projeto Transe Gnawa Express. Fizeram uma performance no Visa for Music de 2024, este ano foi um dos oradores de uma conferência justamente sobre património cultural no contexto marroquino.

Sami Fati uniu-se a músicos da comunidade gnawa, na cidade de Essaouira, para fundir os sons tradicionais e ancestrais com a sua música eletrónica — tanto no estúdio como no palco. A ideia foi não só construir um projeto refrescante com raízes milenares, mas também proporcionar uma experiência transcendental, tendo em conta as características espirituais desta música e destas práticas culturais.

“Para mim, foi reconectar-me com as minhas origens, foi uma necessidade que senti”, conta ao Observador. “A cultura gnawa é uma cerimónia, é música e trance e aqui misturamos com sintetizadores e drum machines, também com uma série de visuais em palco. É um espetáculo multi-sensorial. Acabámos agora uma tour de seis cidades em Marrocos, o que foi um grande passo para nós.”

Sami Fati, que tanto tem conhecimento da cultura marroquina como da realidade europeia, acredita que a tendência para fundir elementos tradicionais e modernos no mundo árabe ainda agora começou. “Está a acontecer muito, aqui, porque as pessoas são muito ligadas às suas raízes. Na Europa, muitas vezes a música tradicional está distante da juventude. Aqui, em qualquer família, há alguém que toca alguma coisa ou que canta canções tradicionais. Por isso é muito natural as pessoas misturarem a sua cultura com coisas mais modernas. E nunca encontrei ninguém que não gostasse da fusão, porque as pessoas querem que a sua cultura viva, que não fique morta. Na Europa, nalgumas regiões, algumas culturas tradicionais estão a desaparecer, porque as pessoas não ouvem nem praticam, nem as conhecem muito bem… Aqui as pessoas estão mais ligadas às raízes.”

Sami Fati tem assistido ao desenvolvimento da indústria da música em Marrocos ao longo dos últimos anos e acredita que tem havido uma série de transformações rumo a uma maior independência face à dominante indústria francesa. “Os jovens já nem sequer falam muito francês, além da língua materna que é o árabe agora estão mais próximos do inglês. E acho que isso é bom. Ao mesmo tempo, há muitas colaborações a acontecer nesta sub-região, com a Tunísia, com o Egito… É um bom sinal. Acho que tudo é possível em Marrocos.”

▲ Na cerimónia de abertura do Visa for Music, um dos principais parceiros do festival, a Fundação Hiba, divulgou que as indústrias criativas e culturais marroquinas em 2024 já representavam 2,7% do PIB

Tanto o artista franco-marroquino como Disco Atlas realçam a força que o rap em Marrocos tem tido — com expressão na diáspora, sobretudo em França e Espanha — e que tem sido outro elemento de transformação e de elevação da cultura marroquina. “Os rappers marroquinos têm ajudado a criar uma ponte entre as gerações e entre os continentes”, acredita Disco Atlas.

“O seu sucesso abriu as portas para muitas pessoas sentirem orgulho na sua identidade marroquina e para a expressarem sem medo. O movimento do rap desempenhou um papel enorme para moldar a confiança da juventude que agora está a explorar sons mais tradicionais. Estamos num momento em que as raízes ancestrais e os novos sons estão a falar entre si. O orgulho de ser marroquino está de volta e isso sente-se diretamente na música. E os músicos marroquinos a viver na Europa continuam a ter um papel essencial na evolução da nossa música. Muitos deles fazem um trabalho notável ao levarem os sons de Marrocos a um novo nível e a apresentá-los em sítios diferentes. O reconhecimento hoje é muito mais forte, não só nos festivais de música mas também em museus, galerias de arte, instituições culturais e espaços educativos.”

Dá exemplos como Aziz Konkrite e Cheb Runner. “Ambos têm sido verdadeiros embaixadores da cultura marroquina. Juntam o passado com o futuro de uma maneira muito honesta. Trabalham com discos e cassetes antigas, fazem samples e reinterpretam ritmos como o chaabi, salientam texturas que tinham ficado esquecidas, e ao mesmo tempo constroem novas linguagens eletrónicas à volta desses elementos. O que eles estão a fazer não é uma simples fusão, é a criação de um novo espaço onde a tradição de Marrocos pode respirar dentro de um contexto moderno. São artistas que mostram como a música de Marrocos não é só património, mas também inovação. E a sua presença na Europa não os afasta de Marrocos. Pelo contrário, fortalece a ponte ao dar mais visibilidade à música e ao manter o diálogo vivo entre os dois lados do Mediterrâneo.”

Disco Atlas — que também trabalha como voluntário no Visa for Music, acreditando que tem sido importante para a imagem da música em Marrocos, embora defenda que devesse envolver de forma mais aprofundada os artistas da cidade — conta que nos planos está lançar uma editora de cassetes que possa trabalhar com artistas contemporâneos que estejam a “desenvolver um som de Marrocos em novas direções”, sejam rappers, produtores ou músicos experimentais. “O arquivo pode inspirar, mas não nos deve limitar. O objetivo é criar um novo ciclo, em que os registos antigos e as novas vozes dialogam umas com as outras. Essa é a verdadeira missão.”

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