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Woody Allen: uma vida memorável, para sempre refém de um pesadelo /premium

A autobiografia maldita foi publicada. É uma viagem pela infância, o cinema, Nova Iorque e os amores de um cineasta que viu os filmes ofuscados por um escândalo real mais estranho que a ficção.

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Sabe, eu não queria estar aqui escrever este texto. Também porque estamos fechados em casa no meio de uma pandemia, mas sobretudo porque preferia não dizer o que vou dizer. Faz lembrar aquelas piadas parvas: tenho duas notícias para lhe dar, uma boa, outra má. A boa é que já foi publicado o livro de memórias do Woody Allen, Apropos of Nothing. A má é que já o li.

Talvez o problema seja meu, das minhas expectativas. O próprio Woody, 84 anos, refere isso a meio do caminho – mas no sentido contrário. “Espero que não seja essa a razão pela qual comprou este livro”, referindo-se à relação com Soon-Yi, 35 anos mais nova que ele, filha adotiva da então namorada, a atriz Mia Farrow. Não foi, mas talvez devesse ter sido. Neste momento – e ao cabo de 400 páginas, quase metade dedicadas à exposição cabeluda, clímax desvalorizado e desenlace público do escândalo que tomou conta da vida do realizador de “Manhattan” a partir de 1992 – estaria muito mais satisfeita. Mas já lá vamos.

Quando fiz o download do eBook, disponível desde 23 de Março, as minhas ambições eram bem mais inofensivas. Talvez fossem iguais às suas, se as primeiras impressões que guarda do nosso neurótico preferido são filmes como “Annie Hall”, “Dias da Rádio” e “Rosa Púrpura do Cairo”. O humor, a poesia, a falta de sentido disto tudo. Era com esse autor que queria reencontrar-me. Resgatá-lo para o século XXI. Voltar a rir-me com frases como “Se queres fazer Deus rir-se conta-lhe os teus planos.” Esta seria a oportunidade de o ouvir sem o ruído mediático que nas últimas décadas reduzira 60 anos de carreira a uma novela interminável: “culpado ou inocente?”

A capa de “Apropos of Nothing”, a autobiografia de Woody Allen (Arcade Publizhing)

É provável que já saiba disto tudo. Nos anos 1990, para além das acusações relacionadas com Soon-Yi, Allen debateu-se com outras, mais graves, de abusar da filha adotiva de sete anos, Dylan. A batalha legal foi feia, com acusações de parte a parte. Ficou tudo por provar. A própria criança terá dado sinais de ter sido manipulada pela mãe, Mia Farrow. Mas há poucos anos, no meio da revolução #metoo, Dylan, que nunca mais teve contacto com o pai, repetiu as alegações. E Woody foi proscrito do meio audiovisual norte-americano.

Pelo caminho aparece Ronan Farrow, jornalista, filho de ambos, uma das mais importantes figuras do movimento #metoo, autor da investigação para a revista “The New Yorker” que ajudou a expor o produtor Harvey Weinstein, condenado em Março a 23 anos de prisão por violação e agressão sexual. Ronan é também autor do livro Catch and Kill, editado no ano passado pela Hachette, onde explica como homens poderosos, incluindo o próprio pai, conseguem fintar acusações de abuso sexual. E foi Ronan que o mês passado veio dizer que se a mesma Hachette publicasse Apropos of Nothing, como previsto, abandonaria a editora. A gigante editorial cedeu e o livro sai em papel dia 7 de Abril, sim, mas pela Arcade Publishing.

Intrincado? Acredite, ainda não viu nada

A vida real tem esta coisa de atrapalhar a ficção. A partir daqui torna-se difícil, se não impossível, ler Apropos of Nothing sem prestar atenção ao subtexto. Allen também facilita, a começar pela dedicatória: “Para Soon-Yi, a melhor. Vinha-me comer à mão e então reparei que o meu braço tinha desaparecido.” Mas bastam algumas páginas – três, arriscaria – para testemunharmos um pequeno milagre: a ressurreição do Woody de antes disto tudo. E é um prazer.

O amor, a morte e tudo que fica no meio: 10 lições de vida que aprendemos com Woody Allen

Rápido, coloquial, cheio de jazz, ele recua à Brooklyn dos anos 30 e 40 para contar a história dos pais – “dois personagens (…) que discordavam em tudo exceto Hitler e as minhas notas” – e da sua juventude – “Sempre desprezei a realidade e desejei a magia.” De repente, estamos a ouvir rádio, a faltar às aulas, a ir ao cinema e a ler livros aos quadradinhos. A paixão por Nova-Iorque, pela música de Nova Orleães, pelas mulheres de camisolas de gola alta e collants. Estamos dentro de um dos seus filmes. A voz é hipnótica, a espaços cruel. Interpela-nos, faz marcha-atrás, atira para a frente, vai lá pescar-nos. Se surpreende ler que Allen era saudável, popular e atlético e que, por outro lado, nunca foi um intelectual, a seguinte revelação só vem confirmar o óbvio: “uma coisa que sempre soube fazer é escrever. Conseguia escrever antes de saber ler. (…) Escrever sem ter a capacidade de tomar notas. A tradição oral.” Especialidade: piadas. “One-liners.” Princípio, meio e fim numa única frase. E se há quem veja sempre o copo meio vazio, ele “via sempre o caixão meio cheio”.

Se há repetições que são estilo, outras fazem pior que atrasar a narrativa – interrompem-na. Uma das imagens que Woody mais repete é a de si próprio um homem viciado no trabalho, na escrita e na rescrita, para quem nada justifica uma interrupção, nem mesmo o assassinato de Kennedy, que lhe mereceu um total de 10 minutos de atenção, antes de voltar para a máquina de escrever.

Já agora, Woody é nome artístico. Origem: uma epifania, do nada, depois de muita divagação. Razão: ia bem com Allen, um vestígio do nome com que nascera, Allan Stewart Konigsberg. Motivo: sonhos de grandeza.

A dada altura, está ele na casa dos 20 anos – torna-se difícil precisar, porque Woody não é dado a datas nem a qualquer outro tipo de referências de precisão que vão para além do seu próprio universo – e vai para Los Angeles escrever num programa de televisão da NBC. Pouco depois está a ser convidado para escrever com um ídolo, o guionista Danny Simon. Será, para sempre, um dos seus grandes mestres na escrita de humor. Simon ensina-o a usar um discurso natural, a deitar fora piadas que atrasem a narrativa, a começar no início e seguir a direito, a não escrever quando está mal-disposto, a não ser competitivo e, acima de tudo, a confiar em si próprio e nos seus instintos. Um conjunto de mandamentos que vai orientá-lo a vida toda, por bons e maus caminhos.

Uma dúvida que vai surgindo ao longo do livro é perceber se o texto foi editado. O percurso atribulado do manuscrito, que chegou a ser considerado “radioativo”, ajuda à especulação. O estatuto do autor também: “Sr. Allen, temos aqui dezenas de coisas para corrigir.” Mas se há repetições que são estilo, outras fazem pior que atrasar a narrativa – interrompem-na. Uma das imagens que Woody mais repete é a de si próprio um homem viciado no trabalho, na escrita e na rescrita, para quem nada justifica uma interrupção, nem mesmo o assassinato de Kennedy, que lhe mereceu um total de 10 minutos de atenção, antes de voltar para a máquina de escrever. Uma “anedota que demonstra ou a minha disciplina e ambição ou a minha falta de ligação com a realidade”, comenta. Talvez não tenham de ser opções exclusivas.

Mia Farrow? É outra conversa

Do liceu, Allen vai para a televisão, daí para o stand-up e de lá para o cinema. São muitos anos, com muitos acontecimentos, muitos nomes, mas poucas histórias. Há exceções. Os dois primeiros casamentos falhados, claro; o segundo de 13 anos, com a actriz Louise Lassar, bipolar, e muito parecida com Mia Farrow – ou vice-versa. Os verões em Tamiment, uma estância de férias com uma companhia de teatro sobre a qual apetece saber mais. O momento em que Allen, grande especialista em servir copos de água, resolve aprender a cozinhar e liga à superestrela da cozinha Julia Child para pedir referências. As considerações sobre a psicanálise. Pequenos apontamentos de humor, aqui e ali. Não deixa, contudo, de surpreender a superficialidade dos relatos. Como se a técnica dos “one-liners” se tivesse infiltrado em toda a narrativa, em todos os raciocínios, reflexões e emoções.

Mia Farrow, Woody Allen e os filhos, em 1989

Ron Galella Collection via Getty

A empatia aqui não é um lugar estranho, mas um destino desconhecido. Sim, muitas das referências perdem-se na travessia do Atlântico, mas a verdade é que ao tédio de listas exaustivas se sucede o fastio de longuíssimas enumerações. Desde os filmes recordados com um parágrafo, aos atores e atrizes descritos com sucessões de adjetivos. Diane Keaton é “adorável, engraçada, totalmente original em estilo, fresca, real”. Scarlett Johanson é “uma atriz excitante, uma estrela de cinema natural, com inteligência a sério, rápida e engraçada.” Já Mia Farrow é outra conversa.

É difícil elaborar sobre o que se segue. Quase meio livro dedicado a um conto de horror. Mesmo sem tomar partidos. Da história da família de Farrow, às adoções em série, os vários suicídios, as acusações de abusos sexuais, maus-tratos e negligência, os anos de vida passados em tribunais, os rios de dinheiro gastos em advogados, aquelas crianças, o desejo de vingança – que parece não ter fim. Passando pelo tom blasé com que Allen se desculpa por não ter dado mais atenção às “bandeiras vermelhas” que iam surgindo: “Não tenho resposta. Só sei que uma personalidade encantadora e uns grandes olhos azuis sempre tiveram a capacidade de lançar mil navios.” Apetece fechar o livro e não voltar a abrir.

Os dois estiveram juntos 12 anos, até ela o deixar porque encontrou fotos da filha adotiva nua em cima da lareira de casa dele. Nunca viveram na mesma casa, é certo, mas ele adotou dois dos filhos de Farrow e será pai biológico do mais novo, Ronan, embora, de acordo com a própria, o pai também possa ser Frank Sinatra.

Versão definitiva da realidade?

Entretanto passaram quase 30 anos do escândalo, Allen tem um casamento estável, uma nova família e outro dos filhos de Farrow, Moses, do seu lado, mas continua no olho do furacão. Nos EUA não arranja trabalho, Hillary Clinton não aceitou a sua doação para a campanha presidencial de 2016 e os atores viram-lhe as costas. Sobre estes últimos chama-lhes “tolos” e aproveita para acrescentar que Timothée Chalamet só o fez para aumentar as possibilidades de ganhar o Óscar para que estava nomeado por “Call Me By Your Name”. “Off the record, esperava um pouco mais de apoio dos meus pares”, reconhece. Kafka, que evoca no início do livro enquanto autor preferido das raparigas que prefere, “está a sorrir”.

Esta é a narrativa que Woody Allen reivindicou para si. Provavelmente a última. Não deixa de ser trágico ver toda uma vida refém de um único acontecimento. Como uma viagem inesquecível recordada apenas pela intoxicação dos últimos dias.

Allen já não está a ser julgado, mas estas memórias são a sua defesa e estratégia de acusação. Do momento em que tenta provar por “a+b” que nunca gostou de mulheres mais novas à descrição do início do seu relacionamento com Soon-Yi: “Achei-a um pouco mal-humorada.” O maior arrependimento? Ter tido milhões de dólares para filmar, total liberdade criativa e “nunca ter feito um grande filme”. Maior inveja? Escrever Um Elétrico Chamado Desejo. E faria alguma coisa diferente? “Não compraria aquela máquina milagrosa para fatiar vegetais anunciada na TV.”

No velho debate sobre se obra e vida do autor são indissociáveis, o nome Woody Allen tem sido uma referência frequente. Sobretudo em culturas mais moralistas como a dos Estados Unidos. Mas este livro não se trata apenas de biografia nem apenas de bibliografia. Na verdade, como todas as autobiografias, Apropos of Nothing é uma autoficção com aspirações a versão definitiva da realidade. Esta é a narrativa que Woody Allen reivindicou para si. Provavelmente a última. Não deixa de ser trágico ver toda uma vida refém de um único acontecimento. Como uma viagem inesquecível recordada apenas pela intoxicação dos últimos dias. Vai daí, seria possível contar as coisas de outra maneira? Qual seria a alternativa?

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