Circula nas redes sociais a informação de que a água termal, nomeadamente a água das termas de Cabeço de Vide, em Portalegre, tem um efeito curativo sobre a Covid-19. Esta informação é falsa: não é verdade que haja uma relação direta entre este tipo de água e a doença provocada pelo novo coronavírus.

Foi o humorista Fernando Rocha, que esteve infetado com o novo coronavírus e está até a ser alvo de um objeto de estudo pela forma como a doença se manifestou no seu organismo, quem pela primeira vez se referiu a esta possibilidade.

Num vídeo que partilhou na sua página de Facebook a anunciar que, após sete testes, estava finalmente curado da Covid-19, Fernando Rocha agradeceu aos profissionais de saúde do Hospital de Santo António, no Porto, e acrescentou um outro agradecimento:

“Também quero agradecer ao João Olaia e ao Armando, que vieram das termas de Cabeço de Vide, que é no Alentejo, entregar-me uma água das termas que tem um grau de alcalinidade muito elevado. Durante esta semana, eu bebi dessa água. Eu não sei que efeito é que a água fez em mim, mas o que é certo é que me curou e que deu negativo. Talvez me ajudasse a limpar os vestígios do vírus que ainda tinha dentro de mim.”

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Mais recentemente, foi a Rádio Portalegre que, através de uma notícia que publicou no seu site e de uma publicação que partilhou no Facebook — e que na manhã deste sábado já contava com perto de 400 partilhas — voltou ao assunto.

Na notícia, aquela rádio regional do distrito de Portalegre afirmava que um homem de 36 anos tinha sido “dado como curado” da Covid-19, “depois de [ter estado] uma semana a fazer um tratamento com água das Termas de Cabeço de Vide”.

“A sua esposa que também estava infetada com o novo coronavírus, submeteu-se igualmente a um tratamento com água das Termas de Cabeço de Vide durante a última semana e o resultado do último teste também foi negativo”, acrescenta a publicação.

Aliás, a própria publicação da Rádio Portalegre destaca (embora apenas no sexto parágrafo) que “não existem dados científicos que atestem o efeito da água das Termas de Cabeço de Vide sobre o novo coronavírus“. Porém, dá conta de que pelo menos 10 pessoas, incluindo Fernando Rocha, “também ficaram curadas depois de beberem da mesma água”.

A publicação da Rádio Portalegre sobre a suposta cura

Um dos principais promotores desta “cura” será o próprio presidente da Junta de Freguesia de Cabeço de Vide, João Olaia — o mesmo que levou a água ao humorista Fernando Rocha.

O autarca disse à Rádio Portalegre acreditar que exista “algum efeito” da água termal sobre o novo coronavírus devido ao seu pH (de 11,5) e assegurou, como explica a rádio, que “já foi contactado por diversas pessoas interessadas em adquirir água das Termas de Cabeço de Vide”.

Esta questão do pH não é nova e continua a ser falsa. O Observador já fez, inclusivamente, um fact-check a desmentir a ideia de que o consumo de alimentos com o pH alto — ou seja, alimentos mais alcalinos — contribuem para prevenir o contágio da Covid-19.

Essa ideia partia da premissa errada de que o pH do coronavírus se situaria entre os 5,5 e os 8,5, de modo que, para combater os seus efeitos, poderia ser útil consumir alimentos com um pH superior a esse valor. Já na altura, a bastonária da Ordem dos Nutricionistas, Alexandra Bento, garantia ao Observador que não existe “nenhum alimento que consiga evitar o contágio nem auxiliar após uma pessoa se contaminar”.

“Tudo isto que circula na Internet é muito perigoso. Não há nenhum medicamento, nem alimento, nem suplemento milagrosos”, alertou na altura a especialista.

Contactado agora pelo Observador, Ricardo Mexia, médico de Saúde Pública do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, rejeitou que haja qualquer evidência científica que aponte no sentido de um potencial curativo desta água — ou de qualquer outro alimento.

“Nós sabemos que a esmagadora maioria dos casos, acima dos 80%, evolui de forma positiva, sem nada, sem nenhum tipo de medicação, nem de alimentação, nem de nenhuma intervenção”, explica o especialista. “São casos autolimitados. As pessoas adoecem, tem uma sintomatologia muito ligeira, e acabam por se curar, independentemente do que tomem, bebam ou comam.”

“Eu percebo que estejamos todos com muita expectativa de encontrar uma solução, mas a solução tem de ser demonstrada”, alerta Ricardo Mexia.

Para o médico, seria necessário realizar um ensaio clínico a esta água para obter qualquer resultado cientificamente válido. Isso implicaria analisar dois grupos de doentes — um deles consumiria a água e o outro não — e, no fim, olhar para diferenças consistentes na evolução da doença entre os grupos. Ricardo Mexia desafia até quem tem estado a promover esta “cura” que “solicite à academia que faça um ensaio clínico”.

Além da falta de evidência científica, Ricardo Mexia alerta para os potenciais riscos de consumir uma água que não está autorizada para venda livre para consumo humano. A verdade é que aquela água não é indicada para ser bebida normalmente, embora possa ser consumida em pequenas quantidades para efeitos terapêuticos nas termas e com acompanhamento profissional.

De acordo com os relatos, a água das termas de Cabeço de Vide tem um pH de 11,5, o que significa que é muito alcalina. Porém, a legislação portuguesa define que as águas para venda para consumo humano devem ter um pH entre os 6,5 e os 9. “Não estando dentro dos parâmetros, há risco com o consumo”, adverte Ricardo Mexia.

O médico desmente também qualquer raciocínio científico de obtenção de uma cura para a infeção com base no pH.

“O nosso organismo tem alguma capacidade de autorregulação. Independentemente do que consumimos, o organismo funciona em parâmetros muito apertados. Temos mecanismos que nos permitem autorregular o pH”, sublinha.

Ricardo Mexia alerta para um fator adicional que contribui para desmentir a história: Fernando Rocha já não estava doente quando consumiu a água. “Isto é do conhecimento público, não tenho conhecimento clínico. Mas ele já estava bem, sem sintomas, simplesmente continuava a fazer testes que davam positivo. Teve um período, como tem acontecido com centenas de pessoas em todo o mundo, em que mantinha um diagnóstico positivo embora já estivesse curado. A partir de dado momento, deixou de dar positivo, e isso pode ter coincidido com o consumo da água.”

Importa ainda sublinhar o que tanto a Organização Mundial da Saúde como a Direção-Geral da Saúde têm repetido: não existe ainda qualquer tratamento cientificamente comprovado para a Covid-19, pelo que o acompanhamento dos doentes se tem focado no alívio dos sintomas da doença.

Conclusão

Não há qualquer evidência científica de que o consumo de água das termas de Cabeço de Vide tenha qualquer influência na evolução da Covid-19. Além disso, não há nenhuma relação entre o pH dos alimentos consumidos e a possibilidade de cura da infeção. Ao mesmo tempo, o consumo, sem acompanhamento, de uma água que não cumpre os parâmetros para ser vendida para consumo humano pode acarretar riscos de saúde.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

De acordo com a classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota 1: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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