Beber água morna com limão previne o contágio pelo coronavírus, água morna com sal ou vinagre elimina o vírus, uma tigela de água e alho pode ser a solução para curar a Covid-19. Tudo isto é falso — e o Observador já explicou porquê — mas as partilhas a apregoar os efeitos milagrosos de certos alimentos no combate à pandemia que agora atravessamos são recorrentes. A informação mais recente a circular no Facebook é uma lista que garante que o pH do novo coronavírus varia entre 5.5 e 8.5 e que, para vencê-lo, é necessário ingerir alimentos com pH mais alto, como o alho, o dente-de-leão, o abacate ou o abacaxi. Tudo aqui está errado.

A publicação que aponta vários alimentos que alegadamente previnem o vírus.

Em primeiro lugar, não existe qualquer informação sobre o pH do vírus atual. Houve partes eliminadas ou perdidas na tradução mas a mensagem (foto em anexo) que começou a circular, em inglês, citava um estudo publicado no “Journal of Virology”, em abril de 1991. Esse documento existe, é verdade, mas nele não está mencionada a Covid-19. A doença, provocada pelo vírus SARS-CoV-2 ainda não existia nos anos 1990. É verdade que este vírus pertence a um grupo de vírus já conhecido, os coronavírus, mas este SARS-CoV-2 surgiu muito recentemente, no final de 2019, em Wuhan, na China. É por isso que é muitas vezes designado por novo coronavírus..

O artigo fala de um coronavírus tipo 4, ou MHV4, e não do SARS-CoV-2, o que deu origem à recente pandemia. Porém, o estudo não diz que o MHV4 tem determinado pH. Aquilo que analisa é o que acontece quando as células de ratos (o que está em causa nesta estirpe) com pH entre 5.5 e 8.5 estão infetadas com o vírus. Tudo isto foi tirado do contexto e adaptado à atualidade.

Em segundo lugar, os valores que aparecem na lista estão errados. A escala de pH, que determina a acidez ou alcalinidade de uma solução, funciona de zero a 14 — menor do que sete é ácida, igual a sete é neutra e superior a sete é básica. Logo, os dados aqui atribuídos ao abacate (15.6) e ao dente-de-leão (22.7), por exemplo, nem sequer fazem sentido. Além disso, cada alimento tem um pH aproximado e não fixo. O pH de uma manga (dependendo do tamanho, da origem, etc) situa-se entre 6.5 e 7.

Por último, não existe qualquer tratamento universal para a Covid-19 e, por consequência, não há “nenhum alimento que consiga evitar o contágio nem auxiliar após uma pessoa se contaminar”, garante Alexandra Bento, Bastonária da Ordem dos Nutricionistas, ao Observador.

O que pode acontecer é que “quem tem habitualmente um estilo de vida mais saudável, pode ter um sistema imunitário com mais robustez para fazer face ao vírus”. Apenas isso, explica, deixando ainda um alerta: “Tudo isto que circula na Internet é muito perigoso. Não há nenhum medicamento, nem alimento, nem suplemento milagrosos”.

No site oficial da Organização Mundial da Saúde (OMS) há uma secção  dedicada a desmontar mitos — onde está desmentido, inclusive, o poder do alho, que aparece no meio da lista que anda a circular. O que o organismo mundial recomenda é uma dieta equilibrada, que se junta aos conselhos sobre a prática de exercício físico, higiene e distanciamento social.

Conclusão

Nem o novo coronavírus tem pH nem os alimentos com pH alto (ou outros quaisquer) ajudam a vencê-lo. Ainda não há uma cura para a Covid-19, a doença provocado pelo vírus SARS-CoV-2, um dos vírus que pertence ao grupo dos coronavírus, e a informação baseia-se num estudo que em nada está relacionado com esta estirpe. Além disso, os valores que fazem parte da lista que está a circular estão completamente errados — a escala de pH funciona de zero a 14. A própria OMS já veio desmentir alguns destes mitos e a bastonária da Ordem dos Nutricionistas desmente que haja alimentos capazes de curar ou tratar a Covid-19.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

De acordo com a classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota 1: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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