Uma publicação com três símbolos diferentes — Sport Lisboa, Grupo Sport Benfica e Sport Lisboa e Benfica — e com a sugestão de que o Benfica anda “a mentir desde 1908” sobre a data de fundação do clube. Motivo: o facto de ter havido uma fusão entre clubes distintos e por se considerar a data de fundação do primeiro clube e não a data em que houve uma união.

A história é conhecida e a fusão dos clubes também, mas o Sport Lisboa e Benfica considera como data da sua fundação o dia em que nasceu o primeiro desses clubes: o Sport Lisboa. “O Sport Lisboa e Benfica foi fundado a 28 de fevereiro de 1904, com o nome de Sport Lisboa. Depois de um treino matinal, nuns terrenos em Belém, realizou-se, da parte da tarde, uma reunião na vizinha Farmácia Franco, na qual estiveram presentes 24 elementos, entre os quais os dez do treino da manhã”, pode ler-se no site do clube, onde está descrita a história.

Na mesma página, é possível ainda ver a ata da reunião de fundação do Sport Lisboa, que é atribuída a Cosme Damião, apesar de não haver a assinatura do fundador do clube lisboeta.

Numa primeira fase, nesse processo de unificação das duas instituições desportivas da cidade, ficou acordado que, no futuro, se manteria a águia que o Sport Lisboa tinha no emblema, se jogaria de vermelho e branco e que o clube teria como mote a expressão em latim “E Pluribus Unum”, que significa “de muitos, um” e que representa a união. Foi em setembro de 1908 que os responsáveis aprovaram a fusão entre o Sport Lisboa e o Sport Clube de Benfica (que tinha sido criado em 1906).

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Apesar de, nesse período, a primeira opção relativamente ao nome a adotar ter recaído sobre a opção “Sport Clube de Lisboa e Benfica”, essa vontade — como sabemos — não vingou. Determinados em garantir que os dois grupos não iriam perder a individualidade, o clube passaria a chamar-se Sport Lisboa e Benfica, nome que mantém até aos dias de hoje.

Em declarações ao Observador sobre esse período fundador, Alberto Miguéns é lácónico: “Contra factos não há argumentos.” O historiador do Benfica garante que nos casos de outros clubes (como o de dois rivais históricos do Benfica: o Futebol Clube do Porto e o Sporting Clube de Portugal) são conhecidas as “datas concretas” em que houve alterações da data de fundação. “Quem diz que o Benfica alterou a data de fundação tem de dizer quando é que foi feito o revisionismo histórico”, aponta, dizendo que “ninguém consegue indicar nenhuma data porque o Benfica nunca fez [revisionismo] e, por isso, não há data“.

“Nós sabemos quando é que o Futebol Clube do Porto alterou a data de fundação, numa assembleia geral em fevereiro de 1988 em que se decide que o clube não foi fundado a 2 de agosto de 1906 mas a 28 de setembro de 1893. Sabe-se a data de alteração da fundação”, explica o especialista, que aponta ainda o exemplo do clube leonino. “O Sporting foi em 1 de maio de 1920 que alterou a data de fundação, porque tinha sido fundado a 8 de maio de 1906, mas decidiram que a data de fundação não era a 8 de maio, mas a 1 de julho de 1906 porque o nome definitivo só ficou aceite a 1 de julho”, acrescenta.

Desta forma, o historiador recusa a ideia de que tenha sido concretizada uma “fusão” entre dois clubes, no caso do Benfica, e compara este caso com o de clubes como o Atlético e o Oriental de Lisboa. “Nos clubes que deram origem a estas instituições, os emblemas são completamente diferentes e os equipamentos também”, justifica, em contraste com o que aconteceu com o clube da Luz. Alberto Miguéns vai mais longe para dizer que um dos clubes que se juntou e deu origem ao Sport Lisboa e Benfica (o Grupo Sport Benfica) já tinha passado por um processo idêntico: “Também alterou o nome, mas não alterou a data de fundação.”

O historiador sublinha que foram os responsáveis por este processo a decidir que “mantinham como data de fundação a data do clube mais famoso à época que era o Sport Lisboa”. E alerta que a análise deve ser vista como na época e não com a visão atual. “Eles não a consideravam uma fusão, consideravam-na uma junção. Por isso é que colocaram um emblema em cima do outro e mantiveram a orgânica dos dois clubes como se fossem dois clubes, uma espécie de casamento, em que cada pessoa continua a ser uma, apesar de haver a tradição de colocar o nome do marido”, enaltece.

Alberto Miguéns considera que a decisão não pode ser “julgada”. “As pessoas podem não concordar com o que eles decidiram, mas isso é opinião”, atira. Naquele momento, os responsáveis decidem que os dirigentes, a sede e o campo e toda a “superestrutura” é a do Sport Benfica, mas “o principal, o futebol, é do Sport Lisboa”, já que o Sport Benfica “nunca tinha tido futebol”. Era o “casamento perfeito”, o Sport Benfica tinha o terreno, “melhor organização, melhores dirigentes” e uma sede, mas não tinha futebolistas. Por outro lado, o Sport Lisboa tinha “grandes futebolistas”. Foi uma “complementaridade, uma junção”.

O historiador acredita que as datas de comemoração por parte da imprensa, anos depois, também têm de ser tidas em conta. “Em 1929, já todos falam da comemoração dos 25 anos e em 1954, aos 50 anos, ainda estava vivo um dirigente do Sport Benfica que esteve na reunião de 13 de setembro, e deu uma entrevista” sobre esse momento. O que, na opinião de Miguéns, “só prova que não houve nenhuma alteração no percurso”, caso contrário este elemento não festejava as cinco décadas naquela data.

Conclusão:

O Sport Lisboa e Benfica não mentiu sobre a data de fundação do clube, ao contrário do que sugere a publicação em casa. Houve, de facto, uma junção entre o Sport Lisboa e o Grupo Sport Benfica, mas os responsáveis pelo processo deixaram bem claro o que se alterava e o que permanecia intacto. Desde então não se conhece qualquer revisionismo histórico que mude a data de fundação do clube, que acabou por ficar a mais antiga (28 de fevereiro de 1904). Alberto Miguéns, historiador e profundo conhecedor do clube, explica que houve testemunhas em todo o processo e que essa alteração de data nunca aconteceu, pelo que tem de se respeitar os fundadores e responsáveis pela fusão.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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