As alterações climáticas costumam ser, muitas vezes, alvo de propagação de informações falsas. Foi nesse sentido que surgiu uma publicação de Facebook  no passado dia 25 de junho com fotografias de um suposto “encontro” entre dois oceanos no Golfo do Alasca, onde se lia o seguinte: “Onde dois oceanos se encontram mas não se unem. Quem ordenou às poderosas ondas, a cada átomo água e disse-lhes que não podiam ir além disso?” A publicação cita ainda passagens bíblicas, deixando uma questão: “E ainda duvidas do poder e autoridade de Deus?”  Além de ser uma publicação já anteriormente espalhado nas redes sociais, é enganadora.

Fotografias sobre um suposto encontro entre dois oceanos.

Diferentes versões destas fotografias circulam nas redes sociais há vários anos. Uma das fotografias deste fenómeno estranho, onde é possível ver o cruzamento entre duas águas de cores diferentes (uma mais escura, outra mais clara),  foi tirada por Ken Bruland, professor de ciências oceânicas da Universidade de Califórnia- Santa Cruz, durante uma viagem, com outros colegas, em busca da presença de ferro naquelas águas em 2007, como conta o fact-checker norte-americano, Snopes, que verificou estas fotografias em março de 2015.

Este tal fenómeno onde supostamente “se encontram dois oceanos”, mais não é do que águas com sedimentos vindos de rios glaciares a encontrarem-se com o oceano Pacífico — este é um dos métodos mais primários para a criação de ferro, presente na argila destes sedimentos. Outra das imagens que está no post original (canto inferior direito) foi, na verdade, tirada pelo fotógrafo Kent Smith em 2010, que apresentou explicações muito semelhantes às de Bruland na sua página de Flickr.

No entanto, não é verdade que este fenómeno aconteça, de forma permanente, na costa do Alaska, tal como é dito na publicação original. Segundo Bruland, esta tal fronteira poderá eventualmente desaparecer, assim que as águas ricas em ferro, que provém dos rios glaciares, se misturam com o oceano. É igualmente falso que não exista mistura entre os dois tipos de água. “Podem misturar-se eventualmente, mas estes gradientes fortes que se vêem podem ser encontrados nestes momentos específicos”, afirmou ao Anchorage Daily News, jornal citado pelo Snopes neste fact-check. Ou seja, a diferença de cores deve-se à composição de cada uma das águas, mas esse fenómeno não impede que se misturem — só atrasa esse processo.

Publicações semelhantes surgiram em 2018, em espanhol, francês ou italiano, induzindo, novamente, as pessoas em erro. Mas desta vez através de um vídeo de julho de 2015, que diziam respeito ao Estreito da Georgia, em Vancouver, no Canadá, filmado por Steve Pearson, residente em Seattle. A legenda tinha a descrição “onde o rio se encontra com o oceano”, referindo-se ao Rio Fraser  que desagua no tal Estreito, perto de Vancouver, acabando por se encontrar com o Oceano Pacífico.

O autor do vídeo  afirmou à secção de fact-checks da Agence France Presse (AFP) que “era terrível as pessoas roubarem um vídeo e fazerem falsas afirmações sobre o seu conteúdo”, como dizerem que o vídeo representava um cruzamento entre o mar Báltico ou do Norte, ou um encontro entre “dois oceanos que se encontram debaixo de água” – afirmação que, por si só, já causa estranheza. Curiosamente, este local fica a cerca de mil quilómetros de onde Ken Bruland tirou as fotografias acima descritas, como explica à AFP, que também declarou como falsas todas as publicações semelhantes à original.

É importante também dizer que uma das imagens (a primeira a contar de cima) foi publicada pela  Marlin Magazine, revista especializada em pesca, em novembro de 2015. Foi usada noutras publicações sob a legenda “uma verdadeira amostra de cores a partir do encontro entre o Golfo do México e o Rio de Mississipi”, lê-se noutro artigo da AFP.  Contactada pela agência francesa de notícias, a Marlin Magazine garantiu que, de facto, esse era o local da fotografia, logo, não poderia representar um encontro entre dois oceanos, tal como é alegado nos posts enganadores.

O Snopes também verificou a fotografia, chegando à conclusão de que se trata de uma “zona morta” (dead zone) no Golfo do México, que é causada por um motivo: quando água altamente nutriente, cheia de nitrogénio e fósforo vinda daquele rio é despejada no Golfo. O resultado é eflorescência algal (ploriferação de organismos plantónicos como as microalgas), alteração das cadeias alimentares e deficiência de oxigénio nas águas. Existe então mistura entre águas, sendo que esse efeito é até prejudicial para o meio ambiente e vida marinha, ainda que dê um efeito bonito. Ao contrário do fenómeno que decorre no Alasca, a causa é, de facto, humana já que aquele rio acaba por ser uma espécie de depositório de descargas vindas da agricultura e do meio urbano daquela região.

É, portanto, errado questionar, tal como o autor escreve, “quem” terá ordenado que as águas não se juntassem, já que tudo o que acontece nas imagens é explicado pela ciência, o que não impede que se misturem. Finalmente, é importante destacar um excerto do artigo do Anchorage Daily News sobre a constante partilha destas fotografias, sem o devido contexto científico explicado. “Da próxima vez que alguém partilhar uma foto realmente cool sobre o ‘sítio onde dois oceanos se encontram’, esteja à vontade para explicar que existe ciência por detrás deste fenómeno. Na era da internet, nada se espalha mais rápido do que a desinformação”.

Conclusão

Não é verdade que dois oceanos se encontrem no Golfo do Alasca. Post viral já é antigo e foi anteriormente verificado por dois fact-checkers internacionais, o Snopes e a AFP, e ambos classificaram esta publicação como enganadora. A explicação está relacionada com um fenómeno ambiental, onde águas com sedimentos glaciares, contendo ferro, se encontram com o oceano Pacífico. Ao contrário do que é alegado, estas águas acabam mesmo por se misturar ao longo do tempo, ainda que o processo possa ser demorado. Numa das fotografias também é visível um fenómeno prejudicial à vida marinha, ainda que dê imagens bonitas. Mas também não se verifica o encontro entre dois oceanos: pertence, sim, ao cruzamento entre o Rio Mississipi e o Golfo do México. Ou seja, a questão religiosa levantada pelo autor da publicação acaba por ser respondida pela ciência.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ENGANADOR

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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