A publicação surgiu numa altura em que há cada vez mais portugueses a recorrer à ajuda alimentar, como efeito da crise económica provocada pela crise pandémica. Acompanhado de várias fotografias que mostram um alegado desperdício alimentar, o autor da publicação questiona: “Alguém me pode explicar as desculpas do controlo de qualidade, quando há gente a morrer à fome?” Ao não dar nenhum referência geográfica, o utilizador do Facebook sugere que as fotografias do desperdício são em Portugal e que foram tiradas num momento atual — o que é falso e torna publicação enganadora.

Publicação utiliza imagens tiradas noutros anos e em três países diferentes

Além de não serem em Portugal, as fotografias também não correspondem a um desperdício completo. Na primeira fotografia vê-se aquilo que aparenta ser uma mulher a atirar alimentos, ainda com aspeto de serem consumidos para o lixo. Na verdade, a fotografia foi tirada a 14 de março de 2018 pelo fotógrafo da Reuters, Ben Nelms, onde uma trabalhadora da Enterra Feed Corporation atira para o chão comida que efetivamente foi desperdiçada antes de chegar ao consumidor — por estar fora dos formatos regulamentados –, mas que será utilizada para alimentar larvas de moscas naquela empresa.

A Enterra Feed Corporation localiza-se em Langley, na Colúmbia Britânica, no Canadá, local onde a fotografia foi capturada. A empresa produz ingredientes feitos de insetos de “alta qualidade” para empresas que produzem rações para a agricultura e animais domésticos. É uma empresa que aposta, precisamente, na “sustentabilidade”. A comida não é totalmente desperdiçada, mas é um facto que aproveita um desperdício inicial de alimentos comestíveis que não chegaram aos consumidores. Não há dúvidas, porém, que a fotografia não foi tirada em Portugal, mas no Canadá.

Fotografia em causa foi tirada no Canadá por fotógrafo da Reuters, Ben Nelms, a 14 de março de 2018

Uma segunda fotografia mostra vários pães, aparentemente em bom estado, colocados num caixote do lixo de rua. Neste caso, é verdade que se tratou de comida desperdiçada, mas mesmo esse desperdício tem um contexto. Além disso, a fotografia não foi tirada em Portugal, mas no Luxemburgo, nomeadamente na capital do país, a cidade do Luxemburgo, junto à pastelaria que decidiu colocar os alimentos no lixo. O caso ocorreu em abril de 2016 e foi denunciado por um utilizador do Facebook, que lamentava o desperdício e dizia que o pão parecia ter acabado de ser retirado da prateleira quando muitos não tinham o que comer.

A fotografia do alegado desperdício foi denunciada por um utilizador do Facebook em 2016

O jornal Luxemburger Wort — um jornal luxemburguês de língua alemã — contou na altura a história, dando a versão do estabelecimento. A pastelaria, com o nome Cathy Goedert, explicou que o pão não era comestível e já tinha sido utilizado como “material de decoração durante vários meses” no momento em que foi colocado no lixo. A pastelaria admitiu, no entanto, que foi um erro de um funcionário o facto de o pão ser ali colocado daquela forma. Num comunicado à imprensa, a pastelaria disse ainda que tudo faria para que aquilo não voltasse a acontecer e garantiu que o pão que não conseguem vender e não é consumido é distribuído a “sem-abrigo” ou aos trabalhadores para levarem para casa.

Por último, há uma terceira fotografia que corresponde, precisamente, a uma campanha contra o desperdício alimentar no Reino Unido. A fotografia foi tirada por Chris King no âmbito da campanha Stop The Rot, que visou alertar para os sete milhões de toneladas de desperdício de comida na cadeia de produção no Reino Unido antes de chegar ao consumidor. Esta ação, promovida pela organização This is Rubbish, desenvolveu ações junto das quatro maiores cadeias de supermercados para avaliar o desperdício e estratégias para o reduzir. A campanha foi considerada um sucesso pelos seus promotores . Quanto à data e local fotografia foi tirada no Reino Unido em 2017.

Fotografia faz parte de campanha “Stop the Rot”.

Em Portugal há campanhas similares para evitar o desperdício alimentar. Só o projeto Fruta Feia, por exemplo, evitou que, nos seis últimos anos, duas mil toneladas de frutas e legumes fossem parar ao lixo somente devido à sua aparência. E ainda colocou nas mãos dos 235 agricultores parceiros cerca de um milhão de euros.

Fruta Feia já tirou duas mil toneladas do lixo e entregou um milhão de euros aos agricultores

Conclusão

Ao associar as “desculpas do controlo alimentar” a fotografias que alegadamente mostram desperdício alimentar, o utilizador sugere que as fotografias são de momentos atuais e que foram tiradas em Portugal. Na verdade, as fotografias foram tiradas em 2016, no Luxemburgo, em 2017, no Reino Unido, e em 2018, no Canadá. Nenhuma delas retrata, aliás, de forma inequívoca um desperdício: numa delas os produtos são utilizados para produzir ingredientes para rações, noutra tratavam-se de pães utilizados durante meses para efeitos decorativos e outra era uma fotografia de comida que foi resgatada e reaproveitada num âmbito de um programa que combate o desperdício. O facto de o utilizador dizer que isto está a ser feito “quando há gente a morrer à fome” sugere que as fotografias se referem a um momento atual. Foram tiradas há dois ou mesmo há quatro anos e em três países diferentes. O que torna a publicação, como um todo, enganadora.

De acordo com o sistema de classificação do Observador este conteúdo é:

ENGANADOR

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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