Uma publicação do Facebook que pretende sugerir uma cura alternativa para a Covid-19 refere que o novo coronavírus “tem uma vibração de 5,5 hz” e que morre “acima de 25,5 hz”. Por essa razão, o post, que dá a entender que os sentimentos e emoções humanas emitem vibrações que podem enfraquecer o coronavírus, apela a que se “vibre mais alto” e que não se olhe “constantemente para as notícias”, porque isso provoca sentimentos como o medo ou raiva, que levam a uma redução da “frequência”. “Para os seres humanos com vibração mais alta, o vírus é uma gripe simples”, defende o texto. Físicos dizem que não há qualquer evidência científica de que o vírus seja destruído com vibrações. Ou seja: a publicação é falsa.

Em certas versões desta publicação, é citado Power vs. Force, de David R. Hawkins. Psiquiatra de formação, Hawkins trabalhou durante cerca de 30 anos em vários hospitais da zona leste dos Estados Unidos da América. Abandonou a profissão algures nos anos 80 para se dedicar à autoajuda e à espiritualidade, áreas em que ficou conhecido, mas a sua formação médica continuou a ser referida para dar credibilidade ao seu trabalho. Segundo a sua editora, a Veritas Publishing, fundou, em 1983, o Institute for Spiritual Research, Inc., sobre o qual não foi possível encontrar qualquer informação.

Post do Facebook que alega que é necessário “vibrar mais alto” para vencer o novo coronavírus

Em 1995, publicou o livro que o tornou famoso, Power vs. Force, em que desenvolveu a teoria do “mapa da consciência”, uma tabela que atribui medidas de frequência em hertz aos sentimentos humanos. No post do Facebook, este é descrito como “altamente técnico”, mas repleto de “informação muito atual e incrivelmente transformadora”, apesar de, segundo refere o texto, ter sido escrito em 1995. Nenhuma das informações reunidas por Hawkins em Power vs. Force tem base científica.

O mesmo se pode dizer da publicação que circula há vários meses nas redes sociais. O físico Carlos Fiolhais explicou ao Observador que “não há qualquer evidência de que as vibrações ou sinais acústicos tenham uma ação destrutiva sobre o vírus“. Sobre a afirmação de que a Covid tem uma vibração de 5.5 Hz, o professor catedrático do Departamento de Física da Universidade de Coimbra é claro: “A Covid não tem vibração. A Covid é uma doença e as doenças não têm vibração“.

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Carlos Fiolhais explica que, sendo hertzs, estamos a falar de sons e “o som não destrói, pode é pôr alguma coisa a mover-se.” No limite, colocaria “um qualquer vírus a saltar”, nunca o destruiria. O cientista co-autor (com David Marçal) do livro “Apanhados pelo Vírus – Factos e mitos acerca da COVID-19″, que será lançado este mês, explica que na publicação “são utilizados termos da física, que existem e que são verdadeiros, mas para dar mais credibilidade à mentira”. E cita o poeta António Aleixo: “Para a mentira ser segura e atingir profundidade tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade.”

Reiterando que “é mentira que os vírus sejam afetados por esses fenómenos físicos”, Carlos Fiolhais lembra que “é muito comum que propagadores de notícias falsas utilizem o jargão da ciência”. “É como uma pessoa que veste bata branca para fingir que é médico”, acrescenta o físico. Carlos Fiolhais escreveu um livro precisamente para combater “boatos” e “mitos” como este, explicando  que “o delírio vai ao ponto de pessoas acharem que ficam curadas por tocarem no ecrã, que mostra um charlatão do outro lado”. E conclui: “Temos uma pandemia agravada pela infodemia.”

Não é a primeira vez que esta informação é verificada. Também o Comprova, um projeto de fact checks que colabora com jornais brasileiros, como O Estado de São Paulo e o Folha de S. Paulo, verificou esta informação e falou com dois professores das áreas da física e mecânica e ambos concordaram que o texto não tem qualquer comprovação científica. “[O post] usa termos da física para parecer verdadeiro, mas não tem nenhuma evidência experimental”, afirmou Glaucius Oliva, do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP).

Já Juan Pablo Raggio Quintas, professor do curso de Engenharia Mecânica da Universidade Rio Grande do Sul (IFSC), esclareceu ao Estado de São Paulo que, “na engenharia, medem-se frequências relacionadas com componentes ou estruturas: máquinas, estruturas civis e até do corpo humano. (…) Na engenharia, trabalha-se com factos concretos, que podem ser medidos. Números que representam grandezas físicas: velocidade, aceleração, força, deformações, etc.. As emoções não são grandezas físicas”, salientou.

Além disso, como aponta o Comprova, Hawkins morreu em 2012, logo nunca poderia ter atribuído uma vibração ao novo coronavírus, que só apareceu sete anos depois.

Conclusão

Não existe qualquer dado científico que sustente a ideia de que as emoções emitem frequências em hertz e que o novo coronavírus pode ser destruído com vibrações acima dos “25,5 hz”. O post que circula no Facebook parece ter por base a teoria desenvolvida nos anos 90 por David R. Hawkins, um autor norte-americano da área da autoajuda e da espiritualidade. O livro onde Hawkins desenvolveu este conceito, Power vs. Force, é, aliás, citado nalgumas versões desta publicação e para sustentar esta teoria. Além de Hawkins ter morrido sete anos antes de ter sido identificado o novo coronavírus, o seu estudo não foi validado pela comunidade científica.

Assim, de acordo com a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

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