Depois de uma semana em que foram batidos vários recordes de temperaturas negativas no estado do Texas, nos Estados Unidos, vários utilizadores do Facebook questionaram a existência do aquecimento global.

Na rede social, os utilizadores partilharam notícias e imagens relativas à vaga de frio com frases que colocavam dúvidas sobre a veracidade das alterações climáticas. Nestas publicações, as pessoas estranhavam as temperaturas negativas recorde, quando os cientistas defendem que o planeta está, em média, mais quente.

As temperaturas chegaram aos 20 graus negativos no estado do sul dos EUA, numa altura do ano em que, de acordo com a BBC News, deviam rondar os 15 graus na região. A televisão norte-americana CBS chegou mesmo a avançar que, num dos dias da vaga de frio, as temperaturas em Dallas eram mais baixas do que em Anchorage, no Alaska. Para efeitos de comparação, é importante saber que a temperatura mínima média registada durante o mês de fevereiro em Dallas é de 5,1º e em Anchorage é de -10,1º. A vaga de frio no Texas levou à morte de dezenas de pessoas e pelo menos 5 milhões de texanos ficaram sem eletricidade.

Frio intenso e cortes de energia já mataram pelo menos 30 pessoas nos Estados Unidos da América

De acordo com o Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos, o frio sentido no Texas veio do Ártico. “Esta vaga de frio que atingiu o território continental dos Estados Unidos está ligada à combinação de um anticiclone ártico com temperaturas geladas e uma depressão muito ativa com ondas de precipitação.”

Pode parecer um contra-senso que o aquecimento global provoque episódios de frio extremo. Mas, se olharmos para a tendência global e não apenas para um acontecimento específico, vemos que, de acordo com dados do Programa de Investigação à Mudança do Planeta dos Estados Unidos, a década entre 2000 e 2010 foi a mais quente de que há registo nos Estados Unidos. Os recordes de temperaturas altas superam os das temperaturas baixas num rácio de 2:1.

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Ao Observador, o presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável e especialista na área das alterações climáticas, Filipe Duarte Santos, explica que com a maior absorção de energia solar no Ártico, provocada pelas alterações climáticas, a temperatura da região aumenta. Isto leva a que sejam libertadas grandes quantidades de ar frio, que hoje em dia viaja para latitudes onde antes não chegava. O fenómeno chamado “corrente de jato” está mais irregular por causa das alterações climáticas.

É como se fosse um rio. [Por causa do aquecimento global] A corrente de jato hoje em dia dá voltas maiores e desce a latitudes mais baixas, para onde leva o ar frio do Ártico e os temporais. Foi isso que se passou”

Filipe Duarte Santos explica mesmo que, apesar da subida da temperatura média da Terra, as alterações climáticas não são apenas caracterizadas por eventos de muito calor. O cientista sublinha que o aquecimento global também traz consigo eventos de frio extremo, como foi o caso do Texas.

O que nós temos é um clima zangado. Há muito menos estabilidade do que no passado. Temos eventos extremos de temperatura e de precipitação.”

Para o especialista na área das alterações climáticas, há uma “grande probabilidade” de a vaga de frio no Texas ter surgido como consequência do aquecimento global.

Filipe Duarte Santos fala em probabilidades porque não é possível atribuir um evento extremo ao aquecimento global. Quando se fala de alterações climáticas, só é possível dizer se o aquecimento da temperatura média da Terra contribuiu para as condições pré-existentes que levaram a um evento extremo. O aquecimento global não é causa única.

Quanto ao aquecimento global e à influência humana no fenómeno, são factos reconhecidos pela comunidade científica. Foi no ano 300 a. C. que o filósofo Teofrasto documentou que a atividade humana pode afetar o clima. Há 200 anos, o matemático francês Jean-Baptiste Joseph Fourier sugeria que algo na atmosfera estava a deixar o mundo mais quente do que o normal — eram os gases de efeito estufa.

Em junho de 1992, 154 estados assinavam a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, um documento que mostrava a crescente preocupação com as mudanças do clima a nível global e onde estes país reconheciam a influência humana no planeta. No documento lêem-se as seguintes palavras:

Reconhecendo que a alteração do clima da Terra e os seus efeitos negativos são uma preocupação comum da humanidade; preocupadas por as atividades humanas terem aumentado substancialmente na atmosfera as concentrações de gases com efeito de estufa e pelo facto de esse aumento estar a acrescer o efeito de estufa natural, o que irá resultar num aquecimento médio adicional da superfície da Terra e da atmosfera, podendo afetar adversamente os ecossistemas naturais e a humanidade.”

Já em 1995 o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas concluía pela primeira vez na história que as evidências científicas apontavam que o ser humano estava a causar o aquecimento global. Mais de 10 anos depois, as evidências eram confirmadas. Em 2007, o organismo apontava certezas sólidas de que a humanidade era a culpada pela maior parte do “inequívoco” aquecimento do clima observado nos últimos 50 anos.

Em dezembro de 2020, o planeta estava 1,18ºC mais quente do que antes da era industrial. Os últimos seis anos foram os mais quentes alguma vez registados.

Conclusão

Quanto ao aquecimento global, é um facto reconhecido pela comunidade científica. O Serviço de Monitorização das Alterações Climáticas do Copernicus considerou 2020 o ano mais quente de que há registo.

Assim, as várias publicações feitas no Facebook sobre a vaga de frio no Texas mostrar que o aquecimento global não existe não são baseadas em factos.

Segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook 

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