Uma publicação no Facebook, de 9 de abril, dava conta de uma suposta relação entre o lançamento das redes 2G, 3G, 4G e 5G e o surgimento de diversos vírus como a Covid-19 ou o MERS. Esta teoria de que a atualização das tecnologias wireless (sem fios) são uma das causas da pandemia de Covid-19 que agora vivemos tem sido uma das mais espalhadas pelas redes sociais desde o início do ano. Conta já com 43,6 mil visualizações e 1,9 mil partilhas. Esta publicação é, no entanto, falsa.

Uma das publicações que espalha as teorias da conspiração dá a Wikipedia como fonte das datas das pandemias. Mas estas não têm qualquer relação com o vírus.

Primeiro, convém dizer o que são todos estes G’s: infraestruras de redes sem fios, através das quais os dados são transmitidos por ondas de rádio, entre uma antena e os nossos telemóveis. Agora, é necessário primeiro explicar a teoria que tem sido propagada sobre a hipótese de serem os efeitos da radiação emitida pelo 5G a causar milhares de infetados pelo mundo inteiro atualmente, e não a infeção do novo coronavírus.

Esta tecnologia começou a ser implementada no ano passado e representa uma evolução tecnológica comparativamente à versão anterior e que é a usada atualmente, o 4G. A sua rapidez e amplitude vai permitir acelerar uma série de inovações tecnológicas, como permitir que os carros andem mais facilmente sem condutor, que haja operações médicas feitas à distância ou que os nossos eletrodomésticos estejam todos ligados à internet e a uma aplicação no nosso telemóvel. Os rumores sobre os impactos que tudo isto poderá ter na saúde das pessoas não são de agora.

Durante este ano, surgiram várias notícias sobre os eventuais efeitos negativos que a radiação emitida pelo 5G poderia ter. Houve até protestos contra essa tecnologia, que depois surgiram partilhados no YouTube,e que tiveram como consequência o incêndio de várias antenas em Birmingham, Liverpool e Melling, tudo no Reino Unido, como reportado pela BBC a 4 de abril. Segundo o New York Times, este tipo de incidentes chegou aos 100 casos no Reino Unido.

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Os protestantes defendiam a teoria de que o 5G estava ligado ao rápido alastrar da infeção pelo novo coronavírus. Mas até no próprio Reino Unido já existem meios de comunicação social que estão a desmentir esta teoria, como acontece com um Fullfact. Num artigo do Fulifact sobre a temática, existem duas teorias possíveis: a de que o 5G suprime o sistema imunitário e, segundo, que os vírus comunicam por ondas de rádio. Segundo este site, não há nenhuma evidência que comprovem ambas as teorias. “Estas teorias são lixo”, comentou Simon Clarke, professor associado em microbiologia celular na Universidade de Reading, noutro artigo, citado pela BBC.

Até porque o nível máximo de radiação electromagnética registado até agora no país pela Ofcom (regulador das comunicações britânico) é 66 vezes mais pequeno do que os limites de segurança, segundo as orientações internacionais, como escreve o FullFact.

Depois, segundo a Organização Mundial de Saúde, citada pela agência Reuters, o grau de exposição desta nova rede é semelhante à das redes anteriores. No entanto, como esta tecnologia está a ser estudada, “alterações à exposição desses campos magnéticos estão ainda em desenvolvimento”, lê-se no site da OMS. Neste documento, é possível também ler o seguinte: “Até à data, depois de efetuada muita pesquisa, não foi possível encontrar um efeito nocivo para a saúde do 5G, relativo à sua exposição através de tecnologia wi-fi”. A OMS garante ainda que será publicado um relatório sobre os possíveis riscos desta rede em 2022.

Ainda assim, não há um consenso em torno desta tecnologia. Por exemplo, na Suíça, um dos países mais destacados nesta corrida tecnológica, o 5G estava prestes a ser iniciado mas não foi para a frente. E porquê? Porque a Bafu, agência ambiental suíça, enviou uma carta ao governo na qual se mostrava preocupada com os possíveis efeitos, até à data desconhecidos , que o 5G poderia ter para a saúde pública com o grande aumento dos campos eletromagnéticos que esta tecnologia estava a criar, como noticiou o Financial Times em fevereiro deste ano. Precisava, por isso, de mais testes. As normas suíças estão em linhas com as europeias mas, no entanto, têm medidas preventivas ligeiramente mais restritivas quanto aos níveis de exposição a radiação.

Por agora, o único consenso na Europa, entre várias comissões que estudam esta matéria do 5G, é a de que esta radiação móvel aumenta a temperatura dos tecidos corporais. No entanto, existem outras entidades científicas que defendem que a exposição à radiação durante longos período de tempo pode ter consequências na saúde das pessoas. Por exemplo, em 2014, a Agência Internacional da Pesquisa sobre o Cancro classificava os campos magnéticos produzidos pelos telemóveis como possivelmente cancerígenos para os humanos – o que está em linha com outras investigações, reportadas pelo The Guardian o ano passado.

Portanto, a corrida à melhor tecnologia sem fios exige um enorme jogo de forças entre a comunidade científica, as operadoras e o poder político, onde os resultados de investigações se vão alterando, uns vão tornando-se públicos e outros nunca veem a luz do dia. Mas sobre o 5G ainda não é possível retirar qualquer tipo de relação conclusiva quanto aos seus efeitos nocivos que poderá ter ou não na saúde pública.

Foquemo-nos agora na imagem partilhada. É possível ver diferentes datas que estabelecem um paralelo errado com os vírus. Por exemplo, no caso da gripe espanhola, segundo a publicação, surgiu em 1918 e prolongou-se até 1920, coincidindo com o início das antenas rádio na América e na Europa. É, de facto, verdade que a gripe espanhola começou em 1918 e terminou em dezembro de 2020.

No entanto, as primeiras transmissões comerciais de rádio foram desenvolvidas entre 1895 e 1896 por Guglielmo Marconi, sendo que foi depois usada, de forma generalizada, em 1900. Ou seja, 18 anos antes do surgimento da gripe espanhola que não surgiu na China, mas sim nos Estados Unidos, inicialmente.

Continuando a olhar para a imagem, a gripe asiática (H2N2) surgiu em 1957 com a duração de um ano. Começou em Singapura, passou para Hong Kong e no verão desse ano já estava nos Estados Unidos da América, matando cerca de 1,1 milhões de pessoas em todo o mundo. A China Central Television (CCTV), televisão do estado e única cadeia de televisão que existe no país foi lançada em 1958, com imagens a preto e branco. Ou seja o início da transmissão de televisão e do surto não têm a mesma data de arranque.

Sobre o vírus do SARS, segundo a Organização Mundial de Saúde, o seu surto começou, de facto, em Guangdong, na China, em 2002. Só que o lançamento da rede 2G foi feita em 1991 pelas mãos da Globam System for Mobile Communications, mais propriamente na Finlândia. Ou seja, dez anos antes do surto de SARS ter sequer começado.

Já quanto ao vírus H1NI, que deu origem à Gripe A também não é possível estabelecer uma relação, como verificado pela agência Reuters. É que o 3G foi introduzida no Japão em 2001, depois seguiu para os Estados Unidos da América um ano depois e, finalmente, chegou à China em 2008.

Já o vírus da Gripe A surgiu em abril de 2009 no México e nos Estados Unidos e não na China. Mas só em junho do mesmo ano é que a OMS declarou o estado de pandemia relativo a este vírus. Ou seja, o lançamento do 3G é bastante anterior ao início do surto do H1N1.

Em dezembro de 2009 seria lançado o 4G em Estocolmo, na Suécia e em Oslo na Noruega. A partir de abril de 2010, 36 cidades nos EUA tinham essa rede móvel, mas também já estava instalado na Finlândia. 4 anos depois estaria disponível em dez países à volta do mundo. O primeiro caso de MERS-CoV foi identificado na Arábia Saudita em 2012, muito depois do lançamento do 4G, como também verificado pela agência Reuters. Ou seja, este vírus também não começou na China.

Conclusão

A tecnologia sem fios 5G está ainda em fase de desenvolvimento em muitos países do mundo e não há certezas quanto aos efeitos nocivos que poderá ter (ou não) na saúde pública. São muitas as publicações na internet que dão conta de uma possível ligação entre a Covid-19 e essa rede móvel, tanto para o aumento do número de infetados, como para a possibilidade dessa tecnologia ser a real razão para esta pandemia. No entanto, muitos sites de fact check têm desmentido essa ligação. Quanto à imagem publicada no Facebook que estabelecia uma possível relação entre os vários surtos de vírus no mundo e as várias tecnologias wireless também não se verifica essa correlação. Não há base científica comprovada, nem na imagem, nem na verificação que o Observador fez. As datas nem sequer coincidem.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador este conteúdo é:

ERRADO
De acordo com a classificação do Facebook, este conteúdo é:
FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota 1: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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