Uma publicação viral, partilhada no dia 15 de agosto, dava conta do alegado desprezo dos media ao homicídio de uma criança de cinco anos por um homem de 25 anos, nos Estados Unidos da América. O post realçava igualmente uma alegada ausência de “polémica” e de reação por parte de várias associações e movimentos, questionando a falta de “um manifesto dos justiceiros sociais no Twitter”, de um “pronunciamento do SOS Racismo” ou de um “comunicado do Black Lives Matter” (BLM). A publicação chegou às 79,1 mil visualizações e às 1,4 mil partilhas. Trata-se, no entanto, de uma publicação que não está correta.

O assassinato a tiro de Cannon Hinnant, de cinco anos, da Carolina do Norte, ocorreu, de facto, este mês. Mas foi noticiado e o caso foi acompanhado nos dias que se seguiram por vários órgãos de comunicação social, tanto portugueses –  como o Observador e o Correio da Manhã -, como  estrangeiros. CNN, The New York Times, The Washington Post, Associated Press, People, USA Today, The Daily Beast, Buzzfeed News, entre outros, todos noticiaram o caso. Não é verdade que este crime tenha sido “desvalorizado pelos media”, como argumenta o autor da publicação original.

Por outro lado, não há referências nas notícias divulgadas à cor da pele dos visados, quer da vítima (criança caucasiana), quer do homicida (Darrius Sessoms, negro). Mas isso não permite concluir que o caso tenha sido menorizado ou desprezado, ainda que esse pareça ser um dos argumentos utilizados pelo autor para criticar os media. Sobretudo depois do homicídio de George Floyd, em maio passado, que desencadeou uma forte reacção mundial, assiste-se a um grande debate nos media norte-americanos sobre a existência ou não de uma diferença de tratamento em relação a este tipo de casos. Ou seja, quando um homem branco mata um homem/mulher negro/a, o caso torna-se mediático, mas quando acontece o contrário, o caso recebe menos atenção mediática, argumenta-se.

No passado dia 17 de agosto,  a revista Forbes publicou um longo artigo a propósito deste caso, refletindo sobre a controvérsia gerada pela alegada diferenciação de tratamento deste caso pelos media e colocando a comunicação social em confronto com as alas mais conservadoras da política norte-americana. Além de ser ainda desconhecido aquilo que poderá ter motivado o crime, a Forbes refere que o pai da criança, Austin Hinnant, terá dito ao jornal local The Wilson Times não acreditar que houvesse “intenção racial” no crime, até porque os dois eram vizinhos e ele até tinha convidado Sessoms, o autor do crime, para beber uma cerveja em sua casa. O caso, contudo, ainda está em investigação, não sendo possível retirar conclusões.

A falta de reação dos movimentos sociais foi referida por Tucker Carlson, apresentador do canal de televisão conservador norte-americano Fox News, quando o nome da criança foi divulgado. Foi Carlson que questionou  “onde estava a indignação” com a morte de Cannon Hinnat  e porque é que o caso estava a ser alegadamente desprezado. Refira-se, no entanto, que uma coisa são manifestações de indignação nas ruas e apelos e comunicados de associações ou movimentos, e outra é o tratamento noticioso que deve cingir-se aos factos. Uma distinção entre movimentos sociais e o papel dos media que esta publicação no Facebook também não faz.

Conclusão

Um utilizador do Facebook publicou um post onde se queixava que os media teriam menosprezado o assassinato de uma criança de cinco anos, nos Estados Unidos, por que ela era branca e o homicida era negro.  Este caso teria sido alvo de um tratamento diferente por parte da imprensa, comparado com outros crimes cometidos contra negros – como o de George Floyd. Mas não é verdade que o homicídio desta criança tenha sido menosprezado pelos media, tendo sido noticiado e acompanhado por vários órgãos de comunicação social norte-americanos, mas também por outros, no resto do mundo, como foi o caso do Observador, ou do Correio da Manhã, em Portugal. Nas notícias não houve referências ao facto de a vítima ser branca e o assassino negro, mas isso não permite concluir que o caso tenha recebido tratamento diferente. O autor da publicação, além disso, mistura a indignação que decorre de movimentos sociais com o tratamento jornalístico dos acontecimentos. A informação não está fundamentada e não é correta.

Assim, segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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