A história por trás desta publicação circula, pelo menos, desde o início do milénio, quando John Howard ainda era primeiro-ministro australiano. A publicação feita na página “Sobrepujar a pátria”, no dia 4 de maio de 2019, já conta com 4,8 mil comentários e mais de 32 mil partilhas, mas sobra ainda alguma coisa verdadeira no texto que acompanha a imagem de uma jovem vestida de calças de ganga e top preto, com uma mulher a usar niqab em pano de fundo?

A fotografia é de Dayane Mello, uma concorrente do reallity show italiano “Isola dei Famosi” (Ilha dos Famosos, na tradução direta) e foi publicada no jornal italiano Libero Quotidiano a 7 de fevereiro de 2017, numa notícia que dava conta da eliminação da concorrente do programa de televisão. E porquê a associação da fotografia a um discurso do primeiro-ministro australiano? A explicação está na mulher que surge em segundo plano na fotografia e a suposta política que os australianos estão a implementar contra a comunidade islâmica.

O texto que acompanha a imagem começa por dizer que os “muçulmanos que querem viver sob a lei islâmica Sharia receberam ordens para deixar a Austrália, a fim de prevenir possíveis ataques terroristas”, para depois acrescentar que o “primeiro-ministro John Howard chocou alguns muçulmanos australianos” com declarações. Em momento algum se esclarece quando as declarações foram proferidas, nem que John Howard já não ocupa o cargo de primeiro-ministro do país.

E foi John Howard que proferiu a frase? De facto, em 2005, uma notícia da agência Reuters, no TheNew York Times citava o então primeiro-ministro australiano, John Howard, a apoiar que as autoridades governamentais pudessem espiar as mesquitas, numa tentativa de reduzir o crescimento do terrorismo no mundo.

Na mesma notícia o ministro da educação australiano Brendan Nelson diz que “os muçulmanos que não apoiam os valores australianos devem deixar o país”, contrariando a publicação que atribui esta frase a John Howard.

Todo o discurso que se segue, erradamente atribuído a John Howard, é de um veterano da Força Aérea Norte Americana, Barry Loudemilk, e foi escrito num jornal local, no estado da Georgia, logo após os ataques do 11 de setembro sob o título “Isto é a América, gosta dela ou sai”.

Conclusão

É falso que os muçulmanos que queiram viver sob a lei islâmica tenham recebido ordens para deixar a Austrália. Em 2005, o primeiro-ministro australiano autorizou que as mesquitas do país fossem espiadas por autoridades governamentais, para tentar conter o crescimento do terrorismo no mundo, mas nenhuma das frases que lhe são atribuídas na publicação são dele. Uma é do então ministro da educação australiano e todo o texto que acompanha a imagem é de um texto de um veterano norte-americano, escrito num jornal local na Geórgia, logo após os atentados do 11 de setembro, em nada tem que ver sequer com a Austrália.

No sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

Falso

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de factchecking com o Facebook e com base na proliferação de partilhas — associadas a reportes de abusos de vários utilizadores — nos últimos dias.