Um utilizador do Facebook partilhou a 29 de dezembro um conteúdo que consiste numa imagem descontextualizada e num texto com factos falsos. O post em causa já foi partilhado pelo menos 400 vezes.

A referida imagem é uma ilustração com três figuras humanas: um homem negro à esquerda (em cujas vestes está preso um “passaporte” azul com as estrelas da União Europeia), uma mulher branca à direita (praticamente nua) e uma criança negra nos braços dela. Em fundo, observa-se uma representação da bandeira da Letónia e da bandeira do arco-íris LGBT.

Imagem partilhada a 29 de dezembro no Facebook

O texto respetivo é assinado por “José Luiz” e sustenta que a ilustração foi escolhida pela Organização das Nações Unidas (ONU) para capa do “Plano Global de Migração” assinado em Marraquexe em 2018. Na verdade, o título do documento é “Pacto Global para a Migração”, ou “Pacto Global para a Migração Segura, Ordenada e Regular”.

“Esta capa define de forma óbvia e flagrante qual é o verdadeiro e único objetivo do Pacto de Migração da ONU para a Europa: a miscigenação de homens negros com mulheres brancas e louras de que resultem mestiços”, lê-se no post. Segue-se um conjunto de alegações sobre “o fim da raça branca europeia”, com base num suposto “Plano Kalergi”, que tem sido descrito como uma teoria da conspiração alimentada pela extrema-direita e com origem na década de 1920.

Excerto do post em análise

Não cabendo verificar aquelas alegações – eventualmente pertencentes ao domínio da opinião, ainda que possam ser consideradas fantasiosas –, merece análise um suposto facto concreto referido no post: que a ONU escolheu aquela imagem para capa de um documento oficial. Trata-se de um facto falso.

O Pacto Global para a Migração foi negociado sob os auspícios da ONU e estabelecido em dezembro de 2018 durante uma cimeira intergovernamental na cidade de Marraquexe, em Marrocos – onde também esteve presente o primeiro-ministro português, António Costa. Não é um tratado nem um documento juridicamente vinculativo, mas um pacto de cooperação internacional, afirmou na ocasião António Guterres, secretário-geral da ONU. Em agosto de 2019, o teor do acordo começou a ser implementado em Portugal.

À data de hoje, o texto que consta no site da ONU não tem nenhuma imagem incluída, seja como capa, seja no interior. O que se encontra é um documento de 34 páginas em formato PDF, escrito em inglês e apenas com texto, sob o título “Global Compact for Safe, Orderly and Regular Migration”.

Ou seja, a imagem em causa nada tem que ver com a ONU. Surgiu originalmente em julho de 2018 na página de Facebook de um partido residual da Letónia, o Partido Operário Social-Democrata (LSDSP), e causou controvérsia no país. Um portal de notícias ligado à TV3, canal privado de televisão da Letónia, noticiou o caso à época, acrescentando que a liderança do LSDSP tinha repudiado o post e prometido expulsar a pessoa responsável pela publicação. O site de notícias pró-russo Sputnik também deu notícia dos acontecimentos em 2018.

A imagem foi alterada a partir de uma ilustração ou pintura da autoria do obscuro artista plástico Herbert Smagon, que a criou em 1988 sob o título “Modern Family”. No original, não constam quaisquer bandeiras atrás das personagens. Nos últimos meses, a imagem tem surgido nas redes sociais e em vários blogues, quase sempre adulterada com mensagens e interpretações de cariz nativista ou xenófobo.

Conclusão

Não há base factual na alegação de um post do Facebook de que a ONU fez publicar, num acordo intergovernamental de 2018 sobre migrações, uma imagem de alegado apoio à miscigenação. A imagem está descontextualizada e o acordo da ONU contém apenas texto. O mesmo post veicula, sem fundamentar, predições relacionadas com um suposto plano que contribuiria para “o fim da raça branca europeia”.

Assim, segundo o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

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