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Uma das frases que mais tenho lido e ouvido desde que a secção DOR foi lançada, há precisamente um mês, é esta: “A dor é invisível”. Dizem-nos doentes, mas também médicos, enfermeiros, fisioterapeutas. Mais do que um sintoma de alerta e que nos protege do perigo, a dor pode tornar-se crónica, incapacitante, limitadora… |
Se é certo que já se fala muito mais em dor atualmente do que há várias décadas, o médico anestesista José Manuel Caseiro contou, na primeira pessoa, à jornalista Sofia Teixeira, o que o levou a escolher esta especialidade. Cedo percebeu que “a dor era desvalorizada”, tanto enquanto aluno de medicina, como depois de licenciado. Entretanto, bastaram quatro meses a trabalhar no serviço de Cirurgia do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, para perceber que tinha razão: “Era desvalorizadíssima. Aquilo era penoso de ver. Os médicos eram excelentes — era um ótimo serviço de cirurgia, mas o pós-operatório era sempre conduzido pela premissa de que ‘a dor não mata, o importante é que o doente esteja bem operado’ Aquilo fazia-me imensa impressão”. Na altura de realizar o exame de acesso à especialidade, “e para surpresa de muitos colegas”, escolheu anestesiologia. Não se arrependeu. São mais de 40 anos numa área em que não é possível trabalhar “em part-time”. Confessa que os desafios são os mesmos de há quatro décadas pois o caminho de tratamento da dor crónica não é fácil. |
Considerando que “a dor nunca é aceitável” e que “o alívio do sofrimento que causa é um dever ético do médico e um direito do doente”, defende que não é possível fazer consultas de dez minutos, pois o tempo ajuda a conhecer a história dos doentes e a criar relação com o médico. Melhor do que este resumo, o melhor é mesmo ler este texto, com fotos do fotojornalista Francisco Romão Pereira, aqui. |
A dor pode condicionar a vida familiar, social e profissional. Quem a sente, sabe avaliar a “sua dor, que é diferente da dor dos outros”, como afirma o médico anestesista da Unidade de Dor da ULS Santo António, no Porto, José Romão, no Explicador dedicado aos vários tipos de dor e que nos diz que esta “não se vê, nem se palpa, só se sente”. Pode ler aqui. |
Este mês damos também destaque à dor neuropática no podcast “Conversas sobre Dor”, falei com a médica anestesiologista Dalila Veiga. Este tipo de dor, nem sempre facilmente reconhecido pelos doentes, pode vir associada a formigueiros, sensação de queimadura, de picadas, e acontece quando o sistema nervoso entre em “curto-circuito”. O problema? Podem passar-se anos até ser fechado um diagnóstico, conduzindo a atrasos no tratamento, e à perda de anos com qualidade de vida, para os doentes. |
Mónica Rebelo é voluntária na Associação de Doentes com Lúpus, doença com a qual foi diagnosticada aos 30 anos. Apenas cinco anos depois foi reformada por invalidez. “Não por ter pedido. Não por ter deixado de ter capacidades. Mas porque, aos olhos do sistema, deixei de encaixar, deixei de ter “valor”. E dessa forma, vi-me forçada a parar. Parar o ritmo, os projetos pessoais, uma vida profissional que, apesar dos obstáculos, fazia questão de manter”, relata no antigo de opinião que escreveu para o Observador. Apesar de ter falado com a entidade patronal sobre a sua doença e da necessidade pontual de faltar ao trabalho para ir a consultas de rotina, tudo mudou quando precisou de baixa prolongada. “As empresas não querem pessoas doentes”, afirma. |
“A minha dor não me define” é o título do artigo de opinião de Susana Fonseca, presidente da MulherEndo, Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose, que aponta os oito a dez anos de demora, em média, a diagnosticar a endometriose e a adenomiose, duas doenças ginecológicas. Também ela foi diagnosticada com endometriose e sentiu o peso do silêncio. “Com o passar dos anos, e com essa sintomatologia desvalorizada por profissionais de saúde, a sensação de que era diferente das restantes adolescentes cravou em mim a ideia de que era fraca e piegas. Acrescendo a dores que me deixavam de cama, que me impediam de caminhar, que me faziam chorar e gritar de desespero veio também a dúvida: vale mesmo a pena viver assim?”. |
A também autora do livro “A Barriga Estragada da mamã” aborda as conclusões do recente estudo promovido pela associação que preside, em parceria com a Sociedade Portuguesa de Ginecologia e o financiamento da Gedeon Richter, intitulado O que sabem os portugueses sobre endometriose, integrado na campanha que tem o mesmo título da crónica que publicámos. “Foi possível perceber que 30% dos homens inquiridos [de uma amostra de 1446 pessoas] nunca ouviram falar sobre a doença e 30% das mulheres não diagnosticadas, apesar de já terem ouvido falar, não sabem exatamente do que se trata.” Também aqui se nota, com números e dados estatísticos, que a dor se torna, não raras vezes, invisível. Mas também descredibilizada, ignorada, avaliada como algo menor, como preguiça, como coisa de pessoas fracas. |
São testemunhos como lhe trazemos na nova secção DOR, dedicada a temas relacionados com a dor, respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade. Acreditamos que esta linguagem partilhada entre especialistas e doentes tem um objetivo comum: ajudar a minimizar o sintoma que todos tememos. Se se identifica, não se esqueça de ativar os alertas do DOR e desta newsletter para receber os conteúdos em primeira-mão. |
E como o tempo frio já começa a surgir, agora que aquela tempestade [com o mesmo nome que esta jornalista que vos escreve] já parece ter passado, proteja-se, agasalhe-se, e tente prevenir crises de dor que pioram com no outono e no inverno. Mas não perca os conteúdos do Observador. Gostamos de o ter por perto. |
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REPORTAGENS E ENTREVISTAS
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Dor
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Médico há cinquenta anos, a trabalhar em dor quase há quarenta, o anestesista José Manuel Caseiro acredita que os doentes têm uma resiliência notável — e que o têm ensinado a tê-la também.
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Dor
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Formigueiros, sensação de queimadura, picadas. São várias as manifestações clínicas da dor neuropática. "Pode demorar anos a ser identificada", diz a médica anestesiologista Dalila Veiga.
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Dor
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A dor não é sentida da mesma forma de pessoa para pessoa e existem vários tipos de dor. Um bom diagnóstico é o segredo para o tratamento mais correto. Cada pessoa deve ter uma abordagem única.
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OPINIÃO
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Oito a doze anos é o tempo de atraso, em média, no diagnóstico de endometriose e adenomiose, duas doenças ginecológicas. E não, não é normal ter dores na mestruação e nas relações sexuais.
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Fui diagnosticada com lúpus aos 30 anos. Tinha sonhos, objetivos e uma carreira pela frente. Viver com uma doença autoimune é viver num corpo que se volta contra si próprio, todos os dias.
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O QUE SE DIZ SOBRE DOR
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