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Quem cuida dos cuidadores?

24 fev. 2026, 10:44
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terça, 24 fev. 2026
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Fotografia de Cláudia Pinto
Cláudia Pinto

João Dias Ferreira (na foto) é médico de família na Unidade de Saúde Familiar Cova da Piedade, em Almada, mas também é paliativista e está a desenvolver um projeto ambicioso: criar um programa nacional para os cuidados paliativos, baseado na evidência científica. Tem um olhar muito próprio sobre os cuidados em fim de vida e a maneira como se pode tratar a dor. Na rubrica O que aprendi com a dor dos outros e à conversa com a jornalista Sofia Teixeira, afirma que “em cuidados paliativos é preciso ter uma sensibilidade que não se aprende. É possível ser bom cirurgião sem usar o lado mais humano, mas para ser paliativista não basta treino – tem de haver vocação”. Foram também estes valores que o levaram a cuidar da avó Teresa no último mês e meio de vida. Apesar de ter o princípio de não cuidar de familiares, sentiu que era ali que tinha de estar e optou por colocar baixa para poder acompanhá-la.

Não foi fácil ser médico de família e cuidador ao mesmo tempo. “Alimentava-a, fazia-lhe a higiene e companhia, mas também controlava os parâmetros clínicos e ajustava a medicação para lhe dar conforto. Foi muito duro”, confessa. Por outro lado, sente-se grato por poder ter feito isso por ela. Foi também um momento de aprendizagem.

Na secção DOR, dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor e respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade, publicamos conteúdos variados em que os doentes dão o seu testemunho, mas também queremos conhecer o lado dos profissionais que deles tratam. E no último mês voltámos a falar dos cuidadores no quinto episódio do podcast Conversas sobre Dor. Estive à conversa com a enfermeira Madalena Mela, do Centro Multidisciplinar de Dor Beatriz Craveiro Lopes do Hospital Garcia de Orta, sobre os desafios de quem cuida de familiares com dor crónica. O que têm de ajustar? O que nunca se deve dizer? Como dar autonomia sem proteger demasiado? Pode ouvir aqui.

Existem vários estudos sobre o impacto que esta tarefa a tempo inteiro pode ter na vida dos cuidadores. Um deles, mais recente, publicado em novembro de 2025, pela Escola Nacional de Saúde Pública, em colaboração com a RD-Portugal – União das Associações de Doenças Raras de Portugal, revela que “68% dos cuidadores informais de pessoas com doenças raras apresentam problemas de dor ou desconforto, e 72% reportam sintomas de ansiedade ou depressão. Mais de metade vive níveis moderados a elevados de sobrecarga, o que compromete o equilíbrio físico, psicológico e emocional”, pode ler-se no site da instituição. A investigação abrangeu 116 cuidadores, na sua maioria, mulheres, com uma média de idades de 46 anos, que dedicam mais de seis horas por dia a cuidar de familiares. Em 40% dos casos, esta rotina prolonga-se há mais de uma década. De entre as várias conclusões, note-se que 68% dos cuidadores informais de pessoas com doenças raras apresentam problemas de dor ou desconforto e 72% reportam sintomas de ansiedade ou depressão.

Um outro estudo, intitulado Impacto Físico e Psicológico na vida de um cuidador informal, conduzido por investigadores do Centro Interdisciplinar em Ciências da Saúde (CICS), Instituto Superior de Saúde – ISAVE, publicado também em 2025, demonstra que a maioria dos cuidadores são mulheres de meia-idade que “enfrentam uma sobrecarga física e psicológica tolerável apesar das longas horas dedicadas à prestação de cuidados, demonstrando simultaneamente confiança nas suas habilidades e satisfação no seu papel enquanto cuidadores”. Uma das conclusões que se retira dos vários estudos ligados a cuidadores informais prende-se com a “necessidade de implementação de medidas de suporte para melhorar a qualidade de vida dos cuidadores, mas também garantir que continuam a desempenhar um papel na sociedade de maneira sustentável e saudável”, lê-se no estudo.

Se tivesse de escolher a palavra que mais vezes foi dita por doentes, cuidadores ou profissionais ligados à área da dor crónica, não demoraria a responder: invisível. Há uma ideia generalizada de que este problema — que é de todos — não tem a atenção que merece. A invisibilidade começa no local de trabalho, e muitas vezes, estende-se à família e aos amigos. Nem sempre é compreendida e valorizada e isso compromete a recuperação de quem sofre com algo que “não se vê” mas que limita os dias e condiciona a vida. É precisamente (também) por isto que esta secção existe. Para ajudarmos a sensibilizar para esta doença e este grave problema de saúde pública, conforme reconhecido pela Organização Mundial de Saúde.

Se leu esta newsletter até aqui, fique mais um pouco. Deixo-lhe alguns dos conteúdos mais recentes e publicados no último mês.

REPORTAGENS E ENTREVISTAS

Fotografia
Dor

Cuidar de alguém em fim de vida: como se alivia a dor?

Para o médico de família e paliativista João Dias Ferreira, o foco do trabalho está em cuidar da dor dos doentes. Em todas as dimensões e não apenas nos sintomas físicos.

Fotografia
Dor

O que é a enxaqueca?

É uma doença neurológica frequente e incapacitante. Mas tratável. O diagnóstico precoce, o acompanhamento médico e o tratamento adequado fazem diferença. E há medidas que podem ajudar a viver melhor.

Fotografia
Profissionais de Saúde

Cuidar de alguém com dor crónica. Uma tarefa a tempo inteiro

"Há falta de formação na área da dor crónica", diz a enfermeira Madalena Mela. A especialista do Centro Multidisciplinar de Dor do Hospital Garcia de Orta alerta para o enorme desgaste dos cuidadores.

ARTIGOS DE OPINIÃO

Fotografia do Colunista
Vera Gomes

O que a dor me ensinou sobre viver

Tenho colite ulcerosa e costumo ouvir frases como “isso passa” ou “não pareces doente”. Como se a ausência de sinais visíveis fosse prova de que estava tudo bem. Mas a dor que não se vê também pesa.

Fotografia do Colunista
João Cordas

Sou médico e vivo diariamente com dor crónica

É uma entidade que não permite dormir, concentrar, funcionar e viver. A dor constante é diferente da pontual. Tenho uma doença autoimune e senti medo até ter o diagnóstico, o que demorou anos.

O QUE SE DIZ SOBRE DOR

A dor crónica dura mais nas mulheres? Um novo estudo dá a resposta
NBC News
O que os especialistas querem que saiba sobre endometriose
Australian Broadcasting Corporation
Uma enxaqueca é mais do que uma dor de cabeça
The Conversation
Um grupo de cientistas cria uma "esponja" que pode evitar que sinta dor crónica
The National Geographic Portugal
Alívio da dor crónica ao dissociar as experiências sensoriais e emocionais
Nature
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Cláudia Pinto escreve todos os meses sobre dor e quem são os profissionais e quais os tratamentos que ajudam a aliviar o sofrimento de doentes e famílias. Uma seleção do projeto do Observador totalmente dedicado ao tema da dor.

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