Para muitos profissionais de saúde, o ano de 2020 foi marcado pela maior crise de saúde global do século XXI, a pandemia de Covid-19. Para mim, foi também o despertar de um gigante adormecido. Digo adormecido porque desde os meus 14 anos fui presenteado com múltiplos episódios de inflamação de articulações e tendões. Ao contrário dos episódios dessa altura, a massagem, o anti-inflamatório, o gelo e repouso não resolviam. A dor, que no início era num só local tinha começado a surgir em zonas do corpo que nem sabia serem possíveis doer. Tornou-se constante de dia ou noite, lacerante, incapacitante. À dor juntou-se a rigidez de manhã que tornava penosa a simples tarefa de sair da cama e caminhar ou cortar um simples bife. Nesta altura era estudante no último ano de Medicina.
Lembro-me de num certo dia o desespero ser tanto que tinha esgotado todas as opções farmacológicas disponíveis e ter decidido ir ao hospital (local onde qualquer profissional de saúde só recorre em última instância). Era a única hipótese que tinha, pensei eu. Só precisava de abrandar a dor. Seguiram-se consultas atrás de consultas, de todas as especialidades e mais algumas. Aumenta a dose disto ou daquilo, zero respostas concretas em relação ao que se passava no meu corpo. Foi a primeira vez que tive medo. Medo de ter todo o conhecimento e “armas analgésicas” à minha disposição e a dor não abrandar. Surgiu o pânico, acima de tudo do desconhecido e de saber que a dor podia nunca acabar. A dor constante é diferente da pontual. É uma entidade que não permite dormir, não permite concentrar, não permite funcionar, não permite viver. Pior do que conviver com dor sem solução é ver a cara das pessoas que nos rodeiam sem saber como ajudar, numa área em que eu devia ser o farol e não elas.
Muitos profissionais depois, seguiu-se o diagnóstico de artrite psoriática, uma doença inflamatória, autoimune, com uma forte componente musculoesquelética. Felizmente a inovação médica é extraordinária e meses após iniciar terapêutica biológica, voltei à minha “vida quase normal”. Gosto de dizer “quase normal” porque apesar de ter voltado a conseguir fazer atividades que nunca pensei vir voltar a fazer, vivo diariamente com dor crónica. É aqui que a minha profissão enquanto médico é uma mais-valia. Sei o que fazer, o que tomar e tenho sempre plano B, C, até ao Z para quando a dor gosta de ficar para tomar chá em vez de perceber que está na hora de ir embora, como um convidado bem-comportado. Sei o que é agudização da doença versus efeitos secundários de remédios e isto permite-me manter uma estratégia coerente no maneio da dor.
Sei a importância do fortalecimento muscular, dos estilos de vida saudáveis e da componente stress-free [livre de stress] no controlo da dor a longo prazo. É esta experiência pessoal que tento transmitir aos meus doentes. Mais do que ser uma ferramenta de diagnóstico, muitas vezes a minha posição é certificar-me que os doentes são referenciados para as especialidades corretas, garantindo que até lá podemos encontrar uma solução para apaziguar a dor e tornar o doente funcional até ter o diagnóstico final. Esta tarefa é particularmente difícil no contexto da medicina atual. Vivemos numa altura de pressão grande no SNS: os menores tempos de consulta, a maior quantidade de doentes cada vez mais complexos e os recursos humanos que escasseiam. Estes fatores são vozes por detrás das decisões de cada médico. Apesar desta nova realidade, é fulcral ouvir a história da dor de cada doente e para isso devemos dar tempo e espaço na consulta.
A dor não é toda igual e existem estratégias específicas para cada tipo. Não há uma solução universal. Tento explicar ao doente que a estratégia que vamos aplicar muitas vezes não vai cessar completamente a dor, mas sim colocá-la num nível que torna a sua vida funcional. Para uns é o dormir, para outros é o conseguir ir trabalhar, para outros descer três vãos de escada para conseguirem ir à rua. Engane-se quem pensa que a pessoa com dor crónica tem um “ar de doente”. A dor não tem “cara” e todas as consequências de a carregar durante muito tempo provoca feridas e cicatrizes no interior, na personalidade, e não propriamente no exterior. É também este um dos pilares importante de trabalhar na esfera social e familiar.
Enquanto eterno doente gosto de dizer que vivo a vida por objetivos. Em tempos foi voltar ao trabalho e não pensar na dor, depois tolerar viagens de carro e agora praticar desporto. É importante cada doente saber o que despoleta as crises e evitá-las a todo o custo. Independentemente da profissão de cada um de nós, devemos ser sempre também, o nosso primeiro “médico”.
João Cordas tem 35 anos, possui o mestrado integrado em Medicina pela NOVA Medical School. Está a realizar o internato de Medicina Geral e Familiar desde 2024. Com interesse nas áreas da reumatologia, dor e geriatria é um dos cronistas convidados da secção Dor, dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor, respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade.
Dor é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor e respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade. Resulta de uma parceria com a FAI Therapeutics, um projeto da Ferraz Lynce (Grupo Iberfar), e tem a colaboração da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor e da SIP-Portugal. É um conteúdo editorial completamente independente.
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