Alguma vez gritou aos seus filhos? Um berro fora de controle, um grito que assustou, um tom de voz mais alterado? Já aconteceu? Não tenho estatísticas, ninguém tem, mas arriscaria dizer que a esmagadora maioria dos pais já o fez alguma vez. E que uma grande quantidade (não sei se esmagadora) se arrependeu pouco depois.
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Esperemos que não tenha acontecido hoje. Por eles (os filhos) e por vocês (os pais). Não é uma memória bonita, essa de associar o Dia da Criança a uns gritos. Mas é justamente nesta data que lhe trago uma reflexão. no capítulo das “coisas que podem correr mal na educação de uma criança” não precisa necessariamente de gritar. Há palavras que, mesmo sendo ditas sem levantar o tom de voz, podem provocar mossa. Deixam marca. Afetam a auto-estima. Prejudicam. |
“Mas tu não pensas?!”
“Isso não dói nada!”
“Não tens razões para estar triste.”
“Isso já passa.”
“Já estragaste tudo.”
“Assim não vais a lado nenhum.” |
É para estas e outras palavras que possivelmente já usámos algumas vezes com os nossos que a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) alerta precisamente hoje, num vídeo que pela manhã chegou às redações e redes sociais dos jornais. Chama-se “Escolhe Palavras que Cuidam” e chama a atenção para expressões do dia a dia que dizemos sem pensar mas que podem ter efeitos bem nefastos no bem-estar de uma criança. |
Pode ver o vídeo aqui. |
E não, isto não entra no capítulo do wokismo nem na gaveta da “coisas que hoje não se podem dizer aos meninos” nem na caixa das “crianças hiper-sensíveis que agora temos”. Nada disso. Isto, estas palavras e outras como estas, ficam apenas fora do chapéu de bom senso que podemos usar. O mesmo que agradeceríamos se alguém o tivesse aberto para nos abrigarmos de alguma falta de empatia que decerto já tivemos quando dissemos coisas daquelas. |
“A iniciativa pretende sensibilizar pais, cuidadores e todos os adultos para o impacto que as palavras podem ter no desenvolvimento emocional e social das crianças”, lê-se no press-release que acompanha o vídeo, gravado com vozes infantis. As mesmas que dizem: “As palavras dos adultos ajudam a crescer, mas também podem deixar marcas. Tu esqueces o que disseste, mas as tuas palavras ficam dentro de mim e eu acredito nelas. Antes de falares comigo, lembra-te: eu ainda estou a aprender a gostar de mim. Escolhe palavras que cuidam.” |
As últimas semanas têm sido férteis em opiniões fortes sobre crianças e bem-estar infantil, sobre negligência e maus tratos. O caso dos dois irmãos franceses abandonados pela mãe e pelo padrasto em Alcácer do Sal veio chamar a atenção para os casos que poderão ocorrer debaixo dos nossos olhos mas que por vezes não reparamos. Abandonar duas crianças de 3 e 5 anos está num patamar muito absurdo e bizarro, aquele em que ninguém consegue imaginar-se. E comparar aquilo a que os dois irmãos foram sujeitos com um berro ou com um “Mas tu não pensas?!” Dito de forma desabrida não é uma comparação honesta. |
Mas é disso que eles, os nossos filhos, se lembrarão daqui a uns anos. Também se lembrarão dos gelados e dos passeios e dos abraços e das férias e dos mimos e da proteção. Mas no meio disso andarão aquelas palavras que magoaram (e algumas delas podem configurar maus tratos) e a forma como um dia o pai ou a mãe desvalorizaram o que para eles era importante. A forma como magoaram pelo que disseram, mesmo que não o dissessem com essa intenção (normalmente não é). |
Entretanto, estes foram os trabalhos que publicámos no último mês no Mental, a secção do Observador totalmente dedicada à saúde mental: |