1 de Abril de 2021. Está escuro. Portugal está parado, poucos andam pelas ruas. Ao Estado de Emergência seguiu-se um Governo de Salvação Nacional. José Sócrates foi absolvido e o Governo iniciou um processo de nacionalização do tecido empresarial Português.

Por cá, o vírus parece controlado mas o turismo e livre circulação de pessoas ainda é uma miragem. A dívida pública Portuguesa atingiu os 153% e é, segundo as principais agências de rating, “absolutamente insustentável”. O desemprego superou o valor mais alto da anterior crise –16%- e, hoje, uma quarto da população ativa não tem trabalho. Os mais velhos foram abandonados pelas suas famílias e as crianças não se conhecem.

A União Europeia está-se a desmoronar. Apesar das promissoras palavras dos lideres europeus, a solidariedade entre países foi nula. As Coronabonds morreram na praia e o programa de recompra de divida por parte do BCE não é suficiente para suster as dividas dos países do sul da Europa. A Itália alega que deixou de fazer sentido abdicar da sua autonomia orçamental, monetária e estratégica em prol de uma união que não é capaz de ser solidária numa crise onde não é responsável. Revoltada, Itália inicia o processo de saída da EU. A verificar-se, representa a descaracterização do espaço Schengen e o fim da União Europeia.

Pelos Estados Unidos, Trump conseguiu recuperar do fracasso na gestão da pandemia ao atacar fortemente a China. Trump dizimou Biden nas eleições de novembro. Em prol da saúde, o governo americano implementou um sistema capaz de, através dos smartphones, monitorizar em real-time as nossas reações biológicas a diferentes emoções, contextos e estímulos. A manipulação política e social, está, agora, muito mais perto.

EUA e China rasgaram o acordo comercial assinado em 2019 e o que está em cima da mesa já não é apenas uma guerra comercial. O Irão abandona, a título definitivo, o Joint Comprehensive Plan of Action assinado em Viena e a Rússia não renova o New Strategic Arms Reduction Treaty. Tornam-se públicos os maiores testes nucleares da história. Neste cenário, os Jogos Olímpicos voltam a ser adiados.

Desde Setembro de 2019 que a China está numa espécie de “revenge spending” e hoje as emissões de CO2 já estão 20% acima dos valores registados em pré-pandemia.

Em África, a propagação do vírus descontrolou-se. A luta contra a fome, teve como opositor a luta contra o vírus. As principais fontes de receita destes países, como a transação de matérias primas e o turismo, tiveram uma queda abrupta. Os governos perderam qualquer capacidade de promover medidas de prevenção da propagação do vírus sem que isso expusesse, de forma ainda mais calamitosa, a necessidade de luta pela subsistência destas populações.

Não só em África, mas todos os países emergentes, são vistos como uma ponta solta deste vírus que parece agora controlado. O medo de uma segunda vaga pandémica vai afastando os reais apoios por parte das economias desenvolvidas.

O abraço ainda é uma ameaça. O mundo está exausto.

1 Abril de 2021. Está sol. As empresas Portuguesas não param de nos surpreender. O Governo tem sido o agente perfeito na promoção da inovação. A forma massiva e célere como começamos a conseguir testar as pessoas e o incrível sentido cívico dos Portugeses fez com que fossemos o primeiro país Europeu a controlar o vírus. O isolamento social passou a ser feito de uma forma ordeira e a economia tem começado a dar os primeiros sinais de normalidade.

O bom uso dos incentivos Europeus, o sucesso no controlo do vírus e a resiliência dos trabalhadores Portugueses fazem com que o país seja visto como sustentável e promissor. Portugal teve uma grande projeção internacional e o The New York Times descreveu Portugal como o “The pleasant quarantine”. O Natal já foi passado em família.

A União Europeia tem parecido reforçada como um projeto comum. Não só a nível interno, como também a nível externo. A forma como está a contribuir para o relançar das economias mais vulneráveis, em especial a dos países mais afetados — Itália e Espanha –, tem sido uma surpresa para todos. O Mecanismo Europeu de Estabilidade adaptou com sucesso alguma das suas ferramentas- Enhanced Conditions Credit Line e Precautionary Conditioned Credit Line– o que permitiu o acesso eficaz a divida de curto-prazo. Em paralelo, os países mais afetados viram os seus contributos para o orçamento Europeu revistos em baixa.

Os EUA produziram e disponibilizaram os primeiros testes rápidos para ser utilizados a nível pessoal.  Os EUA e a China aprofundaram o acordo comercial já assinado. Xi Jinping convenceu Trump a regressar ao Acordo de Paris e, em conjunto, definiram metas ainda mais ambiciosas. Trump mandou calar Bolsonaro na última cimeira do clima. O Japão promete organizar uns Jogos Olímpicos que orgulharão toda a humanidade.

O FMI disponibilizou fundos que visam apoiar os países emergentes. Os EUA, em conjunto com a UE, criaram um gabinete de crise que tem como objetivo controlar a pandemia em África. Ao longo dos últimos meses, foram distribuídos milhões de testes e equipamento de segurança pelos países mais carenciados.

O mundo está cansado, mas com vontade de lutar.

É dia 1 de Abril de 2020, cada um dos cenários acima descritos descreve um conjunto de eventos que têm muito pouca probabilidade de acontecer em simultâneo. Estes eventos representam um conjunto de riscos e oportunidades originadas pela crise que hoje vivemos.

Como sugerem ambos os cenários, existem dois grandes fatores que irão determinar o futuro da humanidade.

Por um lado, o aparecimento (ou consolidação) de movimentos totalitários, seja pela forma já experimentada no pós primeira grande guerra, ou através de novas ferramentas tecnológicas, são uma ameaça à liberdade como a conhecemos.

Por outro lado, a projeção de movimentos nacionalistas que ignoram que a cooperação global é, não só, uma forma comprovada de desenvolvimento económico, como também a forma mais eficiente de promover a paz e atacar crises pandémicas. É, também, a única forma de combater as alterações climáticas e preservar o nosso planeta.

Na verdade, algumas destas ameaças já se começam a verificar. Por exemplo, em Israel, o primeiro ministro vê nesta crise a oportunidade perfeita para fugir ao julgamento onde é acusado de corrupção. Na Hungria, o estado de emergência foi declarado por tempo indeterminado. A Rússia impôs a interdição à exportação de trigo.

O mais provável é que o COVID-19 não fique na história como uma das pandemias mais letais. Mas, certo é que este vírus, com cerca de 0,000125 milímetros, em poucas semanas matou milhares de pessoas, parou países, surpreendeu tecnologias, paralisou economias, fechou empresas, afastou famílias e mudou a forma como pensamos. O mundo vai mudar, é inevitável. Compete-nos a nós saber aquilo que defendemos.