Há um instante, mesmo antes da meia-noite, em que o mundo parece suspenso. Ainda andamos por cá e a nossa lápide não terá gravado o ano 2025. Não é ainda o ano seguinte, mas já não é inteiramente o anterior. O tempo, por uma breve fração de segundo, parece deixar de nos pertencer — ou talvez sejamos nós que, por uma vez, sentimos que não lhe pertencemos. Esse intervalo, essa espécie de ponte invisível entre o que foi e o que ainda não é, expõe uma verdade desconfortável: o tempo não flui como um rio tranquilo, mas como um abismo que atravessamos sem saber onde começa nem onde acaba. E eu que nunca gostei de ter hora marcada para a alegria, festejo alguma coisa que não é minha.

No entanto, nestes momentos, há algo verdadeiro. Percebemos com grande intensidade, que não é o fluxo contínuo que dá sentido à vida, mas as suas interrupções. É nelas que algo se torna real. Um amor, uma obra, uma amizade, uma decisão: tudo só adquire peso porque pode falhar, acabar, perder-se. O que não corre risco, não vive.

Por isso, iniciar e terminar não são gestos opostos. São dois movimentos de uma mesma força. O que começa só pode começar porque algo terminou. O que termina só pode terminar porque algo foi verdadeiramente iniciado. Só aquilo que pode terminar pode ser completo. Só aquilo que pode perder-se pode ser verdadeiramente nosso. É nesse espaço estreito entre abertura e encerramento que a vida acontece.

Eu, que, no 2.º Ciclo, escrevi numa cartolina que, se não fizéssemos nada, em 2026 já não haveria água no planeta, ao mesmo tempo que me era prometido que faltava pouco para chegar a Marte, fico suspenso quando me dizem que o mundo está pior hoje do que naquele tempo, porque isso revela que este fim e este começo, não é necessariamente para melhor. Importaria pensar, por isso, quantos de nós, imaginando que os nossos anos são uma linha ininterrupta de paragens de autocarro, acredita que para o ano, neste dia, estará melhor.

Lá para o meio sabemos que, em algum momento, alguém diria que a culpa é do algoritmo e das redes sociais, que algum Robespierre moderno vai tentar purificar alguma coisa, separando bons e maus, que não sabemos dizer com certeza onde termina a devassa da vida privada e começa o escrutínio, que alguém será vítima de alguma denúncia anónima, e outro alguém só será apanhado precisamente porque houve uma denúncia anónima, que nos irritaremos sobre alguma gaffe e, com isso, deixaremos de falar de algum assunto mais importante. E não há mal nenhum com isso.