Os avós são aquelas pessoas que alguns têm em comum, pertencem à terceira geração, a geração dos primos.

E, tal como cada família é diferente, também os avós podem ser diferentes com cada neto. Por vezes existem os preferidos. Outras vezes, há distâncias que nunca se explicam. Mas quando ouvimos dizer que os idosos ficam sozinhos, algo está mal.

E a pergunta impõe-se: será que esses idosos fizeram a sua parte?

Ou temos hoje uma geração isenta de valores?

Fui neta até aos 49 anos. Conheci duas avós, um avô, uma bisavó e ainda a minha trisavó, que morreu quando eu tinha seis anos. Tive longas conversas com a minha avó. Ouvi durante anos as mesmas histórias da minha avó paterna, quando passávamos férias na casa dela. Aprendi a jogar sueca com o meu avô, que me deu o meu primeiro jogo de cartas. A minha bisavó contava sempre a mesma história, e cada uma delas tinha memórias, episódios e afetos.

Essas histórias repetidas eram mais do que palavras: eram conhecimento  e tempo oferecido. E hoje pergunto-me quantos netos visitam os avós para pedir um abraço, uma fatia de bolo, ou a comida favorita, e ouvir histórias.

A verdade é que muitos avós já não contam histórias. Alguns não têm tempo para os netos, não querem desarrumação, não têm paciência para as crianças. Oferecem uma prenda ou uma nota, mas não oferecem presença. E, no fundo, não querem ser “chateados”. Têm uma vida ocupada, organizada, silenciosa e os netos não cabem nesse silêncio. Quando os netos crescem, já não têm a mesma alegria ou motivação para ver os avós.

As crianças não são bibelots que ficam quietos a ouvir adultos falarem das suas necessidades. A relação que não se planta na infância não floresce na idade adulta. É fácil culpar “a sociedade”, “os jovens”, “a falta de valores”.

Mas a verdade é mais complexa. Há idosos que deram tudo e, mesmo assim, ficaram sós porque as famílias se dispersaram, porque o tempo se tornou um luxo, porque a vida acelerou. Mas também há idosos que, ao longo da vida, não investiram em vínculos, não cultivaram relações, não criaram memória emocional nos filhos e netos.

E depois esperam colheita onde nunca semearam. É desconfortável admitir isto, mas é necessário: a solidão na velhice nem sempre é injusta, por vezes é consequência de uma vida vivida sem espaço para os outros. O que eu vivi, histórias repetidas, conversas longas, afetos simples, era um vínculo emocional e eterno. Hoje, este vínculo está a desaparecer.

Os avós mudaram: muitos querem viver a reforma como um espaço de liberdade individual, não de continuidade familiar. Os netos mudaram: vivem no digital, têm rotinas sobrecarregadas, não foram habituados a estar com adultos mais velhos.

E a família mudou: deixou de ser um lugar de transmissão ou vínculo emocional e passou a ser um lugar quase empresarial. O resultado é uma separação  silenciosa: os avós deixaram de ser contadores de histórias e os netos deixaram de ter histórias para ouvir.

Se os avós não querem ser incomodados, se não querem barulho, se não querem desarrumação, se não querem crianças, então não podem esperar que, mais tarde, os netos queiram estar com eles.

O afeto não se exige. Constrói-se.

E talvez seja tempo de assumir que a solidão dos idosos não é apenas um problema social: é também um espelho das relações que construímos ou deixamos de construir ao longo da vida.