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Olá! Ainda estás a festejar? Finalmente na reforma, depois de tantos anos de trabalho. Agora é que vai ser. O dia todo sem nada para fazer.
Um grande ponto final. É assim que muitos imaginam a reforma. Uma porta que se fecha, uma espécie de fim de vida ativa, como se tudo o que viesse depois fosse pausa, silêncio, espera. Nenhum manual te explica o que fazer quando os dias deixam de ter horário, quando as rotinas desaparecem ou quando, de repente, já ninguém pergunta por relatórios, reuniões, prazos, metas. Ninguém nos prepara para o depois. Um depois que começa por uma espécie de descanso desejado, mas que facilmente se transforma num vazio. Por isso é preciso preparar esta viagem do envelhecimento e prepararmo-nos para a fazer. "Eu Posso Ser" é um podcast Observador em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos, uma série de cinco episódios sobre saúde mental com base na coleção de livros "Pela sua saúde: saúde psicológica e bem-estar". É narrado por mim, Sofia Ribeiro, com banda sonora original da MARH. Episódio cinco: Eu posso ser mais ativo. Nas últimas décadas, a longevidade aumentou significativamente no mundo ocidental. Segundo a Pordata, em 2024, as pessoas com 80 ou mais anos já são 7% do total de residentes em Portugal. O envelhecimento traz desafios alargados. Vive-se mais tempo, mas esse aumento de longevidade está associado à maior prevalência de doenças neurodegenerativas, incapacidade e dependência. Tudo quadros que têm impacto profundo nas famílias e cuidadores, ao mesmo tempo que temos cada vez menos filhos e, portanto, uma menor rede familiar disponível para servir de suporte. Ainda de acordo com a Pordata, em 2024, Portugal era o segundo país mais envelhecido da União Europeia, ultrapassado apenas por Itália, contando com 192 pessoas com mais de 65 anos por cada 100 jovens menores de 15 anos. Se o envelhecimento é inevitável, há que o preparar e que o aceitar. Mas preparar o envelhecimento implica reconhecer os obstáculos reais que esta fase traz. A solidão e o isolamento, o peso das doenças crônicas, as limitações funcionais, a dependência crescente, as desigualdades sociais e até as fragilidades econômicas. Tudo marcas do avançar dos anos. Como podemos então viver mais anos, mas vivê-los com mais qualidade? Como podemos preparar o envelhecimento? Estas são algumas das perguntas para as quais Margarida Gaspar de Matos procura resposta no livro "Felicidade e Flexibilidade no Envelhecimento", o último de cinco livros da coleção "Pela sua saúde: saúde psicológica e bem-estar", da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Convém cultivar desde muito novo esta ideia do bem-estar, esta ideia da nossa felicidade e da felicidade dos outros também. Nós desenvolvemo-nos a fazer face aos desafios da vida, e toda a vida há desafios, e então nós para nos superarmos e para irmos ao encontro desses desafios, desenvolvemo-nos. E o último, exatamente, é o da autoaceitação, que é nós olharmos para trás e pensar: "Olha que vida gira que eu tive".
Apesar da sua inevitabilidade, há uma enorme ambiguidade no envelhecimento. Por um lado, sentimos o envelhecer como uma perda de energia, de utilidade, de lugar, até de identidade. Por outro, sonhamos com os dias em que chega a reforma e o descanso. Nesta ambiguidade, por vezes, parece que se perde a noção do lugar. Onde pertencemos quando envelhecemos? Não sabemos lidar com a nossa versão mais velha e os mais novos parecem não saber lidar com aqueles que envelhecem. Insistimos em tratar todas as pessoas mais velhas como iguais, mas cada pessoa envelhece à sua maneira, com ritmos, histórias, capacidades e valores diferentes. Não podemos pôr toda gente no mesmo saco, como explica Margarida Gaspar de Matos.
Os miúdos queixam-se do mesmo. Os adolescentes também dizem, até parece que cada adolescente não é diferente do adolescente do lado. E também nós, muitas vezes, metemos todos no mesmo saco. E aquela coisa dos 10 anos, que não temos amigos, temos outras coisas, mas não temos amigos com mais ou menos 10 anos da nossa idade, nós também tendemos a achar que as pessoas com mais de 10 anos e menos de 10 anos da nossa idade são todas iguais. Só conseguimos ser analíticos e ver as diferenças nas pessoas que se aproximam de nós. Há umas teorias sobre o envelhecimento que dizem que as pessoas quando ficam mais velhas, ficam mais sábias. Aquele mito do antigamente, que era o mais velho a quem se ia perguntar coisas. Depois há outros que dizem que não, que ficam os chatos, os reverberativos, sempre mal-dispostos e sempre rozingões. E há uma frase que diz que cada um tem um bocado a velhice, na ausência de doença, que merece. Se nós quando somos novos, somos uns chatos, quando somos mais velhos, há mais anos que somos chatos. Se calhar, convém cultivar desde muito novo esta ideia do bem-estar, esta ideia da nossa felicidade e da felicidade dos outros também. Também gostar de ver gente feliz à volta.
Um sentimento partilhado por Ana Bessa, já reformada.
O que eu senti foi que não tinha que apanhar mais o autocarro, que demorava-me sempre uma data tempo para chegar e eu cansava-me com essas. Acho que já estava na altura de descansar, mas depois arrependi-me. Porque o convívio era impecável, era um sítio que eu gostava de trabalhar, aquela equipa era extraordinária e depois senti muito aquela falta. Depois os meus filhos é que fizeram com que eu saísse. O meu filho, principalmente, é que fez com que eu saísse de casa. Andou à procura de coisas para me arranjar. Então ele falou para a Avó Vai Trabalhar, marcou para eu ir lá com ele e pronto. Depois eu também tinha dito que gostava de aprender a costurar. Ainda fui durante uns tempos aprender costura, mas depois parei, porque havia muito trabalho lá na Avó e eu não conseguia me dividir pela Avó Vai Trabalhar e por ir à costura.
Mas o envelhecimento não tem de ser apenas perda ou desaparecimento. Pode ser também oportunidade, uma fase para escolher, para investir no que faz sentido, para construir vida, não para a encerrar, como afirma Margarida Gaspar de Matos.
Eu conto uma história daquela senhora, que não sei se se lembra, que era uma mulher fantástica, que faleceu com 98 anos. E ela dizia que quando estava na praia, no primeiro dia de praia que tinha, por dentro achava mesmo que tinha 20 anos e sentia-se tão feliz como quando tinha 20 anos. E depois dizia ela: "Depois mexo um dedo e vejo que não, que já tenho um bocado mais." Eu acho isso uma delícia, porque realmente é a perceção que ela tem de si e provavelmente nós devíamos agarrar naquelas pessoas bastante mais velhas, que são bastante especiais, e devíamos pô-las a falar.
Uma liberdade que nasce antes de aceitar a realidade. Ao mesmo tempo, nesta fase da vida, é preciso encontrar sentido e propósito que também nos liberte. Precisamos de olhar para a terceira idade como oportunidade, confessa Ana Bessa.
Já estava um bocado cansada daquela obrigação de entrar às 08:00, que era para sair às 16:30, não queria ficar até às 17:00. É mais aquele hábito, já estava a ficar um bocado cansada. O meu diretor até me tinha dito porque é que eu me ia reformar, que eu podia ficar até aos 70. Eu disse: "Não, doutor, tem que ser agora, vou me reformar." Eu ainda pensei ir para fazer outra coisa, outro voluntariado. Só que o meu problema era a obrigação. É a mesma questão, a obrigação, porque se nós vamos ser voluntários em certos sítios, se vamos segunda, quarta e sexta, temos que ir à segunda, quarta e sexta, de X horas. E ali não, eu vou à hora que eu quiser e saio à hora que eu quiser. É a maior liberdade nesse aspecto. Não tenho que picar ponto nem nada disso.
Encarar o envelhecimento como a tal oportunidade exige desenvolver flexibilidade psicológica, uma competência central para envelhecer com bem-estar. É esta flexibilidade psicológica que nos mantém vivos, curiosos, capazes de mudar e ajustar. Serve como uma das melhores proteções contra riscos psicológicos do envelhecimento, a tal tendência para o isolamento, a perda de propósito e a rigidez. Tudo o que nos faz acreditar que já não vale a pena sequer tentar. Ajuda-nos a aprender a não reagir sempre da mesma forma, a não ficar preso ao automático, como conta Margarida Gaspar de Matos.
A flexibilidade psicológica implica que nós sejamos capazes de perceber a situação onde estamos e depois de ir buscar o repertório das coisas que nós somos capazes de fazer e escolher qual é que é a coisa que para aquela situação é melhor responder. Se nós fazemos sempre a mesma coisa, o que quer que nos aconteça, nós entramos num registo de inflexibilidade psicológica. E aí não conseguimos ajustar-nos às circunstâncias e deixamos de ter curiosidade em relação ao resto da vida.
Quando chega a reforma, esta flexibilidade psicológica é ainda mais crucial, porque a reforma não é só uma mudança na agenda, é uma mudança profunda na identidade. A reforma pode abrir um campo de liberdade, mas também expõe vulnerabilidades que muitas vezes passam despercebidas. A solidão que se instala de forma silenciosa, o afastamento de um cotidiano mais ativo, a sensação de perder uma identidade construída ao longo de décadas e a descoberta, por vezes abrupta, de que viver mais tempo não significa necessariamente viver bem. É necessário que cada pessoa encare a sua própria vida com essa flexibilidade. A reforma deve ser preparada como uma transição de identidade, não como um fim.
Se o nosso eu não for tão inflexível e tão à volta da mesma coisa, que é a identidade laboral, é um luto. A pessoa ia todos os dias para um sítio e agora não vai. Se as pessoas são todas diferentes, ser flexível é conseguir ajustar melhor a metodologia do trabalho àquela pessoa, para a pessoa estar melhor, ser mais feliz.
A chegada da reforma pode ser uma fase complexa e desafiante, como conta Fátima Cayo.
Dali andava em casa: "Ai, meu Deus, o que é que eu vou fazer?" A minha irmã mora em São Pedro de Suave e anda na faculdade lá, ela é mais nova que eu cinco anos. E então diz assim: " mana, tu tens que arranjar qualquer coisa, tu tens que fazer qualquer coisa". Entretanto, uma vizinha tinha-me falado na Avó Vai Trabalhar, e então disse: "Olha, nem é tarde, nem é cedo, vou lá ver". Fui logo muito bem acolhida, muito bem recebida. E até hoje estou lá. E foi a melhor coisa que eu fiz, porque nós ali não paramos.
Não depende apenas de cada pessoa preparar o seu envelhecimento. É uma responsabilidade coletiva O envelhecimento precisa de uma rede comunitária forte. É preciso prevenir doenças e promover saúde física e psicológica, combater o isolamento e trabalhar o convívio entre gerações. Motivar para a participação na vida social. É preciso dizer aos mais velhos que é normal procurar ajuda, mas também é preciso dizer aos cuidadores que também serão cuidados. É necessário combater estigmas e promover a participação ativa dos mais velhos na sociedade. É preciso testar novas soluções de transição do trabalho para a reforma, que contrariem a perspectiva do estar completamente dentro ou estar completamente fora, sem nenhuma alternativa intermédia. Por que temos de passar de 40 horas de trabalho por semana pra não trabalhar de todo? Por que não podemos suavizar essa transição? É preciso aproveitar o potencial das pessoas mais velhas, como afirma Margarida Gaspar de Matos.
Pois, é verdade. As pessoas mais velhas são muito subaproveitadas em alguns sítios. Não há nada melhor do que ver uma pessoa em qualquer idade entusiasmada com a vida, entusiasmada com as coisas que faz, a mostrar com gosto.
É preciso deixar de olhar para o envelhecimento como o copo meio vazio e vê-lo como o copo meio cheio. Ultrapassar preconceitos e entender que as pessoas mais velhas têm muito pra dar. A experiência não desaparece, transforma-se. E pode ser um recurso precioso. O entusiasmo não tem idade, a curiosidade não tem prazo, o gosto pela vida não expira. É isso que Fátima Caio tem descoberto.
Eu era costureira antes. Foi sempre a minha profissão, só que depois é que comecei a trabalhar. Mas ali deu jeito, porque não havia muitas costureiras. Então, ali deu jeito. Primeiro que tudo, logo para a máquina, das coisas que eu via pra coser. E depois bordados, crochê, malhas e isso tudo, eu não sabia, andei ali a aprender e é ótimo, porque a minha irmã ficou supercontente, a minha filha também. Isto pra mim foi a coisa melhor que me apareceu, em ter entrado lá a volver trabalhar.
Não existe uma velhice perfeita, da mesma forma que não existem vidas perfeitas. Mas é possível envelhecer de forma verdadeira, vivida e consciente. Viver o presente, escolher o que importa, deixar ir o que não serve. Aceitar novas realidades, ajustar estratégias e definir objetivos. Acreditar que é possível viver a velhice em pleno e não como uma espera pelo fim. Nada pra fazer?
Nada disso, nunca estive tão ocupada!
"Eu posso ser", o novo podcast do Observador Lab. Um podcast pra ouvir em cinco episódios, narrado por mim, Sofia Ribeiro, com banda sonora original da Amaro. Uma parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.