Desde de que as notícias sobre a epidemia de covid-19, quando ainda não se chamava assim, se tornaram elas próprias “virais”, que a comunicação pública sobre este tema em Portugal tem sido algo que vale a pena observar. Infelizmente, não pelas melhores razões.

Ao contrário do já defendido aqui no Observador a comunicação pública de risco, neste caso concreto, em Portugal tem sido: 1. Errática; 2. incoerente; 3. pouco clara; 4. insuficiente no que importa; 5. demasiada no que não importa; 6. ao sabor das crises e fluxos de informação dos próprios meios de comunicação, nacionais e internacionais.

Senão vejamos: A principal responsável pela comunicação de risco em saúde em Portugal, a DGS, tem demonstrado, na informação que nos transmite pelas vias oficiais, nomeadamente o seu site, mas também nos comunicados, entrevistas, aparições na televisão, dificuldade em ser clara, pragmática e, simultaneamente, tranquilizadora.

Tudo gira em torno do número de casos suspeitos (andámos semanas a contar casos suspeitos, em ansiedade à espera do 1º, como se de uma competição se tratasse – é preciso ser rápido e mostrar que se é rápido), e agora que já há casos confirmados, vamos continuar a contá-los, como se a isso se resumisse a nossa forma de lidar com o problema.

E quando tal não se fez, o resultado ainda foi pior.

Ao divulgar publicamente um possível “cenário” de 1 milhão de infetados em Portugal, por COVID-19, mesmo que depois tenha feito diversos esforços para corrigir a amplitude de reações a esta afirmação, ela teve, necessariamente, efeitos graves, nomeadamente junto da população mais idosa e mais vulnerável a notícias de elevada divulgação nos meios de comunicação tradicionais, como é a televisão.

Como agravante às insensatas declarações públicas sobre “cenários”, facilmente confundíveis pela população em geral com “previsões”, a comunicação social tem divulgado incessantemente imagens de supermercados com prateleiras vazias (em geral em Itália e na Coreia do Sul), mas que levou a uma tendência generalizada para a procura de bens de mais longa duração como enlatados, além dos já tradicionais toalhetes, álcool, e as famosas máscaras (aparentemente inúteis), mas já esgotadas em muitas farmácias. Isto, naturalmente, sem falar da quase histeria na contagem dos suspeitos e dos infetados.

Representantes políticos continuam a confundir o público, transmitindo mensagens contraditórias. Não falo só em linguagem verbal. Aconselha-se o “distanciamento social”, na voz do primeiro-ministro, por exemplo, e no entanto, o nosso Presidente da República, não só acha a expressão “exagerada”, como ainda no dia 2 de março  recebeu no Palácio de Belém 36 atletas de 16 países, não poupando os afetos.

Para completar uma “festa” de má comunicação pública de risco, e uma clara comunicação pública de medo, eis que chega a conferência de imprensa, na manhã de dia 2 de março, com a presença de 4 (quatro!) altos cargos na área da saúde (ministra da Saúde, diretora da DGS, secretário de Estado da Saúde e diretor do Instituto Ricardo Jorge), para informar os portugueses de que (finalmente) existem 2 casos confirmados de cidadãos portugueses em Portugal infetados por COVID-19 (à data de hoje, dia 5, são 8 casos). A pergunta que se impõe: quando forem 100, ou mais, ou perto disso, quem irá fazer a conferência de imprensa? O governo em peso, na companhia do senhor Presidente da República? E para dizer o quê?

O que exatamente pretendiam as nossas autoridades da Saúde com esta conferência de imprensa? Tranquilizar os portugueses? Garantir que acreditávamos neles, porque eram vários a fazer as mesmas declarações? Não deixar o protagonismo em mãos alheias? Partilhar visibilidade? Ou responsabilidades?

Aliás, num qualquer noticiário televisivo, apenas como exemplo, é possível ouvir declarações sobre o Covid-19 da parte de todo e qualquer responsável político: já ouvimos, para além dos titulares de cargos da Saúde, o ministro da Economia, o ministro dos Negócios Estrangeiros, o ministro da Administração Interna, os ex-diretores da DGS (repetidamente em diversos momentos), responsáveis militares, etc., etc., etc.

Numa muito rápida pesquisa sobre como a comunicação pública sobre o Covid-19 tem sido realizada noutros países, nomeadamente no Reino Unido (o NHS-National health Service – tem sido o nosso modelo preferido nos últimos anos) ou nos EUA, (onde o CDC – Center of Disease Control – tem muitos anos de prática a lidar com comunicação de crise), ficamos logo com uma imagem muito clara do que poderia estar a ser feito em Portugal nesta área, e manifestamente não está.

Veja-se o Reino Unido. No seu site oficial remete imediatamente para um outro site específico sobre o Covid-19 onde, numa linguagem muito clara e bem dirigida, se explica de que se trata, como prevenir, fornece informações específicas para viajantes, profissionais de saúde, etc. Também abre uma ligação para a “resposta governamental à epidemia” onde divulga o plano de ação governamental, ele próprio. Pode, inclusivamente, consultar-se o documento, com data de 3 de março, chamado “Coronavirus: action plan – A guide to what you can expect across the UK”, um documento de 30 páginas, com uma linguagem muito clara e muito informativo, da autoria do “Emergency and Health Protection Directorate”.

Nos EUA, o CDC abre diretamente a sua página, encaminhando o cidadão para o que realmente importa, ou seja: como prevenir que o COVID-19 se espalhe nas comunidades, dando indicações específicas para cada caso, nomeadamente, o que fazer para prevenir ou em caso de uma crise mais generalizada: em casa, nas escolas, nas universidades, no trabalho, em comunidades de culto ou outras, em eventos de maior escala, para os profissionais de saúde e para a proteção e apoio ao cidadão de primeiro nível, como é o caso dos bombeiros.

Outro exemplo significativo é o da Suécia. Também apresenta um site claro e simples do ponto de vista informativo, mas tem uma abordagem muito interessante, uma vez que é um país com muita emigração chinesa e iraniana, que é a disponibilizar a mesma informação, mas em chinês e persa/farsi. Portugal, país com tantos emigrantes, poderia também pensar na importância da comunicação com essas comunidades.

Uma consulta a estes exemplos de comunicação pública de risco pelas nossas autoridades com responsabilidades nessa matéria poderiam ser um caminho para evitar más praticas de comunicação que produzem, necessariamente, más práticas de cidadania e menos responsabilidade individual e social nos cidadãos portugueses.

As autoridades responsáveis pela comunicação pública de Saúde não podem, nem devem, controlar a informação que é difundida pelos órgãos de comunicação social, sendo que essa se deve reger por códigos de conduta próprios dos profissionais da comunicação. Muito menos pode, ou deve, controlar o que se vai passando na comunicação on line, nomeadamente nas redes sociais, esse “demónio” que espalha notícias falsas. Mas culpabilizar as “fake news” divulgadas por esses meios parece ser, nos últimos tempos, uma maneira fácil de disfarçar uma fraca capacidade de comunicar com os cidadãos quando as matérias são sensíveis. Até porque, as redes sociais têm públicos fragmentados e um tipo de comunicação muito difícil de rastrear ou classificar. Só uma comunicação pública de risco de grande responsabilidade e qualidade pode mitigar efeitos perversos de mensagens divulgadas por meios tão vastos e ecléticos como as redes sociais.

Uma comunicação de risco em saúde responsável e eficaz exige que seja realizada por um interlocutor institucional, no máximo, e que seja alguém credível, capaz de dizer a verdade, com clareza, e de transmitir, simultaneamente, confiança e tranquilidade. Essa informação deve chegar, igualmente, aos sites, às redes sociais, aos media tradicionais, para que depois passe de boca em boca, sem histerias e sobressaltos.

Contribuir para ter cidadãos mais e melhor informados, conscientes, autónomos e responsáveis, são a única forma de lidar com uma situação generalizada de risco em saúde pública, e para tal temos de ter uma comunicação pública em saúde mais responsável, mais profissional e menos política, capaz de recorrer a especialistas em comunicação pública ou, pelo menos, capaz de aprender com autoridades de outros países que sabem fazer mais e melhor.