Ninguém quer voltar às máscaras obrigatórias, aos confinamentos, às filas para testes ou aos dias em que aprendemos a contar internamentos e ventiladores. Ainda bem. Uma sociedade não pode viver permanentemente em estado de emergência.
Mas entre viver em emergência e esquecer tudo o que aprendemos existe um enorme espaço chamado saúde pública.
A pandemia acabou. Os vírus respiratórios não
A COVID-19 deixou de ocupar telejornais e conversas quotidianas. Também a resposta de saúde pública mudou, como seria desejável. Na campanha outono-inverno 2026/27, a Direção-Geral da Saúde passou a dirigir a vacinação sazonal contra a COVID-19 sobretudo às populações com maior risco, elevando dos 60 para os 70 anos o limiar etário geral, mantendo a recomendação para outros grupos de risco.
Adaptar não significa esquecer
O SARS-CoV-2 continua a circular. A gripe regressa todos os anos. O vírus sincicial respiratório continua a provocar doença, particularmente nos extremos da vida e nas pessoas vulneráveis.
O inverno respiratório não é apenas uma sucessão de vírus. É também o encontro entre esses vírus, pessoas vulneráveis, espaços fechados e um sistema de saúde cuja capacidade não é infinita.
“Deitámos fora o medo”. E também algumas coisas úteis
Durante a pandemia aprendemos comportamentos simples: etiqueta respiratória, higiene das mãos, ventilação, proteção dos mais vulneráveis e redução de contactos quando estamos doentes.
Terminada a emergência, muitos desapareceram com ela.
Voltámos a trabalhar doentes, a entrar sintomáticos em transportes cheios, a permanecer horas em espaços fechados mal ventilados e a visitar familiares vulneráveis mesmo quando estamos constipados.
O European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC) continua a recomendar, perante as infeções respiratórias, medidas básicas como vacinação adequada, permanência em casa quando se está doente, higiene respiratória e das mãos, ventilação dos espaços e utilização de máscara em determinadas circunstâncias.
Nada disto exige confinamentos ou alarmismo. Exige apenas prevenção.
Uma máscara deixou de ser uma obrigação. Não deixou, por isso, de poder ser uma ferramenta.
Também devíamos ter aprendido a abrir as janelas
Uma das grandes lições da pandemia foi perceber melhor a importância do ar que partilhamos.
Em 2024, a Organização Mundial da Saúde adotou uma terminologia internacional comum para a transmissão de agentes patogénicos através do ar, aplicável não apenas ao SARS-CoV-2, mas também a outros agentes respiratórios. A ventilação e as características dos espaços interiores fazem parte dos fatores que condicionam essa transmissão.
Lidia Morawska e colaboradores, numa revisão publicada na Science, destacaram igualmente a importância de ventilação adequada e qualidade do ar interior como parte da prevenção da transmissão de agentes patogénicos.
Há décadas que consideramos natural estabelecer padrões para a água que bebemos e os alimentos que consumimos. Talvez esteja na altura de levarmos igualmente a sério o ar que respiramos durante horas em escolas, hospitais, lares, transportes e locais de trabalho.
Abrir uma janela não substitui vacinação ou outras medidas. Mas prevenção raramente significa escolher uma única solução. Significa criar várias camadas de proteção.
Responsabilidade sem medo
Ficar em casa quando estamos doentes parece uma recomendação elementar. Na vida real nem sempre é simples.
Há trabalhadores que receiam perder rendimento, sobrecarregar colegas ou ser considerados pouco empenhados. Existe ainda uma cultura que, em alguns locais de trabalho, continua a valorizar quem aparece doente como exemplo de dedicação.
Também isto é saúde pública.
Não podemos pedir comportamentos responsáveis sem criar condições para que sejam possíveis.
O mesmo vale para a proteção das pessoas mais vulneráveis. Uma infeção respiratória ligeira num adulto saudável pode representar algo muito diferente numa pessoa de 85 anos com doença cardíaca ou pulmonar.
O risco que aceitamos para nós não é necessariamente o risco que devemos escolher para os outros.
Vacinar sem regressar à guerra das vacinas
Portugal inicia a campanha sazonal 2026/27 contra gripe e COVID-19 a 30 de setembro. A própria alteração das recomendações demonstra que aprender com a pandemia não significa continuar a tratar 2026 como se fosse 2020.
A imunidade mudou, o risco mudou e as recomendações mudaram.
A DGS continua, porém, a considerar a vacinação sazonal uma medida fundamental para prevenir doença grave, hospitalização e morte nas populações para as quais está recomendada e para reduzir o impacto das infeções respiratórias sobre os serviços de saúde.
A discussão não precisa de regressar às trincheiras da pandemia. Precisa de informação clara, confiança e decisões proporcionais ao risco.
Esquecer o medo. Não esquecer o que aprendemos
Talvez a melhor campanha de saúde pública para este inverno pudesse resumir-se a poucas ideias.
“Está doente, proteja os outros”. Fique em casa quando puder. Tenha especial cuidado antes de visitar alguém vulnerável. Lave as mãos. Cumpra a etiqueta respiratória. Ventile os espaços. Vacine-se quando estiver incluído nos grupos para os quais a vacinação é recomendada. E, quando fizer sentido, use uma máscara sem sentir que isso representa uma declaração política ou um regresso a 2020.
Não precisamos de recuperar o medo da pandemia. Precisamos de preservar alguma da inteligência coletiva que adquirimos à custa dela.
O maior legado de uma pandemia não deveria ser o medo da próxima. Deveria ser estarmos mais preparados para ela.
Esquecer o medo é saudável. Esquecer o conhecimento não é.
Nós podemos ter esquecido a COVID. O inverno não esqueceu os vírus respiratórios.