No meu último artigo procurei mostrar que o verdadeiro problema não é a existência do chico-esperto. É quando uma sociedade inteira começa a aceitar que contornar as regras é a melhor estratégia para progredir.

A “cunha” é a continuação natural dessa reflexão.

Se o chico-esperto representa o indivíduo que procura obter vantagens pessoais contornando as regras, a cunha representa um passo seguinte: utilizar as relações pessoais para substituir as próprias regras. Já não basta infringir o sistema. Procura-se fazer com que o sistema funcione de forma diferente para alguns.

É por isso que a cunha não constitui apenas um problema ético. É, acima de tudo, um problema institucional e político.

Há poucas práticas tão enraizadas na cultura política portuguesa como a cunha.

Todos sabemos o que significa.

A cunha não se limita ao nepotismo. Pode assumir várias formas: nepotismo, quando favorece familiares; compadrio (cronyism), quando beneficia amigos ou membros da mesma rede de relações; e clientelismo, quando distribui benefícios em troca de apoio ou lealdade. Em todos os casos, o elemento comum é o mesmo: as relações pessoais passam a valer mais do que critérios universais e impessoais.

Um telefonema. Um conhecimento. Um padrinho. Um favor. Uma recomendação que deixa de ser uma simples referência para passar a substituir o mérito como critério de decisão.

A cunha não é apenas uma injustiça para quem fica de fora.

É uma ameaça ao próprio funcionamento das instituições.

Nas democracias modernas, as instituições existem precisamente para limitar aquilo que a natureza humana tende espontaneamente a fazer: favorecer quem nos é próximo.

É por isso que criámos concursos públicos, júris independentes, critérios transparentes, incompatibilidades, fiscalização e separação de poderes.

Todas estas instituições procuram responder ao mesmo problema: impedir que as relações pessoais substituam regras universais.

A ciência política sabe-o há muito.

Douglass North mostrou que o desenvolvimento das sociedades depende da qualidade das instituições. Daron Acemoglu e James Robinson demonstraram que os países prosperam quando possuem instituições inclusivas, que distribuem oportunidades de forma aberta e previsível, e não instituições extrativas, concebidas para beneficiar uma minoria à custa da maioria.

Mas talvez a psicologia evolucionista permita compreender ainda melhor porque razão a cunha é tão persistente.

Durante praticamente toda a evolução humana vivemos em pequenos grupos de parentes e aliados. A sobrevivência dependia da família, dos amigos e das alianças.

Favorecer os nossos era, muitas vezes, uma estratégia adaptativa.

A teoria da seleção de parentesco, formulada por William Hamilton, ajuda a explicar porque sentimos uma predisposição natural para favorecer familiares. A teoria do altruísmo recíproco, desenvolvida por Robert Trivers, explica porque ajudamos também amigos e aliados, esperando cooperação futura.

Nenhum destes mecanismos é, em si mesmo, condenável.

O problema surge quando estas predisposições são transportadas para instituições modernas que deveriam tratar todos os cidadãos de forma igual perante a lei.

É aqui que encontramos um verdadeiro desfasamento (mismatch) evolucionista.

Os nossos cérebros evoluíram para viver em pequenos grupos, onde todos se conheciam e onde favorecer os próximos aumentava as probabilidades de sobrevivência.

As democracias modernas exigem exatamente o contrário: imparcialidade perante milhões de desconhecidos.

É precisamente por isso que precisamos de instituições fortes.

Quando a cunha substitui o mérito, os custos espalham-se silenciosamente por toda a sociedade.

Os melhores candidatos podem ficar de fora.

A confiança nas instituições diminui.

Os cidadãos deixam de acreditar que vale a pena esforçarem-se.

Os incentivos deslocam-se do desempenho para os contactos.

E instala-se um círculo vicioso: quanto menos confiança existe na imparcialidade das instituições, mais pessoas procuram uma cunha para se protegerem de um sistema que consideram injusto.

É assim que a exceção se transforma em norma.

E quando todos acreditam que só conseguem vencer através de relações pessoais, deixa de existir verdadeira igualdade de oportunidades.

O problema da cunha não está apenas em quem beneficia dela.

Está sobretudo no dano invisível que causa às instituições, à meritocracia e à confiança social.

Porque nenhuma democracia consegue prosperar durante muito tempo quando os cidadãos acreditam que conhecer a pessoa certa vale mais do que ser a pessoa certa.