Convém recuar um pouco na História, o que nos ajuda a analisarmos melhor a evolução das várias perspectivas das sociedades ao longo do tempo.

O que mudou depois do Renascimento, foi que a estadia neste mundo, graças aos progressos materiais e técnicos, deixou de considerar-se uma penitência ou um sacrifício.

A declaração de independência norte-americana inscreveu mesmo nos seus estatutos assegurando que “a vida, a liberdade e a procura da felicidade” formam parte dos direitos humanos inalienáveis. Nada mais legítimo, concordo.

De facto, as sociedades democráticas caracterizam-se por uma alergia crescente ao sofrimento. Que este perdure ou se multiplique escandaliza-nos ainda mais, porque já não podemos recorrer a Deus para nos consolar…

Nas poucas vezes que, casualmente, vejo ou oiço reportagens noticiosas e/ou entrevistas, encontro invariavelmente da parte dos entrevistados, ou se não uma orientação quase forçada por parte do entrevistador, a resposta invariável à pergunta: o que deseja na vida? QUERO SER FELIZ!  E acabam assim as conversas ficando todos muito contentes.

Fico um pouco atordoado com esta taxativa conclusão. É como começar uma casa pelo telhado.

Pascal Bruckner afirma que não é certo que todos procuremos a felicidade, valor ocidental e historicamente caduco. Existem outros valores, como a liberdade, a justiça, o amor, a solidariedade e a amizade, que podem primar sobre aquele. Não se trata de estar contra a felicidade, mas contra a transformação deste sentimento frágil num autêntico estupefaciente colectivo, ao qual devemos entregar-nos, seja em forma química, espiritual, psicológica, informática ou religiosa. A felicidade não é um estado permanente. Cada vez que a felicidade nos roça deve produzir o efeito de um momento de graça, de um favor e não de um cálculo ou de uma conduta específica.

Deveríamos responder: Gosto demasiado da vida para querer ser somente feliz! Quimera metafísica!

O projecto de ser feliz tropeça com três paradoxos: torna-se intimativo, desemboca no aborrecimento ou na apatia quando se realiza e, finalmente, foge do sofrimento de tal maneira, ao ponto de se encontrar desarmado frente a ele quando este surge. A desdita não é somente a desdita, é algo pior: o fracasso da felicidade.

Aqui não posso deixar de referir a corrente filosófica do estoicismo, na qual Séneca foi o seu expoente máximo e que defendia que a virtude é suficiente para a felicidade, que um sábio era imune ao infortúnio e que essa crença conduzia a uma “calma estóica”; é essa calma estóica que vejo nos toureiros de hoje, aventureiros em tempos de aventuras proibidas, autênticos heróis contemporâneos que mantêm, de facto, uma calma estóica perante as adversidades (cornadas).

O estoicismo cria indivíduos que não podem ser intimidados pelos poderosos, porque não têm medo de abrir mão de tudo ou de morrer. Na verdade, são treinados por sua filosofia para abandonar a vida sem medo ou arrependimento, defender seus princípios racionais acima de qualquer ameaça ou suborno.

A moral e a felicidade, antes inimigos irredutíveis, fundiram-se; o que actualmente resulta imoral é não ser feliz, o superego instalou-se na cidadela da Felicidade e governa-a com mão de ferro.

O que nos governa, o que as publicidades sustêm com a sua alegre embriaguez, é toda uma ética baseada em parecer que se está bem consigo próprio. O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica. (Norman Vincent)

Por um lado, o capitalismo passou do sistema de produção baseado na poupança e no trabalho, ao sistema de consumo, que supõe gastos e desperdícios. Enquanto o objectivo da vida já não é o dever, mas sim o bem-estar, tomamos o menor desgosto como uma afronta.

Os desabamentos de terras, as inundações ou as avalanchas dão lugar a acções judiciais, porque, para nós, já não há catástrofes naturais, mas sim negligências humanas. E, claro, se pudermos pedir uma indemnização tanto melhor. Sugiro trocarmos o conceito de bem-estar por bem-ser! “Todos julgam segundo a aparência, ninguém segundo a essência.” (Friedrich Schiller)

O homem de hoje, ao tentar eliminar a dor, volta a instalar as suas preocupações no coração do sistema. Tanto assim é, que o homem de hoje sofre também por não querer sofrer, da mesma forma que podemos adoecer à custa de buscar a saúde perfeita. A ideia continuou a acentuar-se, para culminar no final do século XX em que passamos da felicidade como direito, à felicidade como imperativo.

Os alimentos, por exemplo, já não se dividem em bons e maus, mas sim em sãos e prejudiciais…mastigamos de maneira conscienciosa alimentos que já não são outra coisa que medicamentos, pois o importante já não é viver plenamente o tempo que nos foi concedido, mas, sim, aguentar o mais possível; a noção de longevidade substituiu a de etapas da vida.

Da mesma maneira que a paz não é somente a interrupção da guerra, mas sim um estado positivo (Spinoza), a felicidade não é ausência de adversidade, mas outra qualidade emocional que não depende nem da vontade nem da subtileza. Podemos não estar tristes, sem estar eufóricos. E podemos ter momentos de êxtase inaudito no meio de uma terrível devastação.

Provavelmente, somos as primeiras sociedades da História que fazemos as pessoas infelizes por não serem felizes. A grande utopia da década de sessenta, como já vimos, foi decretar a satisfação perpétua, o estado de felicidade permanente.

Viver só para a felicidade é viver para uns poucos momentos e atirar fora (aos porcos) todos os outros.