Primeiro, os meios de comunicação lançaram o pânico.

Depois, as pessoas reagiram. Quiseram proteger-se o melhor possível. Exigiram o teletrabalho. As empresas que podiam, fizeram-no. As que não podiam, não.

Finalmente, os governos reagiram. Em Portugal, dois dias depois da primeira morte covid começou o estado de emergência, já depois de muitas empresas estarem em teletrabalho.

O que se passou em Portugal desde então – e continua – pode ser resumido em três frases:

·       Os meios de comunicação alimentam o pânico diariamente. Percebe-se, aumenta as audiências e, em consequência, as receitas. O que não se percebe é a insensibilidade perante o drama social e sanitário que isso provoca.

·       As pessoas continuam em pânico, a querer proteger-se o melhor possível. Percebe-se, é um instinto natural. O que não se percebe é a insensibilidade de impor às outras pessoas que se protejam em absoluto mesmo contra a vontade e a necessidade delas. Naturalmente (e hipocritamente) com excepções, há pessoas que não podem proteger-se, por exemplo na venda de produtos alimentares (não podemos passar fome), nos cuidados de saúde (podemos precisar de tratamento), no policiamento (não podemos estar inseguros).

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·       O governo aproveita o pânico para servir melhor os seus grupos de interesse, sem escrutínio público, nem da oposição, nem dos reguladores, nem dos meios de comunicação. Percebe-se, aproveita a situação para reforçar o seu poder. O que não se percebe é a insensibilidade perante o drama social e a hecatombe de mortos, devido essencialmente à diminuição dos serviços de saúde. Segundo os dados oficiais (evm.min-saude.pt), de 2019 para 2020 houve menos 27% de cirurgias, menos 14% de dias de internamento, menos 18% de consultas hospitalares, menos 38% de consultas médicas nos centros de saúde. Sem surpresa, em 2020 morreram mais 12.287 pessoas do que na média de 2015-2019 (10% a mais), sendo 6.906 pessoas relacionadas com covid (covid19.min-saude.pt). Em 2021 até 16 de Fevereiro, morreram mais 9.311 pessoas do que na média de 2015-2019 (50% a mais), sendo 8.616 pessoas relacionadas com covid.

Será que há algum padrão no comportamento dos meios de comunicação, das pessoas e do governo? Querer o melhor para si independentemente do estrago que isso provoca nos outros? Será isto egoísmo? De acordo com o dicionário, sim.

Sondemos as nossas motivações. Se há pessoas que têm o dever (e o direito!) de continuar a trabalhar normalmente com protecções adequadas, porque exigimos que outras pessoas, com o mesmo direito, parem de trabalhar mesmo que tenham as protecções adequadas? Temos consciência de que isso os atira para a fome, o desemprego, a pobreza? Importamo-nos com isso? É humano? Para os crentes, é cristão? Não será altura de deixar de apoiar o governo quando impõe restrições que deixam tantas pessoas para trás? Não será altura de usar protecções adequadas (máscaras eficazes) e seguir boas práticas higiénicas para termos uma comunidade solidária em funcionamento normal?

Se não o fizermos, em vez de uma comunidade, continuaremos uma egoismidade.

Na egoismidade vivemos centrados em nós, o que é típico das crianças. Temos um comportamento infantil e não nos apercebemos. Culpamos os outros por tudo o que acontece, desresponsabilizamo-nos mesmo quando temos muito poder e influência. Sentimo-nos vítimas do destino e queremos um protector. Não será altura de mudar de comportamento, de procurar o bem dos outros para além do nosso?

Assumamos a nossa responsabilidade, tal como todos os que trabalham nas áreas da saúde, da segurança, dos bens alimentares e de outras, que não têm o mesmo privilégio de agir egoisticamente. Saiamos da egoismidade.

Filipe Simões de Almeida é gestor.