Em 2021 escrevia nestas “páginas” que o fascismo é a emergência da liberdade e não o contrário. A emergência é algo muito querido aos físicos e significa que algo que não detetamos ao nível dos componentes de um sistema e que aparece no seu conjunto, normalmente quando deixamos os seus componentes na total liberdade.
Um dos exemplos tradicionais é a prata. Quando iluminamos átomos de prata isolados, “configuram-se” como verdes e, no entanto, a prata não é verde quando os átomos se juntam num sólido. Podemos ter uma infinidade de átomos de prata verdes a viajar pelo universo depois de inúmeras explosões de estrelas. Quando estes átomos formam um planeta como o nosso – a uma pressão na ordem de uma atmosfera e temperatura na ordem dos 280 graus Kelvin – juntam-se para formar o sólido que usamos nos talheres… prateados, não verdes.
Podemos, da mesma forma, olhar para os portugueses, conhecidos pela cultura de simpatia e educação perante os outros, na sua maioria incapazes de olhar para uma pessoa e dizer que ela não tem direito à vida, ou que os filhos dos outros deviam ser tratados como bichos ou que a infelicidade do seu vizinho não é problema deles. Individualmente, os portugueses são verdes.
Podemos passar o resto da vida a dizer que a culpa é do Ventura, dos desvarios racistas e xenófobos, das pessoas estranhíssimas que o rodeiam, mas o facto é que há cerca de um milhão e meio de pessoas que, sendo individualmente verdes, se juntam para serem prateadas por uma qualquer razão que, desculpar-me-á o doutor Ventura, não é pela eloquência dele, nem pelo ódio irracional aos inimigos que ele escolhe segundo a moda deste ano. O milhão e meio de portugueses verdes que se juntaram para ser prata este fim-de-semana, tinham-se juntado para ser outra coisa nas últimas décadas e decidiram agora que “chega”.
É interessante que quase toda a gente ignore aquele que é o nome e o mote do partido: “Chega” que, em tempos, até foi “Basta!”. O partido foi repetindo ao que vinha nos últimos seis ou sete anos: combater a corrupção de que, alegadamente, viviam os outros partidos. Não eram os imigrantes, nem os ciganos, nada disso faria do partido o segundo partido nacional. Se os portugueses verdes que se juntavam para formar outros sólidos, e agora se juntam para formar este, é porque… chega.
Talvez tenha passado despercebido a muita gente que dos primeiros-ministros que ocuparam o cargo nos últimos 20 anos (vinte anos!), só Pedro Passos Coelho não teve problemas com a justiça ou saiu por suspeitas de trambiquice. E Pedro Passos Coelho foi retirado de primeiro-ministro depois de um golpe palaciano que limpou a sua vitória nas eleições e transformou o parlamento num colégio eleitoral que nomeou o primeiro-ministro à revelia da vontade popular. Evento, aliás, que acaba por dar origem ao crescimento do Chega e da Iniciativa Liberal e que foi, talvez, o maior dos trambiques e que me tornou, a mim, abstencionista para a vida. Mais, o nome de Passos Coelho ainda gera uma enorme urticária em boa parte do regime, não porque os seus colaboradores próximos tenham sido apanhados com dinheiro vivo no gabinete ou porque se tenha descoberto uma qualquer empresa pessoal, mas porque ninguém pode dizer que não foi um tipo decente.
Este é um cenário que dificilmente orgulharia um regime ou, em qualquer cabeça minimamente inteligente, seria experiência a repetir nos próximos vinte anos. Dizer que este país teve tantos primeiros-ministros insuspeitos nos últimos 20 anos, como o Desportivo das Aves tem Taças de Portugal, é obra. Por isso, será, talvez, de uma considerável cegueira achar que os portugueses se vão continuar a juntar para sustentar o mesmo cenário. Não vai acontecer.
O mais estúpido em tudo isto é que foi autoinfligido. Repare-se que quando o Chega começou a ter uma votação relevante, o número de casos de crimes nas suas hostes foi relevante, até pela mediatização do seu ridículo. Mas quem os vem condenar é Ventura, quando os outros optaram pela política dos telhados de vidro. Mais, o atual primeiro-ministro é suspeito de algo que ninguém sabe bem o quê, mas que se suspeita de ser suspeito. Todo o ecossistema que parasita o sistema político português andou a gritar aos ventos que o primeiro-ministro era isto e aquilo, nunca sabendo dizer se aquilo era isto. Ou seja, o ecossistema de parasitas era o primeiro a gritar “chega!”.
A democracia é uma imposição, é um pequeno conjunto de princípios que não devem ser questionados. Princípios muitos simples que até estão inscritos num par de artigos da constituição que devem ter ficado ilegíveis à medida que o topo do estado foi limpando o rabo ao que lá estava escrito. Não precisa de ser estabelecida em duzentos e tal parágrafos sem sentido para as pessoas cujo cumprimento se faz às segundas quartas-feiras de cada mês. É um pequeno conjunto para cumprir sempre.
Quando vemos a IL – aparentemente o único partido que quer rasgar leis, em vez de as fazer – a ser tratada como fascista e como uma ameaça ao regime por querer que a liberdade seja imposta, terá de nos vir à cabeça o cenário que ninguém com dois dedos de testa quer continuar a repetir nos próximos 20 anos: leis que só se aplicam a quem não tem a proteção da política.
A democracia não é uma necessidade primária das pessoas. A liberdade pode bem ficar para depois se não há segurança, comida e justiça. Todos compreendemos que aquilo que é escasso não dá para todos, mas ninguém compreende que haja quem ultrapasse a escassez pela posição que exerce e, no fim, tenha como castigo uma vida de conforto que é negada ao comum.
Essa falta de compreensão fará com que qualquer português individualmente verde se junte num qualquer sólido que diga “chega!”. Mudará alguma coisa? Claro que não, como disse um dia um líder do MRPP, todas as revoluções se fazem de violência. Mas pelo menos as pessoas sabem que não serão os mesmos.