Por motivos que não vêm ao caso, vivi durante alguns anos junto ao centro de Lisboa, a 5 minutos do Marquês de Pombal. Isto é relevante porque, para além de ter tido acesso privilegiado aos festejos do tetra do Sport Lisboa e Benfica – algo de grande valia -, sofria bastante com tudo o que era manifestação. Eram os professores, eram os alunos, eram os auxiliares, eram os trabalhadores, era o 25 de abril, era o espírito do 25 de abril, eram os fantasmas do 25 de abril e tudo o que acabasse em il. Pelo menos uma vez por mês lá vinha uma importante jornada de luta contra a minha pessoa a desfilar avenida da Liberdade abaixo. Porque não era só a Avenida, era a Rotunda do Marquês e, para quem não sabe, o túnel do Marquês era fechado para estacionar os autocarros dos participantes na jornada. Enfim, uma quantidade estapafúrdia de recursos do público dedicada àqueles que contra ele lutavam.

Isto significava que eu ficava isolado do mundo durante uma tarde, a transpirar ódio contra a causa de tal jornada de luta que, na esmagadora maioria dos casos, eram as políticas de direita, porque os manifestantes eram sempre arregimentados pela mesma organização a quem o voto sempre desprezou nos 50 anos que tanto festejam. E porque é que eu digo que as jornadas de luta eram contra mim? Porque não havia assim tanta gente a morar ali e não me lembro de ver ali nenhum ministro da altura (só um futuro primeiro-ministro). Portanto, o incómodo causado pela manifestação não teria por destino um responsável direto pelo andamento da causa pública.

Adicionalmente, a organização em causa é detentora de inúmeros imóveis no país, incluindo um recinto de festas na zona do Seixal que podia ser usada como “manifestódromo”. Como no Rio de Janeiro há um sambódromo para tornar mais cómodos os festejos do Carnaval sem castigar os residentes, um manifestódromo num local mais arejado faria todo o sentido. Haveria abundância de espaço de estacionamento para autocarros, sem ocuparem uma via de trânsito como o túnel do Marquês para o efeito. Afinal, se eu deixar o carro estacionado num local para o efeito na cidade de Lisboa sou multado numas centenas de euros, mas a polícia permite que se estacionem 50 autocarros no meio de uma via fundamental com agentes a servir de “arrumas”, desde que o meu propósito seja lutar contra o estado que me cobra multas. Portanto, fica confirmado, pelos factos e pela lógica, que as manifestações eram contra mim.

Estabelecido que está o inimigo contra quem o evento era organizado, ficou-me sempre na dúvida quem raio eram os amigos. Não me consta que estragar a vida às pessoas que lá viviam tenha trazido benefícios aos professores, aos alunos, aos auxiliares, aos trabalhadores, ao 25 de abril, ao seu espírito e aos seus fantasmas. Na verdade, retirados os panos estrategicamente alinhados de berma a berma da avenida por debaixo das bandeiras vermelhas dos protestantes (curioso como os professores, os alunos, etc., têm todos as mesmas bandeiras), ninguém se lembrava mais a favor de quem a manifestação era feita. Contra, sabia-se. Mas fundamentalmente, o que deveria ser óbvio para todos, era o por quem tal manifestação era feita.

Depois de umas dezenas de manifestações a que, às tantas, ia assistir para ver as táticas organizacionais de como 200 ou 300 pessoas alinhadas na avenida apareciam na televisão como “milhares”, fui percebendo que a causa, tal como o inimigo, eram irrelevantes. E se o inimigo ser irrelevante era um descanso para a minha alma e a causa ser irrelevante deixou de ser, para mim, novidade, já o facto de aquilo existir apenas para proveitos do organizador irritava-me de sobremaneira. Tanto incómodo, tanto ódio, tanto custo económico, para dar protagonismo a alguém que as pessoas rejeitaram completamente nas urnas. Todo aquele espetáculo, toda aquela despesa, todo aquele incómodo, serve para que alguém sem valor se possa mostrar.

Por tudo isto, pela visão privilegiada que tive nesses 4 anos que vivi junto ao Marquês, que me deu uma perspetiva da realidade que as televisões não mostravam (e fake news são os outros…), o que a batizada “Flotilha da Liberdade de Gaza” me trouxe foi um déjà vu desses tempos. Há um inimigo aparente, há uma causa a servir de desculpa, mas tudo serve para proveito dos organizadores.

Como eu com o trânsito cortado, o Estado israelita vai ter de se incomodar com eles, vai ter de os ir buscar, vai ter de os processar de forma legal, não pode afundar simplesmente os barcos e por isso vai ter de assistir àquilo. Havia milhares de outras formas de manifestarem a sua solidariedade para com as pessoas e, inclusive, levarem até lá os alimentos e outros bens? Sim. Mas nessas formas não apareciam na televisão e, logo, essas formas não serviam o propósito. Dane-se o martirizado povo de Gaza, mas sem likes não há morfes.

E podemos estar horas seguidas a racionalizar o ato, que não vamos encontrar uma única vertente pela qual possamos ver tudo isto como positivo para aqueles que supostamente seriam o objeto da jornada. Tal como eu que me via cercado pelas manifestações, não há a menor hipótese de o Estado de Israel achar que está mais certo, ou mais errado, só porque aquelas criaturas encheram umas embarcações de lenços palestinianos e bandeiras de um estado inexistente cujo lema, “do rio ao mar” significa a destruição do próprio Estado de Israel. Mais valia ser “arbeit macht frei” que faria o mesmo efeito. Que o Estado de Israel veja as embarcações como parte daqueles que querem acabar com eles, verá de certeza. Que os veja como elementos apaziguadores, isso não será possível. A dita flotilha é apenas lenha para a mesma fogueira que está a queimar Gaza e só o passaporte de quem viaja nos navios lhes poderá dar o tratamento de “palhaço” que os salvará de serem tratados como inimigos do Estado que são e reclamam ser.

O facto é que se colocarmos a hipótese de que a marinha israelita os ignorasse e os deixasse chegar a Gaza, não conseguimos alinhar um ponto em que seria positivo para os desgraçados que lá vivem? Uns quilos de farinha adicionais para terem de aturar barcos cheios de ocidentais infiéis e de práticas “haram” que ofendem a sua cultura? Era isso aquilo que queriam “oferecer”?

Imagino que as diplomacias dos governos ocidentais tenham de passar agora umas semanas tramadas dedicadas a tirar estas pessoas dos calabouços militares israelitas e sabe-se lá que concessões serão dadas aos israelitas, que esta gente pretendia combater, para os tirarem de lá. Tal como fazer do túnel do Marquês um parque de estacionamento de autocarros, lá teremos mais uma quantidade razoável de recursos públicos dedicados à vaidade e vontade de aparecer de alguns que precisam de reclamar mais valor do que aquele que as pessoas lhes dão. Coisa para que, confesso, começo a não ter pachorra nenhuma.