Durante oito anos, cerca de 50% dos meus alunos eram do “Bairro”, como eles próprios diziam.
Alguns tinham um histórico de retenções; outros eram os melhores alunos da turma. Na altura, os alunos com mais de 16 anos que ainda frequentavam o 9.º ano eram os mais desafiantes. A escola já lhes dizia pouco.
Um dia, um deles afirmou:
— Professora, eu ganho mais num dia do que a professora numa semana.
Respondi-lhe:
— Fulano, fico ofendida. Aqui eu ensino; no teu trabalho, pessoas podem morrer.
Esta frase, dita por um aluno, reflete desigualdade económica, ausência de mobilidade social, a ideia de que o risco compensa mais do que o esforço escolar e a crença de que a escola não garante futuro.
O tal “Bairro” era um bairro municipal no centro de Lisboa, onde vivem pessoas que trabalham, pessoas que vivem do rendimento mínimo e pessoas que fazem o tal trabalho a que o meu aluno se referia. Os alunos chegam à escola às 7h30 para estarem em segurança, embora as aulas só comecem às 8h15. A escola é o único espaço seguro e confortável na vida de muitos alunos.
Outro dia, um aluno, em plena época eleitoral, começou a falar do Partido Chega.
Disse-lhe apenas:
— Deves abrir e ler os programas dos partidos.
Voltando aos números: na cidade de Lisboa, as escolas situadas nas proximidades de bairros sociais são as que apresentam mais problemas de insucesso, indisciplina e violência.
Mas será que estes alunos são diferentes dos outros? Ninguém escolhe onde nasce.
Ao longo dos anos, tendo trabalhado com públicos muito diferenciados, desde contextos desfavorecidos até alunos de classe média alta, desenvolvi uma perceção sobre o crescimento de determinados partidos em certos territórios.
Em Lisboa, nas freguesias que têm bairros municipais, o Partido Chega surge frequentemente em 2.º ou 3.º lugar, apesar de a maioria desses territórios ter executivos do Partido Socialista.
Aqui começa a primeira contradição.
Se os partidos de esquerda defendem a atribuição de apoios sociais, como é que as populações que os recebem mudam, de um momento para o outro, o seu sentido de voto?
Porque é que, apesar de terem direito a habitação e apoios sociais, votam num partido associado ao protesto?
A maioria das pessoas não se preocupa com ideologia, mas sim com os problemas da vida diária e com a segurança.
Se a pessoa sente medo no próprio bairro, isso sobrepõe‑se a renda apoiada, subsídios e programas sociais.
A segurança é um bem de primeira necessidade, quem sempre a teve, não a valoriza.
Nos últimos anos, nos bairros municipais, a insegurança associada ao tráfico de estupefacientes e a degradação das infraestruturas têm aumentado. Estas populações não têm esperança de sair da pobreza, não têm condições nem sabem como melhorar a sua vida e, muitas vezes, nem em casa se sentem seguras.
Não basta construir habitação social. A manutenção destes equipamentos é essencial para garantir e promover uma vida digna.
O voto de protesto não nasce da ideologia. Nasce da falta de segurança, da falta de limpeza, da falta de manutenção das infraestruturas, da dificuldade de acesso a serviços e da sensação profunda de abandono.