Há histórias que nos devolvem a humanidade à velocidade de um gesto. Uma doente internada na Unidade de Cuidados Paliativos da ULS Lezíria pôde, nos seus últimos dias, despedir-se dos seus três cães que não via desde a sua hospitalização. Entraram, encostaram o focinho, reconheceram o cheiro, e por instantes o quarto de hospital deixou de ser um lugar de perda para voltar a ser casa. Para a doente, a visita trouxe conforto e serenidade. Para nós trouxe um lembrete: os Cuidados Paliativos (CP) são, acima de tudo, uma ética do cuidado que reconhece que o fim de vida também é vida.

Depois soubemos mais: alguém acolheu (uma médica da ULS Lezíria) e adotou aqueles animais, garantindo que continuariam bem. Um gesto enorme e que nos lembra que, mesmo quando nada já cura, muito ainda cuida. Esta generosidade adicional acrescenta um pós-escrito luminoso: ainda há esperança na humanidade, e muitas vezes ela habita estes serviços. A cena dos cães não é um detalhe sentimental. É a prova que o sofrimento não se mede apenas em exames. Vive no medo, na ansiedade, no que fica por dizer, nos afetos que dão e trazem sentido. Para aquela doente, ver os seus cães uma última vez era tão clínico como ajustar uma dose de analgesia. E a equipa percebeu isso, abriu espaço, organizou a visita, geriu riscos, respeitou vontades.

Estamos no mês que celebra o Dia Mundial dos CP (dia 11 de outubro). Relembra-nos que ninguém deve morrer sozinho, sem conforto, sem escolhas, sem dignidade. Aqueles profissionais na Lezíria e em tantas outras unidades que fazem acontecer despedidas como esta, não estão a oferecer “mimos”, estão a fazer boa medicina, da que vê a pessoa inteira. É, por isso, um tempo oportuno para olharmos de frente para o que os CP fazem, o que já mudaram e o que o Estado “lhes deve”. Este episódio condensa, numa cena breve, quatro ideias essenciais: primeiro, o cuidado paliativo centra-se na pessoa e nas relações que lhes dão sentido; segundo, aliviar sofrimento é uma tarefa total; terceiro, a presença de animais pode mitigar a dor e a ansiedade; e quarto, por último, políticas públicas adequadas são a diferença entre um gesto raro e uma prática sistemática.

Bastas sairmos um pouco do círculo de quem acompanha estes temas para perceber que a realidade ainda é desigual. Há ilhas de excelência e há deserto. Há equipas que chegam cedo e há pessoas que só “entram em paliativos” quando alguém decide que “já não há nada a fazer” (uma frase que incomoda bastante). Há famílias que recebem apoio ao domicílio e há outras que alternam entre urgências, corredores e silêncio. E tudo isto não depende de milagres, depende de organização e da decisão política.

O Estado tem aqui um teste moral e prático. Moral, porque a dignidade não pode ser lotaria geográfica, pois já nos basta a lotaria genética. Prático, porque os CP evitam internamentos inúteis, aliviam a pressão sobre urgências e permitem escolhas informadas. O que falta? Financiamento estável (não projetos a prazo), equipas comunitárias que cheguem ondes as pessoas estão, ligação real com os cuidados de saúde primários e formação para todos os profissionais envolvidos (desde o médico de família ao auxiliar). E, já agora, burocracia ao mínimo, pois quem cuida do fim da vida não pode perder metade do dia em papeis. Todos estes esforços valem cada minuto quando o que está em causa são os últimos minutos de alguém.

Volto aos cães porque é ali que tudo começou. Gosto de imaginar aquele silêncio bom depois da visita, a respiração a acalmar e o coração a abrandar o ritmo. Houve ali uma paz que não cabe num boletim clínico. E houve também um gesto enternecedor…alguém que disse “eu fico com eles”. É a humanidade a circular: profissionais que não desistem de fazer o que é certo, uma doente que encontra conforto, uma comunidade que ampara o que fica. No meio de tanta notícia sombria ultimamente, é justo sublinhar quando as coisas correm bem. Não para romantizar a morte, mas para afirmar a vida até ao fim.

Se queremos mais histórias como esta, é necessário normalizar o que hoje ainda parece exceção. Os CP não são um luxo, nem remendo, nem a última estação. São um direito e um barómetro da sociedade que somos. Quanto valem, para nós, os dias finais de quem amamos? Valem equipas presentes, tempo para conversar, controlo da dor, espaço para um abraço e quando fizer sentido, a pata de um cão. No fim, os CP dizem menos sobre a morte do que sobre a vida que escolhemos proteger no caminho até ela. A cena daquela mulher a despedir-se dos seus cães, e a certeza de que ficaram bem, é um lembrete sereno: ainda há esperança na humanidade.

Deixo um desejo simples aos decisores: tornem este tipo de gesto politicamente inevitável. Financiem, expandam, formem, integrem. E a todos nós: não esperemos “um dia” para reconhecer quem faz este trabalho “invisível”. Porque a esperança não cai do céu, constrói-se. E, como na Lezíria, também com três cães a dizer, à sua maneira: “estamos aqui”.