Em 2025, o número de candidaturas à 1.ª fase do acesso ao Ensino Superior caiu abaixo das 50 mil. Segundo dados da Direção-Geral do Ensino Superior (DGES), apenas 49.595 estudantes se candidataram – uma queda de 9 mil face a 2024. Um valor só comparável ao de 2018, e muito abaixo dos cerca de 60 mil registados entre 2020 e 2021. É certo que o contexto demográfico pode explicar em parte este abrandamento. Mas há mais. Há razões estruturais, económicas e até políticas que estão a afastar os jovens da Universidade. Os elevados custos de frequência, sobretudo com alojamento, alimentação e transportes são o grande calcanhar de Aquiles.
Num país onde a residência universitária pode custar entre 250 e 450 euros por mês (às vezes até mais), e onde a propina já ronda os 700 euros anualmente, estudar é, para muitas famílias, um esforço incomportável. Pior ainda quando o estudante precisa de se deslocar para outra cidade, sem acesso a apoios adequados ou muitos deles parcos. A ameaça, ainda não concretizada, mas vocalizada, de descongelamento das propinas por parte do Ministério da Educação só agravou o sentimento de instabilidade entre estudantes e famílias.
É este o paradoxo: temos um recorde de vagas disponíveis – mais de 55 mil no regime geral, mais de 20 mil em concursos especiais e perto de 25 mil no Ensino Privado. O acesso formal está aberto, mas o acesso real está cada vez mais condicionado. Este problema não é novo. Já em 2009, num artigo científico sobre a Equidade e acesso e Concorrência Institucional, Magalhães, Amaral e Tavares alertavam para o facto de a expansão do Ensino Superior Português, apesar de massificada, não ter conseguido concretizar a prometida democratização. Dados mais recentes apenas confirmam a atualidade dessa denúncia. Portugal, diziam, era o país europeu onde o background familiar mais influenciava o acesso ao Ensino Superior. Um jovem oriundo de um meio favorecido tinha dez vezes mais probabilidades de entrar na Universidade do que outro com origem num meio socioeconómico baixo.
Sem contar, claro, com outras variáveis tão ou mais relevantes, como ser estudante de primeira geração (ou seja, o primeiro da família a frequentar o Ensino Superior). Dados do Relatório Eurostudent Portugal VIII (2022) mostram que cerca de 45% dos estudantes universitários portugueses são os primeiros da sua família a entrar no Ensino Superior. Esta condição tem implicações profundas: menor capital cultural, ausência de modelos familiares de referência, redes de apoio mais frágeis e maiores desafios na integração académica. Estes estudantes tendem a sentir um duplo afastamento: da cultura académica e do seu meio de origem. A literatura mostra que, mesmo com qualificações semelhantes, estes estudantes enfrentam mais dificuldades financeiras, maiores taxas de abandono e sentimentos de não-pertença. Num cenário de crise económica, esta desigualdade é amplificada e o simples ato de “se candidatar” pode tornar-se uma barreira silenciosa.
Se no passado o obstáculo era a falta de vagas, hoje o obstáculo é o preço da permanência. O Ensino Superior volta a fechar-se sobre si próprio, cada vez mais inacessível para quem mais poderia beneficiar dela. A mobilidade social, que o Ensino Superior devia promover, está ameaçada pela precariedade e pelas desigualdades acumuladas. E ainda há outra questão em cima da mesa: será que os jovens continuam a acreditar que ter um grau académico superior vale a pena? A resposta pode não ser tão óbvia quanto se imagina. Embora as estatísticas apontem para uma taxa de empregabilidade de 82% três anos após a conclusão do curso, muitos licenciados acabam em empregos indiferenciados, mal remunerados ou em situações de precariedade crónica. Há uma crescente sensação de desalinhamento entre as expectativas académicas e a realidade laboral, o que fragiliza a perceção social do valor do diploma.
Aliás, a própria oferta de cursos pode até levantar certas dúvidas. Em anos anteriores, dezenas de licenciaturas ficaram sem qualquer aluno colocado na primeira fase. Há, claramente, uma desconexão entre a oferta formativa e os interesses (ou realidades) dos jovens. Perante este cenário, torna-se urgente repensar o modelo: precisamos também de menos dispersão de cursos e mais orientação vocacional sólida, feita em articulação entre escolas secundárias, instituições de Ensino Superior e o tecido económico.
As soluções não são simples, mas os sinais de alerta estão por todo o lado. Continuar a ignorá-los é empurrar o Ensino Superior para um modelo de exclusão silenciosa. E, com isso, não perdemos apenas candidatos, perdemos futuro, talento e coesão. Porque, afinal, não há soluções individuais para problemas que são sistémicos.