“A globalização económica é uma nova forma de totalitarismo”, disse José Saramago há mais de duas décadas numa entrevista do Programa do Jô, de Jô Soares. Na altura, a frase soou a provocação, talvez a excentricidade de um Nobel irreverente. Hoje, ressoa menos como exagero e mais como interrogação incómoda. Não como anúncio apocalíptico, mas como diagnóstico inquietante. Cumpre-se no silêncio dos ecrãs, no ruído opaco dos mercados, na normalização de uma democracia que se afirma plena, mas que se revela cada vez mais condicionada.

Talvez o que Saramago parecia intuir não fosse a repetição dos totalitarismos clássicos do século XX, com uniformes, censura explícita e culto da personalidade. O que estava em causa seria antes uma forma difusa de concentração de poder: uma lógica de governação sem rosto exercida através de mecanismos económicos e tecnológicos que operam para além do escrutínio democrático tradicional. Um poder que não se impõe pela força visível, mas pelo enquadramento estrutural do possível.

Vivemos numa era em que o poder se impõe com taxas de juros e taxas comerciais. O medo deixou de ser o da “censura q.b.” e passou a ser o da instabilidade económica. Muitas das decisões que moldam o destino das nações já não são tomadas exclusivamente nos parlamentos, mas nos conselhos de administração e nos fóruns económicos de Davos. E tudo isto, o mais assustador de tudo, acontece com o nosso consentimento tácito. Porque votamos, clicamos e compramos. Porque confundimos liberdade com escolha de produto, e cidadania com fidelidade digital.

Não há voto direto sobre a taxa diretora do Banco Central Europeu. Não há referendo sobre a precariedade estrutural ou a financeirização da habitação. Aliás, a financeirização da vida não é um conceito abstrato, é o aumento brutal das rendas nas cidades, é o crédito como condição para viver, é o estudante que trabalha à noite num call center e tem um part-time ao fim de semana para poder pagar as propinas e o quarto minúsculo. É a austeridade travestida da racionalidade. E, se se tenta problematizar este quadro, a resposta não é a censura clássica, mas algo mais subtil: invisibilidade. O algoritmo não mostra, o motor de busca não prioriza, a bolha digital isola. A forma contemporânea de silenciar é deixar de amplificar.

A estrutura de poder que aqui se desenha não queima livros, mas pode transformá-los em produtos de nicho, consumidos mais como objetos de prestígio do que como instrumentos de pensamento crítico. Não prende dissidentes, mas pode descredibilizá-los ou diluí-los na saturação informativa. Não proíbe alternativas, mas frequentemente torna-as economicamente inviáveis. O que se impõe é uma hegemonia mercantil onde até a crítica corre o risco de ser absorvida e rentabilizada. Até a arte se vê aprisionada neste sistema. Já não se lê para pensar, lê-se para citar. Já não se vê cinema para ser transformado, mas para comentar nas redes. A cultura, quando desligada da sua dimensão ética, pode tornar-se ruído de fundo, estética de superfície e desprovida de densidade crítica.

Entretanto, a precariedade instala-se como norma, a desigualdade galopa sob o disfarce da meritocracia, e a catástrofe ambiental continua a ser adiada para depois das próximas eleições ou do próximo trimestre fiscal. E nós, espectadores de tudo isto, vamos naturalizando a barbárie em suaves prestações. Independentemente da alternância partidária, o imperativo do crescimento económico mantém-se como horizonte quase indiscutível. Mude o governo, altere-se o discurso, mas o eixo permanece: crescer, competir, acumular.

Não se trata de negar os ganhos da interdependência global, nem de idealizar um passado soberano que nunca foi plenamente democrático. Trata-se antes de interrogar os limites da democracia quando o poder económico opera numa escala que o voto dificilmente alcança. Quem decide, afinal, o que é possível? E quem define os contornos do impossível?

Outros pensadores têm refletido sobre estas transformações. Zygmunt Bauman chamou-lhe “modernidade líquida”, Byung-Chul Han fala de um “totalitarismo da positividade”, e Shoshana Zuboff alerta para o capitalismo de vigilância. Em registos distintos, todos apontam para o mesmo dilema: a liberdade prometida pela globalização tornou-se uma forma dissimulada de controlo, mais eficaz por ser invisível, mais perigosa por parecer voluntária.

No tempo em que vivemos, não é preciso um uniforme ou uma saudação ritual para experimentar formas de limitação democrática. Basta aceitar, sem protesto, que o mundo seja governado por forças que não elegemos; que a dignidade seja tratada como custo e a justiça como variável orçamental; que o futuro se subordine a projeções de crescimento apresentadas como inevitáveis.

Talvez seja por isso que a frase de Saramago mereça regressar ao centro do debate, não como panfleto, mas como ponto de partida para reflexão. Não como acusação simplista, mas como convite à consciência. Voltar a lê-lo pode não oferecer soluções imediatas, mas pode ajudar a recentrar as perguntas. Não como quem apenas folheia um clássico (faço mea culpa), mas como quem procura um mapa. Um mapa para sair da caverna, para acender a luz, para reaprender a ver o mundo para além dos filtros do consumo e da indiferença.