Deixo já a punch line, para não perdermos tempo: viver não tem botão de “avançar 10 segundos” e, quando tentamos instalá-lo, perdemos precisamente aquilo que queríamos ganhar: sentido.
Estamos numa época em que tudo tem de vir pré-processado: o trailer entrega o enredo, o twist e uma promessa de universo expandido antes de acabarmos o primeiro gole de café; a sinopse do livro faz o trabalho que era da leitura; a música que passa dos três minutos é um “álbum” e, se o refrão não chega cedo, o dedo salta como um reflexo pavloviano para a próxima faixa. Até as conversas, se pudéssemos, teriam uma barra de progresso: arrastaríamos a confidência até ao clímax, dar-lhe-íamos 2x de velocidade e, se a narrativa pessoal não se tornasse interessante ao fim de trinta segundos, “próximo”. O drama é que, muitas vezes, não há “a parte interessante”, há a parte humana, que é feita de hesitações, pausas, silêncios e frases que só encontram sentido na terceira tentativa.
Vivemos num mundo pautado pela eficiência e dizem-nos que isto faz parte. E, em dosagens homeopáticas, até poderá ser verdade. Que luxo poder ouvir um sumário antes de ver um filme péssimo. Que bênção poder acelerar uma receita de como fazer o risotto perfeito, que se arrasta. O problema começa quando transformamos a exceção em regra e confundimos atalho com caminho. O atalho encurta; o caminho, forma-nos. Entre um e outro vai a diferença entre decorar a punch line e compreender a piada.
A impossibilidade da espera não nasceu do acaso, foi desenhada. Há um mundo inteiro de pequenas alavancas, o “skip intro”, o “autoplay”, a pré-visualização automática, o clipping do refrão, pensado para esculpir a nossa atenção como quem faz espuma num cappuccino acabado de fazer no Starbucks: volumosa ao início, nada no fim. Treinámo-nos a antecipar o pico de dopamina e, como qualquer treino, cria tolerância. O que ontem bastava, hoje aborrece, é um tédio desmesurado. O que hoje entusiasma, amanhã cansa. E assim, vamos subindo o volume do estímulo e baixando o limiar do espanto.
No meio desta pressa programada, há um paradoxo que nos persegue: porque sabemos que vamos morrer, achamos que acelerar irá nos poupar à sensação de desperdício. “Não tenho tempo a perder”, repetimos. Mas é precisamente no acelerador a fundo que o tempo se evapora, liso, impessoal, sem rugosidade. A memória não guarda velocidades, guarda texturas. Lembramo-nos do esperar pelo pão quente, da conversa antes do ponto de viragem, do fade-in lento de uma canção que não se rendeu ao algoritmo, do filme que só se revela a dois terços do fim.
A espera, essa palavra já bastante diluída e olhada com aversão, não é um vazio a preencher, é um espaço de fermentação. É nela que uma ideia encontra uma segunda ideia e decide ficar. É nela que um livro nos obriga a atravessar páginas “mortas” antes de acender a verdadeira chama. É nela que descobrimos que o refrão, vindo cedo demais, não é refrão: é slogan. A espera dá direito a segunda camada, a aceleração dá apenas direito a repetição. Claro, já quase todos nós avançamos para a frente em vídeos, já quisemos andar em 2x na vida. Todos os dias a ansiedade volta e nada nos satisfaz como antigamente. Quando tudo à nossa volta pede o “aqui e o agora e desta maneira”, dando-nos ferramentas para tal, torna-se difícil não ceder à tentação.
“Pois…mas e o tempo? E a vida curta?”: perguntará a parte pragmática de nós. Sim, a vida é finita. Sim, a curadoria prévia tem utilidade. Mas a finitude não é um convite à pressa automática, é um convite à escolha responsável da demora. O que vale a pena ser demorado? Em que é que a velocidade é virtude, e em que é que é desistência? Não se trata de declarar guerra ao progresso, mas de recuperar uma competência que nos andaram a roubar por dentro: a capacidade de aguentar o início sem explosões, a disponibilidade para uma cena que prepara outro take, para um capítulo que afunda antes de emergir. É, no fundo, readquirir o direito ao tédio fértil, esse terreno onde, de repente, percebemos as coisas.
A aceleração empobrece o próprio ato de criar. Escrever para um leitor com o pensamento pré-programado eu não tem tempo a perder, é como cozinhar para alguém com parte da comida já mastigada: tempera-se a mais, adoça-se cedo, encurta-se o molho. E a seguir estranhamos porque tudo sabe ao mesmo. O risco de perder o leitor faz parte do risco de lhe oferecer algo. A alternativa é não o perder nunca, e nunca o ganhar verdadeiramente. Na verdade, sempre aconteceu este tipo de situações, mas hoje a versão condensada tornou-se o padrão, e a integral, a excentricidade. A ideia que os objetos culturais pioraram ao longo do tempo, é enviesada pois o que parece é que consumimos tudo em modo demonstração e a própria vida começa a parecer uma demo.
No final, volto ao início: não há botão que avance a vida sem que percamos a verdadeira emoção – a viagem. Se a morte nos lembra que o tempo é curto, a espera lembra-nos que o tempo é sagrado. E a profundidade, essa, não se mede em minutos poupados, mas em significado ganho. Talvez seja esta a resposta mínima e insubmissa à época do “já”: escolher, aqui e ali, a demora que nos devolve a capacidade de espanto. A punch line pode vir no começo para nos prender, mas é tudo o que acontece depois que nos mantém.