Identidade de Género

A Esquerda e a libertação do Homem

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Vamos dar esta mensagem a jovens de 16 anos: “Ainda não tens maturidade suficiente para ingerir uma cerveja, mas não nos opomos a que troques de sexo”. Serei o único a ver algo de patológico nisto?

Esta semana – um mês após a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) ter “recomendado” à Porto Editora que retirasse dos postos de vendas os famosos livros de exercícios para rapazes e raparigas – fomos brindados com as notícias relativas às alterações que Governo, Bloco de Esquerda e PAN pretendem introduzir na lei com vista a facilitar os procedimentos para mudança de sexo.

Estes episódios são sintomáticos de uma forma de ver o mundo e a natureza humana que, hoje como antigamente, justificam a necessidade e pertinência do recurso aos termos esquerda e direita. Um dos traços distintivos da “díade” (para usar a nomenclatura do italiano Norberto Bobbio) é a leitura que cada uma faz dos infortúnios que nos assolam: as injustiças deste mundo, nomeadamente a desigual distribuição de bens e riquezas, são fruto não da natureza humana, mas do sistema instalado por uma elite corrupta e usurpadora (a “burguesia”), que explora o homem pelo homem. A origem das injustiças não está no Homem, mas nas instituições.

Para libertar o Homem desta situação de opressão, a esquerda advoga-se protectora de uma nova ordem. A emancipação do Homem apenas será atingida mediante a destruição ou desconfiguração de todas as estruturas baptizadas ou abraçadas pela “ordem burguesa”, i.e., as instituições, os costumes ou as convenções que caracterizam o nosso mundo Ocidental. A família “tradicional”, as normas morais ou o modelo educativo são apenas alguns dos alvos a abater ou, no mínimo – porque a ideia de “destruição” não é eleitoralmente apelativa – a desvirtuar. É por isso que o Bloco de Esquerda e seus congéneres querem fazer do casamento o que a cada um aprouver (não tardará muito a que sigamos os passos de países como a Colômbia para começarmos a permitir o casamento a três ou, quem sabe, a dez); relativizar todas os juízos morais, acabando com os “preconceitos” associados às ideias obscuras de “certo” e “errado” e adoptando o utilitarismo como modus vivendi; e, agora, como está fácil de ver, permitir que cada um se liberte das limitações decorrentes da sua própria natureza, adoptando o “género” que entender.

Se Deus está morto, é muito importante que alguém assuma as suas rédeas. É o que esta esquerda positivista pretende ao avocar o estatuto de definidor daquilo que somos. Se nasceste homem e pretendes ser mulher, não há por que te preocupares: basta deslocares-te a uma Conservatória do Registo Civil. A fixação da esquerda com esta agenda “progressista” é de tal modo obsessiva que, sem nos darmos conta, caso a proposta do Bloco de Esquerda venha a ser acolhida, teremos um ordenamento jurídico que não permite a um jovem de 16 anos consumir álcool, mas já lhe permite mudar de sexo. “Ainda não tens maturidade suficiente para ingerir uma cerveja, mas não nos opomos a que troques de sexo”. Serei o único a ver algo de patológico nisto?

A frase “há vida para além do défice” tornou-se célebre durante os famigerados anos da troika. É bom que assim seja também ao longo desta legislatura já que, enquanto nos desdobramos em debates sobre questões meramente económicas (logo nós que tanto criticámos os tecnocratas…), a esquerda implementa a sua agenda cultural e progride nas suas intenções de libertação do Homem e de destruição das estruturas que conhecemos. Mais do que nos preocuparmos com o défice que queremos deixar às próximas gerações, talvez fosse importante que nos preocupássemos com que mundo queremos deixar aos nossos filhos.

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