Terça-feira desta semana, dia 24 de Junho, Assembleia Municipal de Lisboa. Debate sobre a Moção (do PEV) “Prioridade aos incentivos à habitação acessível”. Assente nas habituais mentirolas e caricaturas, o documento do PEV pedia mais habitação pública, menos alojamento local, mais construção a custos controlados, enfim: mais Estado. Ou seja, mais burocracia, mais concursos e contratos, mais obras públicas, mais esquerda a mandar; fatalmente, mais corrupção e menos liberdade individual.
Temos um problema grave de habitação, é uma verdade indesmentível. É também verdade que não se resolve desta maneira, como de resto os últimos anos se encarregaram de mostrar. E ainda é mais verdade que a esquerda não está disposta a aceitar as políticas que poderiam contribuir para o resolver, já que todas essas políticas embatem nos interesses da esquerda, diminuem-lhe os poderes, e ferem-lhe as crenças que ela embala no fundo do coração.
Mas este texto não é sobre o preço das habitações: é sobre a duplicidade da esquerda. Regressando ao documento do PEV (Moção nº 182/02) a chave encontra-se no seguinte parágrafo:
“Quando uma cidade assiste à debandada dos seus nativos e dos seus residentes, por muito “lavada” e renovada que esteja, passa a estar reconhecida como uma comunidade sem alma, socialmente descaracterizada e com uma economia depauperada.”
Assim, letra por letra, “nativos” e tudo. Não interessa a gramática, nem a prosódia, nem o facto de sermos oprimidos pela prosa semi-instruída que a esquerda produz. Aqui, o PEV tem toda a razão. O que o PEV diz no seu documento oficial está inteiramente certo. Fosse o parágrafo apresentado por um partido de direita e estava instalado o escândalo por “racismo” e “xenofobia”.
Efectivamente, a cidade, como o país, é um conjunto constituído por um território e um determinado grupo de pessoas. Sobretudo por pessoas. Quando as pessoas mudam, e se mudam bruscamente, e em números tão elevados quanto 10 a 20 por cento da população, o país deixa de ser o mesmo – como a cidade deixa de ser a mesma.
O PEV compreendeu que os noruegueses e gregos, como os nepaleses, paquistaneses ou bengalis não querem saber do Santo António. Não ouvem a Amália, não marcham Avenida abaixo nos Santos Populares, não jogam as damas ou a sueca no jardim público e não frequentam a Sociedade Recreativa de que a esquerda tomou conta. Os estrangeiros são uma massa de gente incompreensível cujos comportamentos a esquerda não compreende nem prevê. E foi por esta via, não pelos bons sentimentos de “humanismo”, que a esquerda se apercebeu de uma alteração social. Mais: a esquerda, que em larga medida ainda manda nos bairros mais pobres, vê os eleitores dela a queixar-se, e a mudar de bairro assim que podem, e a serem substituídos por gente incompatível com os modelos habituais.
Que a esquerda consiga constatar o problema, é uma boa notícia. Mas dispensamos que se apresentam armados em virgens púberes quando ele aparece, posto pela direita, em termos rigorosamente iguais.