Há dias foi anunciado, em comunicação oficial com o selo do Ministério da Saúde, a abertura de candidaturas para uma “Bolsa de Peritos em Naturopatia”, promovida pela Administração Central do Sistema de Saúde. Não é sátira. Não é desinformação. Está mesmo a acontecer: o Estado português está a financiar, com dinheiro público, aquilo que não é ciência, não é medicina, não é conhecimento verificável.
E convém ser científico antes de ser opinativo.
A naturopatia não é reconhecida pela comunidade biomédica como prática eficaz. Não tem mecanismos plausíveis de ação. Não possui dados robustos que suportem as alegações que faz. Na maioria das vezes, confunde correlação com causalidade, substitui ensaios clínicos por testemunhos, e usa terminologia pseudocientífica para dar ar de rigor ao que não passa de crença.
É importante sublinhar: aquilo que define a ciência não é o entusiasmo, nem a tradição, nem a popularidade. É a evidência. Reprodutível, transparente, escrutinável.
A naturopatia não cumpre estes critérios.
Se dúvidas houver, basta consultar revisões sistemáticas e meta-análises em áreas como oncologia, imunologia ou dor crónica: os resultados variam entre o nulo e o inexistente. Em sentido inverso, abundam casos de atrasos no diagnóstico, interferência nociva com terapias comprovadas e criação de falsas expectativas. As ordens profissionais sérias alertam repetidamente para estes riscos. A Organização Mundial da Saúde sublinha que terapias alternativas não devem ser apresentadas como substitutos de tratamentos eficazes, especialmente em doenças graves.
Mas em Portugal decidimos premiar “peritos”. Peritos em quê? Em não curar? Em distrair o doente? Em vender esperança onde é preciso intervenção médica?
A questão não é cultural, é ética. E económica. Porque o dinheiro que sustenta delírios não paga melhores cuidados primários. Não reduz tempos de espera. Não aumenta vagas na oncologia. Não contrata psicólogos, enfermeiros ou médicos que precisamos desesperadamente. Não financia ciência que resolva problemas reais.
A pergunta é simples. Quem avalia estas candidaturas? Que critérios de eficácia, segurança e validação são exigidos? Que resultados são esperados para justificar investimento com retorno social?
A resposta, temo, é o silêncio complacente.
Há quem argumente que “se as pessoas acreditam, mal não faz”. Falso. A pseudociência faz mal. Afeta diagnósticos. Prolonga sofrimento. Drena recursos limitados. Abala confiança nas instituições científicas. E cria mercados altamente lucrativos para quem vende ilusões com roupagem terapêutica.
O Estado tem a obrigação de proteger os cidadãos de charlatanices, não de as legitimar. Tem o dever de financiar conhecimento, não superstição. Tem de pôr rigor antes da moda ideológica.
Defender isto não é intolerância. É responsabilidade pública.
É precisamente quando o poder político se recusa a ser o adulto na sala que a irracionalidade se institucionaliza. Que o dogma entra pela porta da frente do Estado. Que a evidência perde para a retórica.
A ciência não é um teatro. E os contribuintes não são plateia para pagar espetáculos sem fundamento.
Investir em conhecimento é essencial. Desperdiçá-lo em fantasia é inaceitável.
Talvez esteja mesmo na hora de perguntar: quem fiscaliza o rigor? Quem dá a cara pelo desvio? Quem assume que isto ultrapassou o patamar do ridículo para entrar no campo do irresponsável?
Não, a naturopatia não trata o cancro. Só trata a esperança de quem tem medo.
Não, a naturopatia não fortalece o sistema imunitário. Só fortalece o negócio de quem a promove.
Não, a naturopatia não é alternativa à ciência. Só é alternativa a resultados.
As palavras são baratas. As bolsas não.