1 Machos Alfa
Devido a um viés anti-tecnologia, evitei durante muito tempo uma sugestão do algoritmo da Netflix até compreender o meu erro. Apesar do título e de se tratar de uma série espanhola, Machos Alfa não é mais uma diatribe feminista contra os homens: é, antes, um bom retrato das transformações mais obtusas que nos últimos anos assolaram as nossas sociedades e nos fizeram duvidar da sanidade mental do Ocidente, desde a defesa do poliamor até à confusão trans que tentam meter na cabeça das nossas crianças. O resultado foi uma série sobre o lugar de incompreensão em que homens e mulheres se encontram e fá-lo de uma forma muito divertida.
Como tenho argumentado, parte dessas transformações, e da confusão que geram, resulta de se ter familiarizado no discurso público a ideia da “página em branco”: a ideia de que nascemos como tábuas rasas, pelo que tudo o que somos e pensamos seria resultado de mera construção social – uma convicção especialmente errada quando é utilizada para defender que não há diferenças entre homens e mulheres.
Em sentido contrário, as teorias que melhor permitem compreender a realidade partem não só do pressuposto de que existem diferenças biológicas entre os dois sexos, como ainda de que essa diferença se verifica também acima do pescoço, pelo que herdamos estruturas cognitivas e psicológicas que resultam do processo evolutivo.
Isto não significa negar uma certa variabilidade individual, mas significa que, de acordo com uma regra de distribuição normal, homens e mulheres agrupados apresentam características distintas – e foi precisamente o reconhecimento dos contributos da psicologia cognitiva que levaram Helen Andrews a formular o argumento que analisamos na semana passada.
A verdade é que, embora possam existir exceções, homens e mulheres tendem a comportar-se de determinada forma e é por essa razão que não é possível separar sexo e género, como algum feminismo da segunda metade do século XX tentou fazer. Em muitas dimensões, as duas coisas estão interligadas, e é por isso que projetos de engenharia social tendem a dar maus resultados.
2 Pernille
Depois de me ter divertido com a sátira espanhola, levei o algoritmo mais a sério quando me recomendou a série Pernille, realizada e protagonizada por uma comediante norueguesa. O contexto remete para o universo dos países nórdicos, sempre usados como referência para sociedades mais igualitárias em termos “de género”, mas o enredo é particularmente bom a retratar aquilo que no mundo académico tem sido designado, desde 2008, como o paradoxo da felicidade feminina, e que tem sido sucessivamente confirmado desde então (v.g.; v.g.).
O paradoxo encontra-se aqui: apesar de todas as medidas adotadas para melhorar as condições sociais e laborais das mulheres desde 1970, os índices femininos de felicidade e bem-estar encontram-se abaixo dos registados nessa década. Ou seja, apesar de todas as transformações, as mulheres não estão mais felizes.
Muitas razões têm sido apontadas para este paradoxo (e que podem divergir, claro, de país para país): o ingresso das mulheres no mercado de trabalho, com todas as responsabilidades que daí decorrem e que condicionam a realização de projetos de casamento e maternidade; o enfraquecimento das relações matrimoniais e o divórcio como recurso fácil; as famílias monoparentais, que geram condições de maior fragilidade económica e de educação desadequada para as crianças; ou a desestruturação comunitária e a vida em grandes sociedades ou no estrangeiro que limitam o apoio familiar.
Todos estes aspetos podem ser sintetizados na grande mentira que, nas últimas décadas, tem sido repetida às meninas: a de que é possível as mulheres terem tudo. Não podem. Ninguém pode.
E é provável que o momento em que a mulher se confronta de modo mais claro com este quadro de contradições seja quando se torna mãe (quando o consegue) e se vê mergulhada na radical solidão da maternidade.
3 A solidão feminina
Considerando a crise de infertilidade, o tema da solidão da maternidade tornar-se-á, com muita certeza, num dos temas mais abordados dos próximos anos. Como chama a atenção Louise Perry:
“Não é normal que os pais criem os seus filhos em isolamento. Durante mais de 95% da história da nossa espécie, fomos caçadores-recoletores, vivendo geralmente em pequenos grupos e constantemente rodeados por outras pessoas. Tradicionalmente, eram as mulheres após a menopausa — especialmente as avós maternas — que estavam mais profundamente envolvidas no apoio aos pais jovens. Na verdade, alguns investigadores acreditam que é por essa razão que as mulheres passam pela menopausa, um fenómeno observado em apenas algumas outras espécies. Os nossos bebés vêm ao mundo tão indefesos e a díade mãe-filho é vulnerável por tanto tempo que os nossos antepassados dependiam da ajuda não maternal para manter os seus filhos vivos.”
Basta recuar duas ou três gerações no nosso país (depende da região) para as mulheres falarem sobre isto: de como a mãe devia ficar um mês de cama após o parto e de como todas as tarefas em casa eram realizadas por outras mulheres, da família ou vizinhas, que ajudavam neste momento difícil.
De facto, não evoluímos para ter filhos sozinhas e não é pelo facto de as condições sociais e tecnológicas atuais o permitirem que isso se torna correto. As sociedades atuais parecem desajustadas à nossa natureza e a tristeza que sentimos é o sinal desse desajustamento.
E se é verdade que muitas medidas de apoio à maternidade são exigidas ao estado – medidas que levantam muitas dificuldades à agenda para a “igualdade de género” –, é na sociedade civil que devemos procurar respostas para lidar com o problema da solidão, criando estruturas de apoio (como grupos de partilha), recuperando o compromisso familiar e um sentido mais alargado de família e garantindo formas de cooperação (com espaço para a Igreja desempenhar aqui um papel importante). Não estamos é condenados ao paradoxo que o feminismo progressista nos legou.
PS: Farei uma pausa durante o mês de dezembro, com a promessa de regressar no início do novo ano. Deixo a todos os leitores, e às suas famílias, votos de um Santo Natal.