Quem é Ulisses? Será o homem calculista, sem escrúpulos, da Ilíada e de outras obras do Ciclo Épico, o político hábil de Ájax e Filoctetes, ou o herói da Odisseia? A literatura ocidental, cuja génese é fundamentalmente homérica, assenta na ambiguidade da condição humana — outra figura seminal, Jesus Cristo, tanto renuncia à paz e ameaça com a espada, como oferece a outra face à injúria. É essa ambiguidade que deve ser comunicada a todas as gerações, seja na forma dos poemas homéricos e do drama trágico, seja através dos contos de fadas – e o que são alguns episódios da Odisseia, como o confronto entre Ulisses e Polifemo, senão a origem das histórias de encantamento? É bom que os homens descubram, ou intuam, desde cedo, que estamos cercados por monstros e que dentro de cada um de nós habita o mais selvagem. Lamentavelmente, as doutrinas liberticidas e a mediocridade triunfaram sobre a cultura e o bom senso.

Primeiro, desapareceram os clássicos. Da Íliada a Dom Quixote, passando por Sófocles, Virgílio e Dante, a razia remeteu as obras fundadoras para os covis académicos e a insignificância pública. Sobra um certo reconhecimento popular da sua importância histórica, mas a opinião geral é a de que são obras datadas, sem lugar no mundo moderno, algumas até incompatíveis com a peculiar ideia de humanismo que vingou na sociedade.

Recentemente, na sua coluna semanal na imprensa espanhola, o escritor Arturo Pérez-Reverte contou uma história que ocorreu na Argentina, mas que ilustra bem o estado da civilização ocidental. Trata-se de um episódio na vida de uma menina de quatro anos, educada pelos pais, apaixonados pela Grécia Antiga, na literatura e cultura gregas, na ira de Aquiles, na Odisseia, nas aventuras dos Argonautas, de Hércules, de Teseu, e na restante mitologia, tudo convenientemente adaptado à sua idade. Um dia, na escola, a educadora apercebeu-se de que a menina sabia contar de um a sete em grego, que conhecia várias palavras no idioma de Homero, e que o seu herói favorito era Aquiles. Estava aberta a caça aos hereges.

Os pais foram imediatamente chamados à direcção da escola e repreendidos por deixarem a filha de quatro anos ver Tróia, o filme de Wolfgang Petersen com Brad Pitt. A dedução, desde logo, é reveladora do espírito dos tempos: não passou pela cabeça da directora que a criança pudesse ter contacto com a Grécia Antiga por vias mais tradicionais. Porém, esclarecida a questão, o ralhete prosseguiu. De acordo com a senhora, as crianças «não devem consumir mitologia grega porque conta histórias violentas», «os mitos não têm utilidade prática», «o grego clássico é uma língua morta», e aprender estas inutilidades, avisou a directora, pode converter a menina numa marginal, excluída do grupo pelos colegas «normais». Segundo consta, os pais não se deixaram intimidar e abandonaram a sala com um aviso: se a cena se repetir, retiram a filha da escola e fazem queixa às autoridades competentes. A coragem do casal é admirável numa época de gente pequena que se submete a qualquer poder institucional, mas o que esta história atesta é o valor da cultura clássica no ensino e na sociedade dos tempos que correm: quase nulo.

Arrumados os clássicos incómodos, os alvos seguintes foram os contos de fadas e o folclore literário: qualquer dia, quem contar a Branca de Neve às criancinhas arrisca uma denúncia pelos crimes de apologia do assédio sexual ou ofensa aos anões (e nestes tempos de fascismo idiomático, usar a palavra «anão» já é um risco). Conforme as teses progressistas que se propagam com celeridade nos colégios e universidades ocidentais, a Pequena Sereia, coitada, foi privada do seu «género» quando lhe tiraram a cauda de peixe e a substituíram por duas pernas, o Monstro devia estar preso por maltratar a Bela, e o Príncipe denunciado por importunar sexualmente a Branca de Neve. O Lobo Mau, presume-se, está isento de julgamento por mediação das associações animalistas.

O resultado está à vista: vivemos hoje sob o ruído infernal da chamada «geração floco de neve», que se caracteriza pela ofensa fácil, intolerância às opiniões divergentes e egolatria patológica. A multiplicação dos filhos únicos e a obstinada tendência da geração anterior – já por si instruída no maniqueísmo e na intolerância — para insuflar o ego da prole e transmitir-lhe um sentimento de singularidade, só contribuiu para agravar o problema, cuja origem, não obstante, está na educação formal e metodológica, isto é, na escola. Os filhos, hoje, chegam a ser usados como cavalos de Tróia do progressismo que tomou conta do ensino oficial: bem providos de raiva e prédicas moralistas, são enviados para casa com a missão de vigiar e evangelizar os pais que não reciclam, que não comem quinoa, que não dizem «presidenta», ou que, em geral, desconfiam das virtudes do novo marxismo ecocultural.

O mal está feito, tem raízes profundas, e não se resolve com reformas. É preciso abater e reerguer todo o sistema educativo (de preferência de forma descentralizada e espontânea), até porque o terceiro passo no processo de negação da cultura ocidental já está em curso e passa pela reformulação da História de forma a encaixá-la nos padrões societais hodiernos. Veja-se a disciplina proposta recentemente pelo Ministério da Educação português, chamada História, Culturas e Democracia, que não é mais do que um veículo para os ideais progressistas e socialistas, e uma demonstração categórica de que a imbecilidade e o descaramento das criaturas que ascenderam aos poderes públicos não têm limites.

Cabe aos pais responsáveis e isentos da contaminação ideológica impor a sua autoridade (de pais e de contribuintes) e deter o desastre em curso. Compete-lhes fazer o que fizeram os pais da menina argentina que gosta de Aquiles: lutar para que os filhos possam ser ensinados com os meios, os temas e as obras que foram sufragados pelo tempo, e cuja validade não pode ser posta em causa por agendas políticas, muito menos pelo delírio de feministas, ecofascistas, pacifistas primários e outras seitas, que fervem quando vêem um crucifixo numa escola pública ou quando lêem um masculino genérico no Twitter, mas que não se reprimem de encher a cabeça dos filhos dos outros com as suas próprias extravagâncias, nem de, se tiverem oportunidade, verter o procedimento em letra de lei. O labor dos fanáticos é neurótico, hostil e profundamente nocivo. Travá-lo é um imperativo moral.