O país tem vivido dias terríveis à conta dos incêndios. Dias que a grande maioria dos portugueses não esperava voltar a viver. E não esperava porque esta é uma problemática complexa, que é mal entendida pelo público em geral. O que é, aliás, mais que natural – a maioria das pessoas, eu e os leitores incluídos, não tem grande conhecimento específico sobre a maioria dos problemas, acabando por confiar, ainda que com maior ou menor prudência, nas organizações que suporta com o pagamento de impostos, para lhe solucionar os problemas.
Stephen Pyne deu-nos (e deu-nos especificamente a nós, num artigo – de vários – que escreveu sobre o nosso país em 2006), não obstante, um enquadramento:
“Contrariamente aos restantes elementos – água, terra e ar – o fogo não existe por si próprio. É, antes, uma reacção, a soma brilhante das suas circunstâncias. É uma criação do seu contexto. Conhecer esse contexto é conhecer o fogo. Controlar esse contexto é controlar o fogo.”
E que contexto é, então, esse?
Também não é nenhuma novidade.
“Estamos em frente de um problema de enorme amplitude económica e social que exige outras soluções para além da benemerência e sacrifício dos Bombeiros, que apesar do seu heroísmo, não têm poder nem meios que lhes permitam debelar um perigo que está a tornar-se o inimigo número um das pessoas e dos haveres desta gente das Beiras, já tão atormentada pela dura vida que lhe é imposta pela cultura da magra terra.
Actualmente o mato passou a crescer livremente, atingindo metros de altura em pouco tempo, criando brenhas impenetráveis, com a agravante de se estender a todos os recantos, até à proximidade das povoações.
O fogo continuará a ser rei e senhor das nossas terras se outras soluções não forem estudadas e postas em prática…”
Estas linhas foram escritas por José de Oliveira e Costa, no jornal A Comarca de Arganil (nº 6196) em 1967! Mas podiam ter sido escritas hoje.
Com efeito, já perdi a conta às vezes que aqui o escrevi, o que é verdadeiramente determinante na problemática dos incêndios é o combustível acumulado nas paisagens que o êxodo rural deixou abandonadas (Por exemplo a Pampilhosa da Serra, um dos concelhos onde o fogo tem sido um flagelo, tinha 15.500 habitantes na década de 1940, acabou o século XX com pouco mais de 5000, e continuou a perder, estando hoje abaixo dos 4000).
Parece simples, mas tem sido difícil de entender. Mitos vários contribuem para gerar confusão na opinião pública quando o tema dos incêndios é notícia. Por outro lado, passadas as horas de aflição, o esquecimento chega rapidamente. E como aqueles a quem confiamos a tarefa nos dizem que muito se tem feito… Acreditamos.
Mas não é verdade que até se tem feito muita coisa, investido muito dinheiro, reforçando estruturas, infraestruturas, equipamentos, elaborando planos, implementando programas vários, agilizando processos, mudando legislação vária, etc., etc.?
Sim, é verdade. Mas é só uma meia verdade. Porque são questões secundárias para a nossa segurança quanto a este problema. É a acumulação de mato o contexto de que falava Pyne, e é o seu controlo a forma de controlar o contexto do fogo, logo o próprio fogo.
Todavia na paisagem, o mato, tal como nos contava Oliveira e Costa no longínquo ano de 1967, continua a crescer livremente. Consequentemente, todo esse muito que se tem feito no resto, acaba por valer nada. É uma falsa sensação de segurança. Uma meia verdade. E como diz o provérbio chinês, se é uma meia verdade, é uma mentira inteira.
Dúvidas houvesse, fica a demonstração: sem eliminar os matos, acaba por ser o próprio fogo, via incêndios indesejados e indesejáveis (porque muitos deles catastróficos), a fazê-lo; as grandes queimas dos anos de 2003 e 2005 e depois os anos de 2016 e sobretudo 2017, foram as maiores limpezas de mato a que assistimos (nestes dois curtos períodos juntos ardeu 1,5 milhões de hectares, substancialmente mais que os 1,1 milhões ardidos nos restantes 17 anos – de 2006 a 2024). Naturalmente que os anos seguintes a estas grandes queimas seriam forçosamente anos mais… calmos.
Mas não é preciso grande esperteza para perceber que o efeito é temporário, a vegetação cresce de novo, e o perigo ressurge! Contudo, o que ouvíamos nesses intervalos (tanto fez, se foi com PS ou PSD)? Vale a pena reavivar a memória:
2008: “No ano passado tivemos o melhor ano de sempre e este ano ainda melhorámos mais.”;
2008: “Existe uma boa cooperação (…) estamos agora com uma melhor coordenação.”;
2014: “2014 foi o melhor ano na última década em número de incêndios e área ardida”;
2023: “Marcelo e Costa realçam lições (de Pedrógão)”;
2023: “Combate aos incêndios: 2023 é um dos melhores anos de sempre.”;
2024: “Estamos muito mais bem preparados e os portugueses podem estar descansados”.
Estamos, agora e com dor (porque o que podíamos ter feito e não fizemos, vem agora o fogo fazer à bruta), a perceber que estávamos mergulhados numa ilusão. Novamente numa ilusão. Vamos acordar de vez? Ou quando vier a chuva vamos deixar-nos enganar de novo?